DISPERSOS. 18

10-01-2021 14:03

Carta (inacabada) a António Cândido Franco*

 

A linguística não se distingue da Kabbalah por considerar o que a palavra tem de social, deixando para a arte poética, que a segunda é, o que ela tem de meta-social ou de metafísico. Ao definirem a língua como um meio de comunicação, os linguistas têm inteira razão. Não é pensável língua sem, pelo menos, dois; o seu conceito implica sempre a existência de um emissor e de um receptor. Falamos e escrevemos conversando.

O que é capaz de distinguir a linguística da Kabbalah é a diferença entre a língua entendida como fonação e a língua entendida como audição. Os macacos não falam nem podem falar não é porque não possuam órgãos capazes de proferirem sons, mas porque não têm ouvidos para fonemas. É o facto de o homem possuir o ouvido que falta nos macacos que lhe permitiu adaptar e utilizar para a emissão de palavras órgãos que a natureza não produziu para falar, mas para comer e para respirar. Eu não penso, todavia, que a linguística seja tão oposta ou, pelo menos, tão distinta da Kabbalah em linguistas tais como Emílio Benveniste, Eduardo Sapir e Benjamin Lee-Worf e, talvez, Noam Chomski e Roman Jacobson. Donde veio oposição à Kabbalah foi dos alemães. O estruturalismo que é, como se depreende dos nomes acima referidos, um movimento judaico de reacção no século XX à linguística alemã que dominou todo o século XIX, deve ser interpretado como o modo que a Kabbalah encontrou de se revestir da aparência de uma ciência exacta.

É que a linguística surge no princípio do século XIX como uma disciplina científica, é no modo de se apresentar como ciência que reside a sua força. Ninguém ignora o poder deste moderno estratagema mágico. Só os nomes carregados de valores e, portanto, capazes de produzirem emoções são eficazes socialmente. A modernidade pode ser caracterizada pelo prestígio da palavra científico. Todavia, qualquer sistema de pensamento para se apresentar como científico tem de satisfazer certas condições.

A linguística começou por ser fonética, isto é, por dissociar a palavra do sentido, de modo a tomá-la como pura materialidade.

A intromissão do sentido viria pôr em perigo o rigor da ciência que se pretendia fundar. Era necessário que a língua se pudesse estudar como fenómeno material, analogamente ao que acontece com o objecto das outras ciências.

É um acaso significativo a semelhança acústica da palavra fenómeno com a palavra fonema e de nómeno com nome (nomen). O kantismo está por detrás de Franz Bopp. Os nomes, na fonética alemã do princípio do século XIX, são considerados fora dos seus sentidos como associações de fonemas, sujeitos a transformações ao longo dos tempos, cujas leis (de associação e de mutação) a nova ciência vinha determinar. O conhecimento destas leis constitui a base da linguística histórica e comparativa.

Com a descoberta do sânscrito, os linguistas alemães embandeiraram em arco. As conhecidas afinidades da filosofia alemã com o pensamento hindu encontraram a sua ressonância na linguística. Franz Bopp começou a escrever a sua Gramática Comparada das Línguas Indo-Germânicas e não ainda das línguas indo-europeias. O sentido da designação é flagrante: As línguas indo-germânicas constituiriam um grupo perfeitamente distinto das línguas semitas e o mito pelo qual o hebreu era tido pela língua primordial da humanidade não poderia resistir à demonstração rigorosamente científica do indo-germânico, depois indo-europeu, como a língua original de onde teriam derivado as línguas do mundo civilizado. Diels, outro alemão, veio depois completar o empreendimento de Bopp com a Gramática Comparativa das Línguas Românicas.

Esta finalidade teve como meio instrumental a fonética e por tal modo que a Kabbalah e os seus métodos – a temuria, a guematria e a notaria – ficaram completamente desprestigiados. O combate não foi explícito e declarado. Passou pela destruição do Crátilo de Platão, cujos princípios e cuja doutrina, quando não foram ridicularizados, passaram a ser identificados com a pré-história da linguística. Ainda hoje é corrente afirmar que o próprio Platão não acreditava no que escrevera e que o escrevera para o ridicularizar.

