DOS LIVROS. 30

11-01-2015 21:57

As Tradições Heterodoxas da Filosofia Portuguesa

 

É necessário sujeitar-se ao perigo de errar. Não se alcança a verdade sem a experiência do erro. Devemos, por conseguinte, falar do direito de procurar e de errar. Eu reclamo a liberdade para a conquista da verdade.

João Paulo II

 

Quem leu O Papa ou A Inquisição Espanhola, livros de José de Maistre, traduzidos para português por esse inquieto e subtil pensador católico de filosofia portuguesa que é Pinharanda Gomes, não deixará de perturbar-se quando souber que o famoso Conde era um «encoberto»: dentro da própria Maçonaria formava parte de um Colégio secreto, ignorado dos outros irmãos. Disso nos dá notícia Emílio Dermenghem, na introdução a La Franc-Maçonnerie, Mémoire au Duc de Brunswisck, par Joseph de Maistre, escrito que julgaríamos impossível, se não tivesse sido encontrado entre as obras do filósofo com outros documentos de convergente interesse, guardados nos arquivos das lojas do Sul de França. «Dés 1774», escreve Dermenghem, «Joseph de Maistre (né en 1753) faisait partie de la loge des Trois Mortiers où il était  grand orateur, substitut des généraux et maître symbolique. Mais la Maçonnerie vulgaire était un enfantillage, comme il écrivit le 9 décembre 1793 à son ami Vignet, et ses réunions mondaines finissaient par le lasser quand il fut conquis par la Réforme écossaisse. Le 4 septembre 1778, il entre en effet, avec quinze autres frères, à la loge de la Sincérité et il fait, en même temps, partie, sous le surnom de Josephus a Floribus, d’un groupe três secret de quatre initiés supérieurs, le collège particulier de Chambéry, dont les autres membres étaient son ami Salteur (a Cane), le Chevalier de Ville (a Castro) et le bourgeois Marc Rivoire (a Leone Alto). Ces collèges, placés dans les diferents chefs-lieux du rite écossais, étaient formés par la classe secrète ds Grands Profès, chevaliers maçons de l’ordre bienfaisant de la Cité Sainte, ‘dernier grade em France – disait Willermoz – du regime rectifié’. Cette classe était ‘répandue en petit nombre et partout inconnue’. Son existence même était ‘cachée depuis son origine à tous les chevaliers qui n’ont pas encore été reconnus dignes et capables d’y étre admis avec fruit’. On voit à quel rang Joseph de Maistre s’était élevé dans la hierarchie oculte.» (F. Rieder et Cie., Éditeurs, Paris, 1925, p. 14)

O abandono da Maçonaria vulgar correspondeu à descoberta do «martinismo», em cujos «mistérios», teóricos e práticos, Joseph de Maistre foi iniciado pelo citado Willermoz, discípulo, como Saint-Martin, de Pascoal Martins e, por morte deste, seu continuador na chefia da Ordem. É a formação martinista do autor de Os Serões de São Petersburgo que para nós tem interesse, obrigados como somos a ter em linha de conta o que Álvaro Ribeiro escreveu sobre filosofia e tradição portuguesa: «A tradição portuguesa, a esperança de que o Cristianismo reintegrará o Homem e a Natureza no Reino de Deus, durante o século XVIII passa a exprimir-se em termos diferentes dos que ficaram estabelecidos na nomenclatura da teologia católica e da filosofia aristotélica. A obra de Pascoal Martins, vertida maravilhosamente na cultura da Europa Central, dá-nos uma síntese, ainda hoje admirável, das tradições peninsulares.» (A Arte de Filosofar, Portugália – Lisboa, 1955, pág. 142).

Neste mesmo capítulo sobre A Tradição Portuguesa, diz-nos Álvaro Ribeiro ter sido «Sampaio Bruno o pensador que mais inteligentemente no-la revelou». Com efeito, em O Encoberto, depois de ter estudado a influência de Saint-Martin na Revolução Francesa, ao expor a doutrina esotérica pela tríade de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, escreve assim:

«O ternário sagrado! Saint-Martin, seu inventor e promotor!»

