DISPERSOS. 05

26-01-2014 20:49

Eis um interessante disperso télmico de temática sesimbrense que se escapou por entre as malhas da rede com que em 2011 se organizou Sesimbra, o lugar onde se não morre, volume de edição municipal onde então se reuniram os escritos sesimbrenses de António Telmo. O artigo foi publicado em 1965, na edição de O Sesimbrense comemorativa do 8.º centenário da conquista de Sesimbra aos mouros -- o jornal saiu a lume no exacto dia em que, segundo a crónica, D Afonso Henriques, oitocentos anos antes, tomara o velho burgo acastelado --, e oferece-nos um documento particularmente importante do ponto de vista autobiográfico. Por estes dias em que Telmo está prestes a mudar decisivamente o rumo da sua vida --  em Outubro desse ano conhecerá Maria Antónia na Escola Preparatória de Estremoz e em Fevereiro do ano seguinte encontra-se já em Brasília, com Eudoro e Agostinho, tudo conforme a previsão rigorosa de Hórus --, o filósofo esclarece cabalmente a relação de pertença à camonina Piscosa, elogia, de alguma sorte, o dinamismo sedutor de uma Sesimbra vivendo então a Idade de Ouro turística, revisita as amizades de sua juvenil convivência, num universo povoado de sortilégios e mistérios, e exalta o belvedere deslumbrante da Serra da Achada que, décadas depois, lhe há-de motivar a quadra singela, mas profunda, do pórtico aposto às Congeminações de um Neopitagórico -- poético testemunho arrábido que ora garante o assomo da memória télmica na iminente reedição, pelo Centro de Estudos Bocageanos, da antologia A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa, organizada por António Mateus Vilhena e Daniel Pires, com apresentação aprazada para a Biblioteca Municipal de Sesimbra no próximo dia 22 de Março, pelas 15:00.

 

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Sesimbra[1]

 

 

Há vinte anos que vivemos nesta vila com oito séculos de existência!

 

Em vinte anos deve ter sofrido mais modificações do que em oito séculos! É fantástico!

 

Poder-se-á dizer que só o castelo permanece tal como então, inexpugnável. Naquelas pedras está toda a história de Sesimbra.

 

Há também o mar. O mar e o castelo põem frente a frente o homem e a natureza.

 

Nestes vinte anos, surge o Espadarte, o Náutico, o Hotel do Mar.

 

Nós éramos rapazes e íamos até às sombras da Califórnia: eu, o António e o Francisco Reis Marques, o Jaime e o Rafael, o José Preto e o Gilberto, tão parecido com o Rudolfo Steiner. Conversámos de duendes e de bruxas. O mar era o som fundo das nossas vozes. Havia em tudo aquilo a antiguidade do homem e da natureza.

 

Hoje, porém, os fantasmas foram exorcizados pela luz fria dos edifícios novos. É outro mundo, com belas raparigas estendidas ao sol. Os cabelos claros das estrangeiras afastaram as sombras. Por trás de tudo está a figura imensa de D. Afonso Henriques, o Conquistador!

 

O que é que está na nossa frente?

 

Falarei daquela nova estrada, ainda imperfeita, que começando numa rua de Santana, atravessa a Serra da Achada, onde já houve perdizes, e vai entrar na vila pelo lado da Califórnia, ali onde está o Bairro dos Pescadores. Porque eu creio que o mais importante para qualquer progresso, material ou espiritual, são as estradas. Depois virão as casas, as pousadas e os hotéis. E esta, a que atravessa aquela Serra onde ainda há caçadores, é muito mais bela do que a actual. Só lhe falta a largura e o piso necessários por onde deslizarão, sem ruído, os carros dos visitantes. Hoje, porque ainda é estreita e de mau piso, deslizam por lá, sem ruído, os carros dos namorados.

 

Sesimbra tem de ser uma vila progressiva porque está ao pé do mar. E o mar, com o seu mistério solene, incita ao sonho.

 

Do alto do Castelo, os grandes antepassados mergulham nele a vista.

 

Invoquemo-los, na hora que passa!

 

António Telmo

 

[1] O Sesimbrense, ano 39, n.º 420, Sesimbra, 21 de Fevereiro de 1965, p. 3.