DOS LIVROS. 23

05-11-2014 09:54

«Pensar o império sem referência ao centro do mundo tem como consequência necessária a subordinação da Igreja à Monarquia ou da Monarquia à Igreja. Mais tarde, como veremos, a ideia de Império aparecerá nas diferentes expressões do socialismo, o que constitui uma degradação sua, uma forma degenerada que, por grandiosa que se afigure, tem a fragilidade do barro.»

António Vieira e a ideia de Quinto Império

”A madrugada irreal do Quinto Império

Doira as margens do Tejo.”

 

A data de 1513, que marca o fim do ciclo heróico, pode também ser interpretada como o início da degradação da ideia de Império, no que esta ideia contém enquanto significa o domínio do mundo a partir do seu centro.

Dado que o Império passou a ser imaginado como um domínio conseguido pela força habilmente manejada no plano político a partir de qualquer ponto de periferia do mundo, perdeu-se a ideia dele como Quinto, embora alguns espíritos a tenham mantido acesa “no imenso espaço seu de meditar”. Um desses espíritos, o mais alto entre nós, foi António Vieira, mas a ideia, que ele animou do seu portentoso verbo, já não tinha correspondência na esfera política, onde se jogavam interesses cada vez mais reles pela progressiva subordinação de todas as categorias mentais à categoria económica.

A ideia de um Quinto Império era corrente na Idade Média. É uma outra maneira de ver “a comunicação entre o Oriente e o Ocidente”, que os Templários pretenderam assegurar não só no plano geográfico, interpretá-la como a formação do Quinto Império. Este não seria, porém, possível sem um real, efectivo contacto com o próprio Centro do Mundo.

Porquê Quinto?

António Vieira baseia-se numa interpretação que tinha sido dada às profecias bíblicas de Daniel dos cinco impérios sucessivos, entendendo neles o assírio, o persa, o grego, o romano e, por fim, na visão do jesuíta, o império português. A divisão do grande ciclo de tempo, que os hindus designam por Manvantara, em quatro fases ou ciclos distintos assume entre os gregos uma expressão dada pela sucessão simbólica dos quatro metais: oiro, prata, bronze e ferro. Em Daniel, que fala de uma mistura do ferro com barro nos pés da estátua, cujo conjunto exprime todo o Manvantara, aparece um quinto, significado na forma de uma pedra que derruba a estátua. Aparece assim o Quinto Império fora da série ou do conjunto formado pelos outros quatro. Se concebermos um ponto original que determina todo o Manvantara, o Quinto significará a reintegração de tudo quanto se manifestou durante os quatro períodos num ponto que os transcende e lhes é central, de acordo com a representação das cinco quinas do escudo ou das cinco chagas de Cristo, em que a quina ou a chaga do meio irradia na forma de um X para as outras quatro.

A impossibilidade do Quinto Império sem um real contacto com o Centro do Mundo (a possibilidade dele parece ter sido posta de lado no reinado de D. Manuel I, dadas as condições cada vez mais limitativas existentes na época) é o que torna irreal a visão de António Vieira. Ele vive em pleno ciclo sacerdotal. Ele mesmo é um sacerdote. Isso explica que visione, tal como Bandarra, uma monarquia universal sob a égide da Igreja, bem longe já da ideia de Dante que defendia a autonomia dos dois poderes sobre a terra, unificáveis somente num princípio central, imaginável pelo vértice superior de um triângulo, e que lhes é transcendente.

Pensar o império sem referência ao centro do mundo tem como consequência necessária a subordinação da Igreja à Monarquia ou da Monarquia à Igreja. Mais tarde, como veremos, a ideia de Império aparecerá nas diferentes expressões do socialismo, o que constitui uma degradação sua, uma forma degenerada que, por grandiosa que se afigure, tem a fragilidade do barro.

Sampaio Bruno, no Encoberto, vem interpretar a acção profética de António Vieira como uma manobra política ao serviço da Companhia. Isto não surpreende no mais alto representante do ciclo do povo e do iluminismo maçónico. Bruno é ainda um adversário do socialismo, mas acredita que a humanidade, dividida pelo mal, se movimenta espontaneamente para o uno, para o “homogéneo inicial”, conduzido por um obscuro instinto fraterno. Mais certo no seu juízo foi Fernando Pessoa reconhecendo a sinceridade visionária do grande jesuíta. A Clavis Prophetaram e a História do Futuro são a expressão de uma “alma verídica”. Nas condições do ciclo em que vivia não era possível, como o não foi a Bandarra, nem ao próprio Camões, na medida em que pretenderam iluminar de “forma e de visão” os políticos (a mediocridade de um D. João IV ou dos ministros de Afonso VI), imaginar a redenção da Pátria fora da égide do Catolicismo.

António Vieira representa assim a última tentativa grandiosa e verídica de fixar o tempo no ciclo sacerdotal. Estudioso de Kabbalah, a sua cabala política foi, na verdade, um insucesso. Viajou muito e viu “no céu amplo do desejo” realizada afinal a sentença bíblica: “Sicut credidisti, sic fiat tibo”, que tão lucidamente soube comentar.

 

António Telmo

 

 

(Publicado em História Secreta de Portugal, 1977)

 

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