CORRESPONDÊNCIA. 28

31-08-2015 12:16

CARTAS DE ANTÓNIO TELMO PARA ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO. 09

 

Estremoz

6-3-90

 

Estimado Amigo

 

Recebi o seu livro. Há dias enviei-lhe, pelo João Rêgo, o que me tinha pedido de Joseph de Maistre. Recebi a sua carta. Fiquei contente da sua vinda para Évora. Quando? Não mo diz. Claro que terei muito gosto em jantar consigo.

Há quinze dias que convivo com o seu espírito. Puseram à venda, na tabaqueira de Estremoz, um exemplar do seu livro para mim. A alma, tranquila, cristalina corrente tem a ressonância de um ritual [vitral?] na minha alma. Amo tudo no seu livro: a perfeita atenção e memória do mundo exterior acompanhadas, o saber subtil do pequeno, o convívio esotérico com a natureza e os seus segredos, a visão física de Inês pelo seu nome, a funda e certa reflexão sobre o sentido da História de Portugal. Pasma-se. António Cândido Franco, Mestre de Avis da Filosofia Portuguesa.

Há momentos em que se nos revela a perfeita Beleza. Por exemplo: a maçónica reflexão de Hirão em Mira.

Desde criança de dez anos em Arruda dos Vinhos que tenho sonhado escrever o que Shakespeare escreveria sobre Pedro e Inês. Tantos o têm tentado em vão, até o Vítor Hugo da mesma idade. É, porém, um caso que, em si, é tão perfeitamente significativo que nada é deixado à ideação do indivíduo que pretende descrevê-lo. Daqui o insucesso dos grandes espíritos que o tentaram. V. olhou e contou. Limitou-se a ver e a sentir e pensar o que viu. Daí o conseguimento onde outros fracassaram. Que idade tem, António Cândido Franco? Em si, a memória é um milagre.

Até mais ver. Seu dedicado   

 

                                               António Telmo

 

 

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