«Mas, sem embargo de sua peculiar originalidade, cumpre não esquecer que Saint-Martin começara por ser discípulo d’outrem, d’um desses homens extraordinários que gravam a sua personalidade na sua época; e esse homem era português, «misterioso português», consoante (realista, romanescamente) se compraz em lhe chamar o biógrafo crítico do philosophe inconnu, o sr. Matter. Português-judeu, cristão-novo, «de raça oriental e de origem insólita, mas tornado cristão à laia como assim se tornavam os gnósticos dos primeiros séculos». Quem?»    

«Quanto mais se estuda Saint-Martin, com o tratado de seu mestre, Da Reintegração, à vista, tanto mais se sente, em toda a sua profundidade, a influência do teurgista de Portugal sobre o mais célebre dos seus discípulos de Bordéus.»

O tratado de Pascoal Martins, Da Reintegração, é, de seu título completo, Tratado da Reintegração de Todos os Seres nos seus Princípios Primitivos. Está traduzido por Manuel Joaquim Gandra na Colecção Esfinge das Edições 70.

Não se deduz de tudo isto que haja um exclusivo de identidade entre a tradição portuguesa e o martinismo. Este terá sido durante o século XVIII e para a Europa Central a expressão oportuna dessa tradição. Mas a relação pode constituir o fio que nos conduza à cabala pelo judaísmo, à gnose pelo cristianismo, à sabedoria sufi pelo islamismo. «Três tradições concorrem na formação do pensamento português: a judaica, a cristã e a islâmica.» A filosofia portuguesa terá por fim realizar a sua síntese católica. Porquê a filosofia portuguesa?

A História de Portugal cinde-se em dois períodos radicalmente distintos. Sobretudo através da Pátria e da Mensagem, os nossos poetas, prolongando neste ou naquele sentido o ensino de O Encoberto, os nossos filósofos, tiveram disso perfeita consciência e o correspondente saber. O primeiro período, de um só rei para três Repúblicas – a judaica, a cristã e a islâmica –, vai até D. João III; com D. João III e o estabelecimento da Inquisição em Portugal tem início o segundo período. A tese de Sampaio Bruno é, porém, que foi no segundo período que se deu o maior avanço no aperfeiçoamento dos espíritos, cada vez mais próximos, de vinténio para vinténio, da era messiânica. O segredo deste contrassenso terá sido o aparecimento na história do cristão-novo. Deste ponto de vista, o estabelecimento da Inquisição foi providencial. É certo que os aspectos negativos ou sinistros da nossa sociabilidade se devem à especial complexão dessa criatura híbrida pela qual se define o cristão-novo: os judeus e os muçulmanos que não puderam ou não quiseram partir para o exílio, ao verem-se de repente obrigados a praticarem outra religião, aterrorizados com a destruição das suas mesquitas e sinagogas, tiveram de fingir o fanatismo, de cultivar a hipocrisia e a traição, de praticar a denúncia ou então tiveram de viver em medo e inquietação constantes o seu criptojudaísmo ou o seu criptoislamismo. O ateísmo é também, em certos casos, um dejecto desta situação. A astúcia e o espírito diplomático, a capacidade de falar ou de pensar em duas línguas e o subtil sentido da metáfora ou da ironia são, entre outros, os seus produtos superiores. Esta última é a da nobreza espiritual sufi ou sefardi.

Toda a psicologia do cristão-novo converge para o dar como o elemento activo capaz de realizar a síntese entre duas religiões, a antiga dos seus pais e a nova dos dominadores, isto no caso evidentemente de não ter sido corrompido pela hipocrisia, pela cobardia ou pelo ódio. (...)

 

António Telmo   

 

(Publicado em Filosofia e Kabbalah, 1989)

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