DOS LIVROS. 22

03-11-2014 13:15

«O salazarismo constitui uma falsa vivência dos valores patrióticos, um socialismo positivista e plutocrata, uma paródia mnésica que encobriu sistematicamente o que de profundamente sério motivou as quedas e as asceses da evolução histórica do nosso povo.» 

Da "Introdução" à História Secreta de Portugal

 

Os livros começam a ler-se pelas primeiras páginas e muitas vezes o leitor fica por aí. Pensamos que, neste caso, não ficaria inutilmente, se conseguisse interpretar todo o sentido do horóscopo de Portugal, traçado pelo próprio punho do grande poeta. Pela nossa parte, temos reflectido tanto sobre o facto estranho de não se encontrar nele nenhuma data para além de 1978, que, dessa reflexão, saiu este livro.

Se 1978 é a última data assinalada, significará o termo da vida da Pátria ou aponta somente o fim de um ciclo astrológico, donde Portugal sairá para novos destinos?

É esta, à luz do horóscopo, a grande incógnita histórica do momento. Por outros caminhos, aparentemente menos quiméricos, poderá chegar-se a defrontar o mesmo dilema. Não se esqueça, porém, o leitor que estamos em 1977 e, considerando as grandes transformações do ser de Portugal nos últimos três anos, não deixe de ter em conta que o horóscopo foi traçado há quarenta anos por aquele homem excessivamente lúcido, que, então, disse:

 

“Cumpriu-se o mar e o Império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal!”

 

Disse-o como se estivesse depois da queda do Império. Em 1930, ainda o Império se não tinha desfeito.

1978 não está ali somente como a última data assinalada. Regista-se também no horóscopo que, no dia 1 de Janeiro de 1978, Osíris (é como Pessoa designa o Sol) transitará da quarta casa para a quinta casa, depois de ter permanecido na primeira durante cento e um anos[1]. O que significa isto?

É a quarta casa o lugar dos antepassados, a morada subterrânea dos heróis, o Inferno do horóscopo, na designação comum dos astrólogos.

Se assim é, a entrada de Osíris nessa casa em 1877 e a sua permanência ali durante um século e um ano não podem senão significar a descida aos infernos de Portugal. Com efeito, estes cento e um anos marcam um período de extrema decomposição da Pátria, depois da morte prematura de D. Pedro V, em quem o povo, pressentindo a descida e a queda, pôs ainda o sinal da sua esperança. De então para cá, assistimos à mais pura manifestação da mediocridade política nos três últimos Braganças, a essa terrível desilusão que foi a República, obra do positivismo que tinha fatalmente de produzir Salazar e o que ele representou, que nos educou durante 48 anos e deu a geração do 25 de Abril e a sua política de cozinha, sob o nome pomposo de economia.

Afinal, a significação do horóscopo e da Mensagem é a mesma. Dir-se-á que não é a sua base astrológica e geomântica. Todavia, o poema não anuncia, como apressadamente se julga, a glória futura dos portugueses pela vinda do Rei-Messias. Toda a terceira parte da Mensagem é uma invocação e uma prece.

Não podia ser de outro modo. De uma descida aos infernos nunca há a certeza de voltar. Mas o terrível é que, sem essa descida, também não há a possibilidade de prosseguir. Este é um dos grandes sentidos da Mensagem e daí a exortação maçónica final: “Valete, Frates”.

É evidente que nada disto terá realidade à luz da história profana de Portugal, de uma história que, até essa, foi ultimamente banida do ensino. Necessita, para ser, do conhecimento da história fundamental. O salazarismo constitui uma falsa vivência dos valores patrióticos, um socialismo positivista e plutocrata, uma paródia mnésica que encobriu sistematicamente o que de profundamente sério motivou as quedas e as asceses da evolução histórica do nosso povo. Foi fácil a outros adversários de Portugal desmascarar com dois ou três slogans a relação entre o culto dos heróis e os interesses do regime, depois de terem sido chamados pelo mesmo Salazar e seu sucessor Caetano a ensinar nas nossas universidades que tudo na história se deve explicar pela economia e pela luta de classes. Ninguém vai supor que os dois chefes políticos, admiradores de Augusto Comte e de António Sérgio, se tenham enganado ao admitir no ensino e nos lugares dominantes da cultura a colaboração de todos aqueles que consideravam a economia a primeira das ciências.

Do ponto de vista positivista, o culto dos valores pátrios é uma forma persistente de sentimentalismo, cuja existência se reduz ou se estimula consoante os interesses políticos do momento. Sabe-se como o positivismo, do qual Teófilo Braga era o primeiro-ministro, se serviu desses valores, consagrando e celebrando certas efemérides para destruir a influência da Igreja que, pelos feriados e pelas festas, semanais ou solenes, dominava o horizonte ritual dos portugueses. A República, porém, não teria sido possível sem a difusão da doutrina positivista no mundo eclesiástico[2]. O reatamento das relações do Estado com a Igreja não alterou, apenas modificou, a vida mental dos portugueses. O culto a Camões e o culto a Santa Teresa do Menino Jesus[3] tinham exactamente o mesmo conteúdo sentimental. No fundo, a verdade era a economia, os grandes interesses financeiros, a aplicação da tecnologia ao domínio da natureza, a ordem social. Nestes termos, quando o regime muda, a revolução não pode ter outro efeito senão deixar tudo na mesma quanto ao essencial. Fala-se ainda em Pátria, mas ninguém já sabe o que ela é. Do ponto de vista economista, significa um grupo, que se foi progressivamente alargando até constituir uma nação, lutando contra a natureza e as outras nações, falando a mesma língua por imposição do mesmo interesse, que é o da subsistência animal. Esse grupo deu-se um sinal – a bandeira – e um domínio – o território. Mas até o território, a bandeira e a língua deixaram de ter razão de ser, logo que a economia descobre que, além de lutar contra as outras nações e contra a natureza, esse grupo está dividido em si mesmo por interesses de classe e que a obediência a chefes naturais, necessária quando era um pequeno grupo, também já não tem razão de ser e deve ser substituída pela obediência ao estrangeiro.

Sobre o raciocínio simples e falsamente evidente de que, se há uma classe que explora outra classe, esta é só uma em todos os países (idêntica em si como o uno de Platão), a ideia de terra natural deixou de ter qualquer sentido. Assim, de Teófilo Braga para Salazar e de Salazar, através de Caetano, para Vasco Gonçalves não houve oposição, mas o desenvolvimento da mesma ideia ou uma diferente aplicação das mesmas categorias mentais. E é por isso mesmo que o ensino da história, de regime socialista para regime socialista, se mantém dentro das mesmas directrizes programáticas[4].

 

António Telmo

 

 

(Publicado em História Secreta de Portugal, 1977)

 


[1] Se, no Horóscopo de Portugal, o sol sai da quarta casa em 1978, a verdade é que, do ponto de vista astrológico, isso não significa uma mutação no espírito que o rege. Essa mutação dar-se-á, sempre segundo o horóscopo, numa data situável entre 1980 e 1990, quando o sol transitar do signo da Balança, em que continuará ainda alguns anos depois da saída da quarta casa, para o signo do Escorpião, regido por Saturno.

[2]  Álvaro Ribeiro, Os Positivistas, Lisboa, 1969.

[3] Fernando Pessoa observava, referindo-se a este culto, que Santa Teresinha do Menino Jesus estava para os seus devotos um pouco acima de Deus.

[4] Ivan Illich, em Sociedade sem Escola, aponta o facto estranho de, em todo o mundo civilizado, o ensino ser o mesmo, qualquer que seja o regime político.

 

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