DOS LIVROS. 06

03-04-2014 00:21

No 20.º aniversário da partida de Agostinho da Silva...

[Agostinho da Silva na Universidade de Brasília, fotografado por António Telmo]

 

 

De uma conferência de 19-V-06 (6.ª Feira) na Associação Agostinho da Silva

 

Fuimus simul in Garlandia. Estivemos juntos em Brasília. Eu nem sequer ainda licenciado, com o mais insigne helenista e o supremo latinista lusobrasileiro Eudoro de Sousa, o exímio tradutor da Poética de Aristóteles e o Agostinho da Silva que traduzia um texto do latim para o português com a velocidade do pensamento.

Não exagero. Um dia, deparei com um não sei quê numa ode de Horácio que me feriu a alma de espanto e, como Agostinho da Silva estivesse por ali, quis que ele participasse comigo do mesmo espanto. Pegou no livro, correu a ode com o olhar e, devolvendo-mo, interpretou cada verso, c ada palavra, até cada fonema da ode perturbadora.

De outra vez, pedi-lhe que me explicasse, pelo que ao latim dizia respeito, um passo difícil de Tácito. A pergunta que lhe pus caiu, por um destes acasos inexplicáveis, na sua única zona de ignorância. Tirou das estantes uns livros e pôs-se a estudar o assunto. Passados uns minutos, voltou para junto de mim, disse-me como a coisa era e, esfregando as palmas das mãos uma pela outra, exclamou com um ar de gaiato: «Agora já ninguém me ganha. Era o que me faltava saber do latim.»

A simplicidade na complexidade é o que caracteriza o homem superior. Daí a tentação que todos sentimos perante essa complexidade que logo nos é evidente de a reduzirmos a uma ideia simples que nos dê o homem todo feito e quase sempre à medida dos nossos pequenos ideais. Alguns têm procurado ver em Agostinho da Silva apenas o homem de acção, o político, o comprometido com este ou aquele sentimento geral e, porque geral, sem a nota pura da singularidade. Assim, há quem queira ver nele só o monárquico que confessou ser perante as câmaras da televisão ou então só o comunista, que nunca confessou ser, mas que se deduz da sua apologia do municipalismo medieval. Uns vêem nele o católico, outros o heresiarca; uns o místico, outros um dos epígonos, no domínio do pensamento, da ciência moderna. Agostinho da Silva é isto tudo e muito mais, e também muito menos, porque terá sido, durante a vida, no modo como a viveu e pensou, um dos homens que mais de perto esteve de realizar o ideal do «pobre de espírito» de que nos fala Cristo no Evangelho, sabido como, para pedir a dádiva divina do espírito, necessário é que nos sintamos nada, mas um nada que é tudo, supremo paradoxo!

 

António Telmo

 

(Publicado em Congeminações de um Neopitagórico, 2006/2009)

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