DOS LIVROS. 16

09-07-2014 10:49

De um caderno de apontamentos. 06


A saudade e o amor são manifestações do que a angelografia hebraica designa por Shekina e Metraton?

Pelo menos, é através de uma e de outro que parece passar a luz pela qual as duas potestades angélicas se nos tornam humanamente inteligíveis.

A saudade e o amor, no seu primeiro momento fenomenológico que é o da relação terrestre do amante com a amada, oferecem-se-nos como as duas faces do mesmo. Assim, no amor, a presença corporal da amada acorda no amante o sentimento do fugaz e inapreensível, do que estando presente está ao mesmo tempo ausente, do inviolável; pelo contrário, na saudade, ela é presença na imagem vivida em lembrança e ausência no seu corpo e seu lugar longínquo no espaço e no tempo.

O amor à distância de todo o espaço e de todo o tempo que há entre os dois é saudade; a saudade que se tem do que se possui na proximidade é amor. Nos dois casos, há sempre uma elipse, de que um foco é visível e o outro invisível. Num desses focos está a imagem luminosa e directamente visível; no outro o seu reverso nocturno e inacessível. O movimento de amor ou de saudade é elíptico como o da terra à volta do sol. Se não há, porém, a consciência simultânea do acessível e do inacessível, da presença e da ausência não há amor nem saudade. Haverá lembrança com dor, mas sem alegria, presença satisfeita, mas sem o sentido do mistério que é a amada.

Esta identidade especulativa, e digo especulativa a pensar na inversão pelo espelho, tem sido assinalada pelos poetas, mas ignorada pelos filósofos. Camões diz do amor ser “um contentamento descontente”; Pascoaes diz da saudade ser um misto de dor e de alegria, de presença e de ausência, de desejo e de lembrança.

Metraton é o Anjo da Face, o medianeiro entre a Divindade insondável e a Criação. A sua linha de presença à Divindade insondável que contempla face a face e à Criação de que tem o segredo da origem é a do meio, mas divide-se, de acordo com o desenho ou o desígnio da Árvore da Vida, em duas correntes nele unificadas, à esquerda e à direita. À direita São Miguel é o seu aspecto luminoso, à esquerda São Gabriel é o seu aspecto nocturno. Num é Misericórdia, no outro Rigor. A Shekina levanta-se do abismo, reflectindo a luz que emana de Metraton, descida do alto. É Malcuth, na sua suavidade lunar, mas participando de Geburah, o Rigor ou o Pavor, na sua essência profunda.

 

António Telmo

 

(Publicado em Viagem a Granada, 2005)

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