Na verdade, o que acontece é que a gramática de Platão nada tem que ver com a fonética dos alemães, embora esta que nada tem que ver com aquela tenha servido para destruí-la. A oposição aqui entre a linguística e a arte poética é completa. O objecto de estudo não é o mesmo, não é o mesmo o método, o fim também não é o mesmo. Dar a linguística como o resultado de uma evolução que teve início no Crátilo é um erro, se de erro se trata, análogo ao que se comete quando se deduz a química da alquimia ou a astronomia da astrologia.

São diferentes quanto ao objecto. O objecto da fonética alemã é a fala; o da gramática antiga a escrita. Da primeira é o falar vulgar e comum; da segunda os textos poéticos (de Homero, Hesíodo, etc.).

São diferentes quanto ao método. Dou o exemplo do modo pelo qual se determinam os étimos. Para Platão as palavras primitivas são os fonemas enquanto sentidos; para os foneticistas palavras historicamente anteriores que se encontram por comparação de palavras de línguas diferentes. Aqui o sentido não tem qualquer relevância. No Crátilo, o fim é o conhecimento dos nómenos; nos modernos o conhecimento das leis que regem os fonemas enquanto fenómenos.

Esta tríplice diferença foi propositadamente construída. A compatibilidade entre a linguística e a arte poética é possível. O estruturalismo deve ser compreendido, no seu melhor aspecto, como uma feliz tentativa de realizar esta compatibilidade. Falarei disso mais adiante, dando as provas do que afirmo. Por agora, lembro apenas que Ferdinand de Saussure baniu a fonética dos estudos linguísticos, repelindo-a para o domínio das ciências acústicas por não ter em conta significado, sem o qual a linguística fica sem objecto.

No combate que desencadeou contra a Kabbalah, a linguística alemã começou por fazer três coisas. Aboliu a distinção entre vogais e consoantes que as dava como os elementos de uma oposição em que só as primeiras eram fonemas. Repare-se bem nisto porque é muito importante. A manter-se a distinção punha-se em questão a sólida materialidade da língua, indispensável para a fundação da nova ciência. Na fala, haveria sons que em si não eram sons: as consoantes; sons que só se manifestam como tais com o suporte de uma vogal. Vozes só as vogais.

A segunda coisa que fez, que deriva desta, foi a de condenar o estudo dos fonemas pelas letras, entendendo estas, evidentemente, como a representação visual daqueles. Como acontece, porém, que as letras, nos alfabetos anteriores ao grego, não registavam as vogais, elas não devem ser interpretadas como transcrições de fonemas, pois que as consoantes são, nesses alfabetos, o que não tem som próprio. O registo das vogais no alfabeto grego não significa um progresso, mas sim uma decadência. A fidelidade à sabedoria gramatical mais antiga permanece na filosofia grega, uma vez que no Crátilo, no Sofista, no Theeteto e no Filebo só as vogais recebem o nome de fonemas (tá phonéênta).

A terceira coisa, que deriva da primeira e da segunda, consistiu em identificar a língua, não com a forma superior que recebe nos textos poéticos, mas com a fala comum, que é a adaptação à vida prática daquilo que foi criado para outros fins.

Estes três momentos ou movimentos da linguística alemã foram indispensáveis no processo de materialização da linguagem humana.

Na verdade, sabemos nós o que é uma língua? O que é isso que só existe pelo uso que dele fizermos? Só é enquanto acto. Os dicionários são cemitérios de palavras.

Podemos distinguir vários usos de uma língua: o uso proposicional, o lúdico, o uso afectivo, o uso prático, etc. A sua verdadeira forma, aquela em que se realiza inteiramente como acto puro, é a poética. Aí é que devemos surpreender as verdadeiras relações dos elementos viventes que a constituem. O uso que dela fazem os homens está completamente condicionado pela qualidade dos interlocutores.

Verificamos por este caminho que, na prática, ou seja, na vida social nascida de finalidades práticas, entre o significante e o significado não há uma relação necessária. É o que Sócrates admite na terceira parte do Crátilo. A linguística fundada por Saussure no início do século XX (1916) teve que considerar a frase, e não o fonema, o acto por excelência da língua. Digo que teve de considerar porque, sendo um movimento contra a linguística alemã, era-lhe necessário mostrar que a língua é primacialmente significado. A fonética foi repudiada e substituída pela fonologia que restabelece a ideia antiga de elementos e os dá ou interpreta como traços distintivos de significados. É interessante observar neste ponto que Saussure considera os alfabetos tradicionais obras-primas de classificação dos traços distintivos.

