CORRESPONDÊNCIA. 04

30-01-2014 09:54

CORRESPONDÊNCIA DE REBELO GONÇALVES PARA ANTÓNIO TELMO. 04

 

Lisboa, 31 de Outubro de 1968.

 

                    Meu caro António Telmo:

 

            Não fazia ideia de que estivesse agora mais perto de Lisboa. Supunha que se mantivesse em Brasília, donde me escreveu a sua penúltima carta.

            Estamos de acordo, meu bom Amigo. Aquilo não é país no qual se possa confiar. É um país que tudo promete e nada cumpre, pelo menos no que respeita ao que promete a Portugal. Por isso mesmo, desliguei-o da minha actividade intelectual e universitária, de tal forma que, tendo fundado em Coimbra a «Brasilia» e em Lisboa a «Euphrosyne», subintitulada «Revista Luso-Brasileira de Cultura Clássica», acabei por considerar unicamente portuguesa a segunda série desta última publicação. Não quero mais intimidade com um povo que faz dos tratados farrapos de papel e que só na aparência nos dedica amizade.

            Desejo-lhe as maiores felicidades na sua permanência em Granada. Que dela colha os melhores frutos!

            A Maria Isabel, que lhe manda cordiais lembranças, continua muito satisfeita no seu lugar de bibliotecária da Fundação Gulbenkian. Oxalá assim estivesse também o meu filho, que, coitado, lá está em Cabinda, em clima dos mais inóspitos do mundo, próprio para gorilas, mas não para seres humanos, a seguir o seu fadário militar, como capitão de infantaria. É já a terceira comissão de serviço obrigatória que cumpre no Ultramar. Quando é que isto acabará, meu bom Amigo?

            Aproveito este ensejo para lhe repetir, meu caro António Telmo, que o recordo sempre com muita admiração intelectual, com muita consideração moral e com muita amizade. E pode crer que a sua sincera e tão desinteressada dedicação a este seu velho professor é dos melhores prémios que a minha carreira universitária, por vezes tão atormentada por incompreensões e injustiças, pôde proporcionar-me.

            Há tempo falei a seu irmão Orlando (a quem, como sabe, também muito admiro), numa sessão da Academia das Ciências, mas foi, como se costuma dizer, de raspão. Mal pude pedir-lhe notícias suas.

 

            Com um grande abraço, faz votos pelo seu completo bem-estar e pelo de todos os seus o sempre

 

                                                                                             Seu m.to adm.ºr, am.º e grato

 

                                                                                                                        Rebelo Gonçalves.

 

 

 

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