ÁLVARO RIBEIRO E «A LITERATURA DE JOSÉ RÉGIO», 50 ANOS DEPOIS. 01

01-03-2019 11:12

Ao reler então as obras do autor de A Chaga do Lado fui paulatina e interminantemente revogando a interpretação decorrente de pretéritas leituras e, tão perturbado como quem assistisse ao milagre de uma cruz se transformar numa estrela, risquei palavras erróneas que substituí por frases certas aperfeiçoando, como creio, os escólios de outrora que reverdeceram a nova luz.

Álvaro Ribeiro, A Literatura de José Régio

 

 

O medo indistinto ao sobrenatural que assiste no íntimo de uma comunidade esotérica ou o receio «dos homens com face de demónio», qual teria sido o motivo que levou Álvaro Ribeiro a explicitar o seu judaísmo somente aos 64 anos num livro que trazia projectado «há mais de três decénios»?

António Telmo, Álvaro Ribeiro e a Gnose Judaica

 

 

Há meio século, corria o ano de 1969, após décadas de maturada e atribulada elaboração, Álvaro Ribeiro dava enfim a lume, com a chancela da Sociedade de Expansão Cultural, A Literatura de José Régio, um livro que o seu discípulo António Telmo viria a considerar a chave de uma cifra que é toda a obra que a precede e prepara. No dia em que se comemora o seu 114.º aniversário, iniciamos a publicação, que se prolongará ao longo do ano em curso, de um dossier temático sobre a efeméride, em que se divulgarão vários excertos da obra, bem como palavras que Telmo e outros sobre ela escreveram, e ainda alguma correspondência que documenta a sua elaboração e recepção. Um longo ensaio de muitas dezenas de páginas, da autoria de Pedro Martins, centrado no livro de 1969 e intitulado O Judaísmo na Cultura Portuguesa: o caso de Álvaro Ribeiro, será dado à estampa no livro Tabula Rasa - II Festival Literário de Fátima, que em breve será editado pela Zéfiro, com o selo da Colecção Nova Águia.   

 

«Fascinado efectivamente pelo patriotismo eloquente e apostólico de Leonardo Coimbra, hesitava eu todavia em segui-lo, intimidado perante a leitura de seus livros incomparáveis, onde se efectuava a polémica mais notável contra todas as doutrinas que erroneamente assentam na falsa hipótese de que no princípio era o cáos. Acontecia, porém, que a minha alma sempre preocupada com a vida religiosa, que sobrepunha à cultura filosófica e à curiosidade literária, estava então incapaz de compreender a historificação positivista da teologia francesa em três capítulos, três estados e três factos correspondentes à tríade Deus, Cristo, Igreja. Cansado de ouvir ou ler, nas orações homiléticas e nos artigos jornalísticos, as frases contundentes de que a Igreja proíbe, a Igreja reprova, a Igreja condena, perguntava-me perplexo se tal ignorância era professada por homens católicos e por mulheres católicas, consultava e estudava a documentação eclesiástica, recorria a livros estrangeiros, e no fim verificava que as ciências proibidas não iam contra a vontade da Igreja, a doutrina de Cristo, a ideia de Deus.

A heresia, significando etimologicamente procura de outra fé, deixou de me intimidar, quanto mais o exemplo de Leonardo Coimbra nos assegurava confiança no melhor caminho, já que o filósofo, relacionando sempre a liberdade com o amor, nos dava uma interpretação do cristianismo que transcendia os limites da dogmática católica.» 

Álvaro Ribeiro, A Literatura de José Régio, página 29.

 
 

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