O argumento para defender a ideia de que é a frase que comanda na língua o seu movimento portador de significação é o de que as palavras variam de significado conforme a frase em que se integram. É verdade, mas daí não deriva a necessidade de considerar as palavras e os fonemas insignificativos. Diz-se que a pessoa que fala só tem consciência do conteúdo de significação da frase e não das palavras que a constituem. Não é verdade. No uso prático ou corrente da língua, a pessoa não tem consciência desse conteúdo, mas só de uma intenção. A linguagem automática das conversas correntes é formada de sucessivas intenções que se encadeiam sem que haja, até delas, clara consciência.

No uso proposicional da língua, como por exemplo num verídico texto filosófico, o sentido da frase depende do sentido das palavras dominantes. No uso poético, o artista tem plena consciência dos fonemas e das suas intenções.

É esta uma das lições que recebemos do Crátilo. A leitura inteligente do famoso livro de Platão mostra que ele se divide em quatro partes pelas quais se exprimem quatro graus de acesso ao conhecimento do que a língua é. Logo no início, o mais novo e menos sábio dos interlocutores do diálogo, Hermógenes, aparece a defender contra Crátilo a tese de que a relação do significante com o significado é convencional. Fá-lo vinte séculos antes de Saussure. Crátilo ri-se dele. A defesa daquela tese é a prova de que Hermógenes nada sabe ou conhece de sabedoria hermética e, como Hermes foi o deus que ensinou aos homens o alfabeto, o nome de Hermógenes, que significa “gerado por Hermes”, não pode ser o do seu portador.

Sócrates é chamado a intervir e dispõe-se a iniciar Hermógenes no mistério da palavra. O argumento do jovem, em tudo igual ao de Saussure, para mostrar a convencionalidade das significações das palavras é o seguinte: “Ó Sócrates, eu não concebo senão um modo justo de atribuir os nomes: eu posso dar a uma coisa um nome estabelecido por mim; tu à mesma coisa um nome estabelecido por ti. Acontece o mesmo com as cidades. Vejo-as, às vezes, darem um nome diferente à mesma coisa, vejo nisto, que os Gregos divergem dos Gregos e os Gregos dos Bárbaros.”

O plano em que se situa Hermógenes é o plano que a Kabbalah designa por Asiah, o plano da Fabricação. Sócrates vai levá-lo ao plano seguinte, o de Yetsirah ou da Formação. Ali, os nomes aparecem como o que se fabrica do exterior para designar isto e aquilo; aqui, os nomes formam-se a partir do interior do sentido pelas operações da imaginação.

No mundo da alma, a convenção deixa de ter sentido; o que aí domina é a arbitrariedade, não a que resulta de substituir uma convenção por outra convenção como no plano anterior, mas a que é a própria actividade da imaginação procurando o sentido para as palavras. Sócrates diz-se inspirado pelo daimon de Euthyphron, um adivinho de Atenas, dado por completamente estúpido no diálogo que tem por título o seu nome. A erudição alemã baseia-se neste último dado para mostrar que o próprio Platão não atribuía qualquer veracidade às etimologias pelas quais, sob o impulso do daimon de Euthyphron, Sócrates pretenderia mostrar a Hermógenes o erro da sua tese. O facto de algumas dessas etimologias e de outras obedientes ao mesmo processo se encontrarem noutros diálogos de Platão e em momentos de inequívoca seriedade filosófica não perturba a erudição alemã. O filósofo encheu páginas e páginas do Crátilo com elas. Para exemplificar a estupidez de Euthyphron é de mais! Todavia, os eruditos continuam a não se perturbar. Valerá a pena mandá-los ler aquele passo do Fedro onde se diz que as pitonisas que tão elevados serviços prestavam à Pátria, quando o deus as abandonava, eram uns seres iguais a toda a gente e até destituídos do menor grau de inteligência?

De resto, há uma necessidade íntima que comanda essas etimologias. Como se trata de um assunto que toca o limiar de terríveis mistérios falarei disso um dia.

