DOS LIVROS. 09

15-05-2014 09:47

De um caderno de apontamentos. 04

 

Quando dei a um dos meus contos o nome de A Dama de Oiros, tive alguma hesitação entre oiros e ouros. A melhor gramática de língua portuguesa, que é uma gramática espanhola, ensina que, nos autos de Gil Vicente, os dois ditongos distinguiam cristãos e judeus. Onde o cristão diz agouro diz o judeu agoiro. Com efeito, a evolução do ditongo au latino de aurum para oi, sendo foneticamente impraticável, terá de explicar-se por importação de outra língua o uso deste ditongo, alternando com o ditongo ou nessas palavras de forma dupla. O mais comum é dizer-se, hoje ainda, ouro e não oiro, tesouro e touro.

A substituição do vau (u) pelo yod (i) na palavra aurum está, como nas outras palavras de forma dupla, como uma marca de um povo em que o yod (i) designa o judeu.

A raiz aur da palavra aurum aparece em aurora e em aura e, como em hebreu aur significará luz, estamos perante um dos muitos casos que torna discutível a separação entre línguas semitas e línguas indo-europeias. O que é surpreendente é que também a palavra aures (orelhas, ouvidos), tenha a mesma raiz, como se o ouvir fosse um escutar da luz.

Ninguém como os judeus do tempo de Gil Vicente estava em condições linguísticas mais bem situado do que eles para interpretar a palavra aurum na sua relação com a luz. Podemos por isso imaginá-los a repelir o som cavo e obscuro ou, achando-o imperfeito para exprimir o esplendor do metal luminoso.

O i, décima letra, enquanto yod, do alfabeto hebraico, é aquele ponto luminoso irradiante (Tipheret) para oito direcções. O vau corresponde a Malcuth, ali onde a luz toca o abismo e as trevas, é, como expliquei na minha Gramática da Língua Portuguesa, o ponto em que a treva se torna luz e a luz treva. Entre a noute (palavra hoje desusada) e a noite há toda a diferença de uma noite escura sem luz e sem estrelas para uma noite límpida de Janeiro.

A Dama de Oiros está impregnada de uma luz que a Dama de Ouros não contém. Daí a minha preferência no titular do conto.

Para o rio Douro não temos a variante Doiro. Mas, se em vez de Minho puséssemos Munho, criaríamos uma palavra sem qualquer luz dentro. Os fonemas são ou não são significativos?

Só não o são para os linguistas de ofício. E, no entanto, são estes linguistas que nos ensinam nas Universidades. Fazem-no de costas voltadas para a Arte Poética, essa Cabala dos loucos.

 

António Telmo

 

(Publicado em Congeminações de um Neopitagórico, 2006-2009)

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