DISPERSOS. 09

31-03-2014 11:29

[Ernst Jünger]

 

O número 13: página de autobiografia espiritual*

 

 

14 de Outubro de 1998

 

Ontem, dia 13, encontrei, sem que o procurasse, o texto de que precisava, desde que, há quatro anos, colhi no meu quintal um trevo de quatro folhas. Foi tão importante este encontro como o do trevo. Ambos são como o início e o fecho de um ciclo de vida. Mais uma vez a significação tornou interior e actuante o que, não obstante o seu carácter insólito, não diferia pela sua opaca exterioridade de tudo quanto vamos vendo no decurso dos dias.

O texto é de Ernst Jünger. “Um trevo de quatro folhas traz felicidade. Todavia, há uma condição, que o encontremos sem o termos procurado.” Ignorava esta condição. Vejo que no meu caso ela se deu. Lia no meu quintal o Homem de Luz de Henry Corbin. Ao suspender a leitura por uns momentos., o meu olhar caiu num trevo de quatro folhas, bem distinto num tufo que se amontoava à volta de uma roseira.

“Julgaremos estar perante um paradoxo e, no entanto, muitas pessoas têm o dom de descobrir trevos de quatro folhas sem que estivessem à procura deles. A minha mãe era uma dessas pessoas. Muitas vezes, passeando com ela ao longo de um campo de trevos, baixava-se para colher um de quatro folhas. Eu punha-me à procura, mas, apesar de todos os meus esforços, nunca consegui encontrar um que fosse portador da felicidade.”

Em rapaz, eu e outros da minha idade, por muito que o tentássemos, nunca nos foi dado encontrar a excepcional planta. Fi-lo muitas vezes depois. Cheguei a convencer-me que não existia o trevo de quatro folhas e que a tradição popular queria apenas significar com isso que a felicidade é impossível.

“Conheci – prossegue Ernst Jünger – outras pessoas que tinham adquirido esta faculdade. “Adquirido” não é, a bem dizer, a expressão justa; é antes um dom que se manifestou um belo dia. Data importante para elas.”

Data importante, pois, para mim. Importante por se ter manifestado o dom e não porque, depois disso, tenha acontecido alguma coisa que se pudesse interpretar como a vinda da felicidade. Tudo continuou a correr tranquilamente como antes.

“Desde que a “procura” me deixou

Aprendi a encontrar.

Desde que um ventre me fez frente

Navego com todos os ventos.”

“Nietzsche chamou a estes versos “A Minha Felicidade”. Os dois primeiros são ambos aplicáveis aos trevos de quatro folhas, os dois últimos dão a receita da arte da descoberta: a equanimidade.”

No meu caso, o encontro com o trevo de quatro folhas associa-se ao número treze que, desde aí, durante os quatro anos que entretanto passaram, começou a perseguir-me e a marcar acontecimentos e seres à minha volta. A página em que, ao acaso, o guardei era a 113. Ter-se-á fechado um ciclo de vida com o texto de Ernst Jünger, que me apareceu no dia 13 de Outubro? Ou terei de ver nele o portador do sentido que por mim mesmo não era capaz de ver naquele encontro e na repetida emergência do 13, factos que, não obstante o seu carácter insólito e excepcional, me apareceram envolvidos de invencível e opaca exterioridade? Não será, juntando uma coisa a outra, que um novo ciclo de vida se abre pela revelação desse sentido?

O trevo de quatro folhas é 1+3. Não é propriamente um trevo, mas qualquer coisa como um quadrevo.

Em todas as emergências do número treze, a mais espantosa é a seguinte. Desde a publicação da História Secreta de Portugal, caí nas redes do prestígio. Desde então tenho recebido cartas e visitas de muitos desconhecidos que seria capaz de esperar me viessem procurar para aprender qualquer coisa de mim. É, porém, divertido, observar que todas essas pessoas se põem a ensinar-me. Leio as suas cartas e, salvo um ou outro caso, não respondo; se vêm ver-me, escuto-os placidamente e, em geral, não voltam a procurar-me.

Ultimamente, recebi de um desses desconhecidos por três vezes uma série enorme de poemas patrióticos, católicos, messianistas, claros de dizer, mas sem a força da metáfora vidente. Nenhuma mensagem em prosa os acompanhava, talvez porque os fez a pensar em mim, que aliás, interpela aqui e além. Todavia, na última desses três cartas, havia uma página em A-4, onde estava escrito só o seguinte: Dedução do número 13 pelo três e pelo quatro e umas contas arbitrárias mostrando o procedimento dedutivo. Apesar de quanto isto me aparece como estranho e digno de atenção, não respondi. Responderei?

 

António Telmo

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