O procedimento que Platão usa de explicação dos nomes existentes nos textos poéticos é o mesmo que a Kabbalah usa para os nomes dos textos sagrados hebreus. Encontramos neste lugar do Crátilo o correspondente da Temuria, da Notaria e da Guematria. Da aplicação da Guematria dou só este exemplo: “Sabes que nós designamos os elementos por nomes, pelos seus nomes, e não por eles próprios, com a excepção de quatro: o e, o u, o o e o ô. Os restantes, vogais e consoantes (phonnesi te kai aphonois), recebem, por meio de outras letras, um nome. Uma vez que por essas letras exprimimos claramente o valor numérico do elemento, é legítimo dar-lhe o nome que revela inteiramente a sua essência. Seja, por exemplo, o bêta. Tu vês que a adição do ê, do t e do a nada alterou a letra e permitiu manifestar a natureza destes elementos com a ajuda de todo o nome, como o quis o legislador (o nomothétês).”

Os exemplos de Temuria e de Notaria são todos os outros. É fascinante observar como as operações com letras, que Sócrates faz, sob a inspiração do daimon, são as mesmas que com imagens faz a alma para a elaboração do sonho. Tenho em mente, já se vê, a interpretação do sonho por Freud. Era útil estabelecer pormenorizadamente a comparação.

O que há aqui a fixar é que Platão não pretende encontrar dos nomes o seu étimo histórico. Se assim fosse, não teria dado para o mesmo nome várias explicações que considera todas verdadeiras. É idiota afirmar que todas essas etimologias são falsas, com excepção de duas ou três, como se o filósofo tivesse pretendido fazer a história do nome que estuda. O plano em que se situa é completamente outro. É o plano de Yetsirah, bem superior àquele em que se situam os modernos intérpretes do Crátilo. Condenar o processo de formação das palavras, tal com o descreve Platão, é tão absurdo como exigir para a alma um procedimento historicista da produção dos sonhos.

O problema que aqui se põe, se há problema, é o das raízes das palavras, se as devemos procurar no inferno ou no superno. O comparativismo alemão determinou o que há de comum entre as palavras de várias línguas e, com algum jeito, ajudado por um tal grau zero que, sendo zero, dá para tudo, encontrou um número razoável de raízes que identificou com as palavras de uma língua falada algures no passado pré-histórico ou fundamente histórico, tão fundo como funda é a nossa ignorância do que só imaginamos por conjectura. Se o português vem do latim, o latim de onde vem? Mas vem o português realmente do latim? Não é este a matéria de que se apoderou activamente o génio que se revelou no português? As transformações fonéticas não obedecem, como se pretende, à lei do menor esforço, porque se assim fosse teríamos não português, francês e italiano mas uma só língua. As línguas não são degenerescências, são generescências.

As raízes no Crátilo são os elementos do alfabeto. Quando Sócrates pergunta a Hermógenes, depois de ter mostrado que os nomes resultam das mutações e das combinações das palavras primitivas, como é que devemos explicar o que não tem nada antes, há uma nova subida de plano, que convém referir àquele que os cabalistas designam por o de Beriah ou da Criação. De facto, é aqui que parece dar-se uma emergência do nada.

Não é de aceitar a explicação onomatopaica dos sons primitivos tal como a formulou Herder e depois adaptaram ao interesse de uma miserável antropologia os seguidores de Darwin. Fica-se indignado quando um homem como Emílio Benveniste nos vem dizer que a linguística considera hoje insolúvel o problema da origem da linguagem articulada e que a única coisa que podemos afirmar é que onde quer que tenha havido sociedade houve, de certeza, língua. Mas os linguistas do século XX têm razão, só que não é o problema que é insolúvel, é que não há problema. A língua não tem origem histórica.

Quem acabou definitivamente com os darwinistas foi Eduardo Sapir. Basta citar: “Se fosse possível demonstrar que a linguagem, de maneira global, considerada nos seus longínquos fundamentos históricos e psicológicos, provém das interjeições, não seria legítimo concluir disso ser ela uma actividade instintiva, mas, na realidade, todas as tentativas para uma tal demonstração da origem da linguagem foram infrutíferas. Não há evidência tangível, de ordem histórica ou de outra ordem, que se preste a admitirmos que a massa dos elementos e dos processos da linguagem seja uma evolução das interjeições. Estas constituem uma porção mínima e funcionalmente insignificante do vocabulário de qualquer língua. Em nenhuma época e em nenhuma província linguística até hoje conhecida vimos sequer uma tendência apreciável para com ela se elaborar a trama de fundo da linguagem. Nunca passaram, quando muito, de um debrum decorativo para aquele amplo e complexo tecido.”

 

António Telmo

 

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* Nota do editor – Publicado originalmente em Teoremas de Filosofia, n.º 9, Primavera de 2004, pp. 28-34.

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