DOS LIVROS. 37

19-03-2015 13:03

Coincidências, 1

 

Tenho observado que um certo tipo de intelectual muito comum, antípoda do homem do povo, receia o sobrenatural, até no que ele tem de maravilhoso mas de imprevisível, até quando lhe falam simplesmente de uma das suas indesmentíveis manifestações.

Já lá vão uns vinte ou trinta anos. Depois do jantar, fumava eu o meu cigarro, o meu filho trouxe-me um frasco cheio de água muito bem rolhado, com uma mosca morta lá dentro, dizendo que a tinha ali afogada há longos quatro meses. Eu sabia, até por o ter verificado algumas vezes, que, cobrindo de cinza uma mosca em tais condições, ela começava a andar e, uma vez bem seca, até a voar.

Tomei uns ares de mágico:

- Tira-a daí, sem a magoares. Vou ressuscitá-la.

E assim que ele a colocou sobre a mesa, deitei-lhe sobre o corpo a cinza do cigarro. Passados alguns instantes, emergiu da cinza, esticou as asas e começou a andar.

Contei isto no café, onde fui como de costume. Mudaram imediatamente de conversa. O que se lhes afigurava excepcional enchia-os de medo.

Todavia, só lhes disse metade. O mais importante guardei para mim.

Levo sempre comigo um livro, para onde quer que vá. Neste caso, nessa noite, como nas outras, depois de vinte ou trinta minutos de conversa, retirava-me para uma mesa onde ficava sozinho a ler. Antes de sair de casa e logo a seguir ao acontecimento da mosca, procurei pois na estante um livro. Tirei um do filósofo alemão Leibniz. Abri-o ao acaso e percorri com o olhar umas linhas para ver se, na altura, me agradaria lê-lo. Deparei, espantado, com as seguintes:

 “… não há ninguém que possa marcar o verdadeiro momento da morte, a qual poderá passar muito tempo por uma simples suspensão das acções habituais e, no fundo, não é outra coisa nunca nos simples animais; o melhor testemunho disso é a ressuscitação das moscas afogadas e envolvidas em giz pulverizado.”

Há coincidências inexplicáveis, mais misteriosas do que o voltar à vida dos animais mortos.

 

António Telmo

 

(Publicado em A Terra Prometida, 2014)

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