DOS LIVROS. 25

18-11-2014 10:14


Propósito

 

O estudo, breve mas condensado, que apresentamos nas páginas seguintes, será talvez o germe de outro, cujas características determinamos nas linhas finais deste escrito. Dizemos propositadamente a palavra «germe». É que, meditado à medida que ia sendo escrito, este livro não obedece ao esquema construtivo habitual, não caminha das teses para as provas pelos argumentos: – é um livro mal escrito. Cremos, porém, que esse será o destino de todos os escritos que vierem a ser elaborados sobre Bergson e que pretendam interrogar para além do que foi definido pelos intérpretes. Não procurámos integrar o pensamento de Bergson dentro da história da filosofia; fizemos sempre por ver esse pensamento à luz da actualidade, isto é, das ideias actuais, das que se pensam hoje, ontem e amanhã. Convictos da importância da literatura, compreendendo neste termo tudo quanto habitualmente se compreende menos a filosofia, cruzámos constantemente a nossa interpretação com as formas da arte poética, no duplo intuito de animar a filosofia e de reintegrar a poesia no pensamento.

Efectivamente, só um critério artificial pôde estabelecer a dissociação entre a literatura e o pensamento, e se é bem certo que no início do processo se vêem agentes estranhos à associação espiritual dos artistas, hoje pode dizer-se que estes representam uma das forças activas que defendem tal dissociação. E é curioso que o bergsonismo, ao distinguir inteligência e intuição, tem servido de apoio à corrente de opinião que circula entre os escritores orgulhosos de não pensarem, de serem intuitivos, sensitivos, imaginativos. Manifestam assim um amargo desprezo pela ciência, que, no fundo, admiram e até temem, e opõem-lhe, como expressões de um valor superior, em que, afinal, não acreditam, as formas em que cai o espírito que perdeu o poder. Procurámos, por isso, interpretar o bergsonismo como uma filosofia que identifica por um lado pensamento e intuição, por outro lado ciência e imaginação. Só esta via, que percorre o caminho inverso da interpretação mais divulgada, se nos afigura fecunda. É evidente, porém, e como consequência do restabelecimento no conceito da primigénia relação da literatura com o pensamento, que muitos escritores têm de continuar a defender o critério oposto se quiserem que os seus livros persistam na admiração do público, embora para viverem apenas uma existência efémera, dependente da extensão da rede tecida pelo elogio mútuo.

Uma palavra sobre a «comédia». Falta neste opúsculo, um capítulo sobre «o riso e a significação do cómico» no pensamento de Bergson. Parece indesculpável num escrito que se chama Arte Poética, mas justifica-se dentro do método de investigação que nos conduziu de princípio a fim. Sobre a «comédia» escreveu o filósofo um livro de trezentas páginas, ao passo que deixou apenas, sobre as restantes formas literárias, algumas observações que, em geral, passam desapercebidas. Como o espírito que actua nos sonhos desenvolve numa trama significativa de imagens os acontecimentos insignificantes da vida de vigília, esquecendo ou desprezando quase sempre os que parecem mais importantes, assim nós procurámos ver o que Bergson calou nas entrelinhas e fixámos, por isso, o interesse sobre a alusão veloz, sobre a imagem fugitiva, cuja aparição, em Bergson, se dá permanentemente em figura comparativa. Aliás, uma interpretação de Le Rire, que não seguisse um método análogo, nada provavelmente viria acrescentar de novo e de positivo a quanto já tínhamos dito: – antes nos atiraria para zonas em que preferimos, por enquanto, não tocar. O riso oferece sempre o perigo de todos os corrosivos, como notou J. Paul Richter ao escrever: «Todas as definições são cómicas».

Fechado o parêntesis, diremos ainda a propósito da relação da literatura com o pensamento que a dificuldade que muitos sentem em estabelecê-la de modo positivo reside na concepção particular que formam da filosofia como uma actividade exclusivamente mental. Não é que ela seja isso e algo mais, – um complexo de raciocínio, sensitividade, imaginação. A distinção é muito mais funda. É a própria distinção entre filosofia especulativa e filosofia operativa. E é até o facto desta poder ter a sua expressão naquela que garante a hipótese de a poesia, o teatro, o romance poderem ser, por sua vez, formas distintas, mas convergentes, da mesma experiência secreta. Contra uma filosofia raciocinante, a que não corresponde nenhuma espécie de transmutação interior, e que constitui, afinal de contas, uma efémera evasão do mundo da acção, da qual sempre se regressa desiludido, sempre protestou Bergson. Mas poderia ter protestado igualmente contra as análogas formas de imaginação artística.

Cremos que o nosso essencial propósito fica assim assinalado. O leitor dirá, depois de ter lido esta meia centena de páginas, se também ficou esclarecido.            

 

António Telmo

 

 

(Publicado em Arte Poética, 1963)

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