CORRESPONDÊNCIA. 02

14-01-2014 10:52

CORRESPONDÊNCIA DE REBELO GONÇALVES PARA ANTÓNIO TELMO. 02

 

Mafra, 25 – II – 1963
 
Meu caro António Telmo:
           
            A sua estimada carta de 13 do corrente deve ter chegado à Faculdade em 14; mas só anteontem, sábado, chegou às minhas mãos. Descuido de um empregado que costuma ser cuidadoso, mas que não o foi desta vez, deixando esquecida numa gaveta vária correspondência endereçada ao meu nome nas últimas semanas.
            Como pode calcular, tive grande satisfação com a leitura da sua carta. O meu bom Amigo sabe muitíssimo bem quanto o aprecio pelos seus méritos intelectuais e quanto o estimo pelas suas nobres qualidades de carácter. E não ignora também, porque por várias vezes o tenho dito a amigos comuns, que conservo gratíssimas recordações da nossa afectuosa convivência na velha Faculdade da Rua do Arco (a Jesus).
            O que me conta do tal director desgostou-me, mas não me surpreendeu. Javardos desses são em número avultado na nossa terra e, quando menos nos precavemos, surpreendem-nos com festinhas das suas mimosas patas… Ainda há dias soube o que isso é, embora os meus cinquenta e cinco outonos me dessem alguma esperança de estar livre de tais bestiagas.
            Muito estimei saber que está agora disposto a dar as últimas arrancadas para a conclusão do seu curso. E pode, como é óbvio, contar comigo para tudo o que esteja ao meu alcance. Logo após a reabertura das aulas, comunicarei com os professores de Hist. de Port. I e de Pré-História. Depois, quando for oportuno, comunicarei com o de Hist. da Civil. Grega.
            Li e muito gostei (digo-o sem sombra de intenção lisonjeadora) do seu artigo sobre «Como Traduzir Henri Bergson». Aguardarei, pois, com todo o interesse, o prometido livro sobre a «Arte Poética» do mesmo filósofo francês. Entretanto, vou-lhe dizendo que quem é capaz desses cometimentos não terá dificuldade em preparar uma dissertação de licenciatura no campo da literatura grega ou no da latina.
            Do nosso amigo Eudoro de Sousa há muitos anos que não tenho notícias. Depois da promessa, nunca cumprida, de um artigo para a minha Euphrosyne (revista de filologia clássica de que estou já  preparando o 4.º volume), parou a correspondência entre nós. Suponho, no entanto, que ele esteja ainda, como professor contratado de Língua e Literatura Grega, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Florianópolis (Santa Catarina).
            A Maria Isabel, que recorda sempre com muita consideração o seu antigo e lealíssimo condiscípulo António Telmo de Carvalho Vitorino, está agora na Biblioteca da Reitoria da Universidade, cuja organização lhe coube. Saiu da Torre do Tombo para lá. Nunca esteve, porém, em Coimbra (senão a tirar o curso de bibliotecário).
            Já me ia esquecendo de lhe enviar felicitações pelo seu casamento. Aceite-as com a amizade de sempre, acompanhadas de cordialíssimos votos pela constante ventura do casal e dos herdeiros (?).
            Cumprimentos e lembranças da Maria Isabel e um afectuoso abraço do
 
                                                                                              Seu velho amigo, muito
                                                                                              admirador, dedicado e grato,          
    
                                                                                              Rebelo Gonçalves. 
 

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