DOS LIVROS. 03

12-03-2014 20:45

O pensamento ocultista e revolucionário de Álvaro Ribeiro

 

Em 1979, num dos últimos escritos, o filósofo, não temendo já que o proibam de viver, deixa, bem claro, o que pensa sobre a questão religiosa:

“Só os estudiosos sinceros das ciências ocultas – melhor, das causas ou qualidades ocultas –, se mostraram capazes de, por sanção ou por oração, relacionarem o espírito humano com o espírito divino. A arte de filosofar é, por conseguinte, uma actualização constante das provas da existência de Deus. A Igreja Católica, hoje mais perplexa que ontem, ou talvez mais prudente, terá de aceitar, enfim, o messianismo de S. João Evangelista e de Joaquim de Floris, libertando a liturgia de praxes e de dogmas que representam rotinas pretéritas, já insignificantes ou talvez hipócritas.

No parágrafo seguinte, chama “livres pensadores religiosos” àqueles para quem, como diz, a arte de filosofar é o estudo sincero das causas ocultas.

Vinte e quatro anos antes, em 1955, num artigo que publicou na Revista do Norte com o título significativo Sampaio Bruno e a Verdade Oculta caracteriza assim o livre-pensador:

“Recebemos do século passado o preconceito erróneo de que livre-pensador é o homem capaz de pensar sem a mínima referência aos assuntos religiosos, que o verdadeiro e autêntico livre-pensador é afinal o ateu.”

“Livre-pensador é o homem capaz de pensar livremente os valores – o bom, o belo e o vero –  e mais ainda aquilo que os unifica e afinal garante. O problema do infinito incita o livre-pensador a meditar heroicamente a difícil temática religiosa. Nisso está o mérito ; nisso está a dificuldade ; nisso está o perigo ; porque o livre-pensador, ao contrário do positivista, avança por um domínio delimitado pelos escolásticos, mas acelera a evolução espiritual da Humanidade.

Sampaio Bruno não começou por ser livre-pensador. Sofreu a pressão dos sofismas dominantes no ambiente cultural da cidade do Porto, aceitou iludido as teses negativistas do voluntarismo germânico até ao dia em que, iluminado ou iniciado, converteu em doutrina diferente as generosas aspirações da sua mocidade.”

O mais surpreendente neste artigo sobre Sampaio Bruno é o que vem depois: a caracterização do autor de A Questão Religiosa como pensador católico através dos ensinamentos esotéricos, conjectura Álvaro Ribeiro, que terá recebido, no exílio em Paris, de Joséphin Péladan. Esta ideia de que a filosofia portuguesa, fundada por Bruno, tem por base uma tradição esotérica indissociável do catolicismo encontramo-la, no mesmo ano de 1955, claramente expressa n’A Arte de Filosofar:

“A tradição portuguesa, a esperança de que o Cristianismo reintegrará o Homem e a Natureza no Reino de Deus, durante o século XVIII passa a exprimir-se em termos diferentes dos que ficaram estabelecidos na nomenclatura da teologia católica e da filosofia aristotélica. A obra de Pascoal Martins, vertida maravilhosamente na cultura da Europa Central, dá-nos uma síntese, ainda hoje admirável das tradições peninsulares.”

A generalização do ensino de Pascoal Martins, que Sampaio Bruno identifica como português e cristão-novo, é conhecida pelo nome de martinismo. O martinismo seria, segundo Álvaro Ribeiro, uma expressão da constante sabedoria esotérica que, no passado, se estabelecera nos termos da teologia católica e da filosofia aristotélica. Dante terá sido o medianeiro:

“Convém aproximar a doutrina dos três planos teológicos – Inferno, Purgatório, Paraíso – com a doutrina dos quatro elementos, incluída na cosmologia de Aristóteles. Se o simbolismo da terra é inferior ao simbolismo da água, se o simbolismo pagão da agricultura é inferior ao simbolismo cristão da pescaria, se o simbolismo do túmulo é inferior ao simbolismo da nave, a navegação portuguesa, utilizando os elementos superiores da física, correspondia à tradição de mais fluido e subtil simbolismo. A Terra é uma nave, e as viagens em demanda do Oriente pelo Ocidente visaram a promessa cristã de reintegração do Homem e da Natureza no plano original.”

A superação do simbolismo do túmulo pelo simbolismo da nave na Igreja de Cristo têm, nestas linhas, um sentido que, despido do prestígio das imagens, será aquele mesmo que, em 1979, vinte e quatro anos mais tarde, aparecerá no prefácio ao livro de Conceição Silva sobre Os Painéis das Janelas Verdes.

O último dos doze livros de Álvaro Ribeiro foi As Memórias de um Letrado. O primeiro volume tem a data de 1977, o terceiro a data de 1980. O seu verdadeiro nome é, pelo que foi dito e pelo que virá a dizer-se, Memórias de um Kabbalista. Letrado é, como a palavra o significa, aquele que tem o conhecimento das letras, mas tal conhecimento é, na sua forma superior, a própria Kabbalah. Como se sabe, este é o nome hebraico para tradição. Todavia, a remota antiguidade que os kabbalistas lhe atribuem, é negada pela erudição ao dá-la como nascida na Península Ibérica, no século XII.

O problema da filosofia portuguesa poderá somente ser vencido quando ficar bem estabelecida a existência de uma tradição sófica portuguesa, isto é, a existência de uma comunidade espiritual invisível, através de Portugal procurando “acelerar a evolução da Humanidade”. Dos seus efeitos, visíveis na arte, na política e na religião, apenas os filósofos iluminados ou iniciados serão capazes de tomar consciência como efeitos de causas ocultas activas. Álvaro Ribeiro identificava, como vimos, a tradição portuguesa com a Kabbalah e atribuía-lhe o poder de realizar a síntese católica das três tradições religiosas peninsulares.

 

António Telmo

 

(Publicado em Viagem a Granada, 2005)

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