EDITORIAL. 02

23-02-2015 11:56

Uma comoção juvenil profundamente conturbada

Há coisas do Diabo! Os anúncios, quase simultâneos, nesta página, no final do ano passado, da participação de António Carlos Carvalho no Congresso Internacional sobre Judeus e Cristãos-Novos no Mundo Lusófono, a ter lugar em Dezembro próximo, com a comunicação «Um filósofo em busca das raízes: António Telmo, marrano», e da edição do livro Um António Telmo: Marranismo, Kabbalah e Maçonaria, de Pedro Martins, parecem ter provocado, nalguns meandros prostrados em perpétuo suspiro pela efígie do Professor António de Oliveira Salazar, uma comoção juvenil profundamente conturbada, que se diria incrédula.

Sobre o marranismo de António Telmo, remetemos piedosamente as almas ora desvairadas para escritos seus tão vários, no tempo e na motivação, como sejam as suas páginas autobiográficas sobre Arruda (de presumível factura nos anos 70), o ensaio “As Tradições Heterodoxas da Filosofia Portuguesa”, de 1987, o artigo “Sampaio Bruno, o «Encoberto», de 1989, ou a carta prefacial ao livro Barros Basto – A Miragem Marrana, de Alexandre Teixeira Mendes, escrito em 2007, três anos antes do filósofo partir.

Piedosamente ainda, lembramos a estas almas penadas pelo desvario antissemita tudo quanto Sampaio Bruno escreveu n’O Encoberto a propósito do judaísmo e deixamos-lhes também, já de seguida, a transcrição de dois parágrafos de A Literatura de José Régio, de Álvaro Ribeiro, mestre dos mestres de António Telmo pouco ou nada afeito às «barbaridades cartaginesas da Santa Inquisição» que, em carta para o mesmo Telmo, escrita ainda em vida de José Marinho, reputava o discípulo como o seu «melhor amigo»:

 

A nossa tese, recebida da filosofia da história que entre nós foi escrita por Sampaio Bruno, é a de que a principal causa da decadência dos povos peninsulares está maravilhosamente descrita no livro O Encoberto (1904). É portanto uma interpretação religiosa, referida ao primeiro sistema de filosofia da história, seja o providencialismo messiânico da Bíblia. A Península Ibérica decaiu por consequência da expulsão dos Judeus.

A influência cultural deste povo de monoteísmo transcendente, que não reconhece representação nem representante de Deus na Terra, povo de doutores fiéis a uma Doutrina que não impõem por métodos de proselitismo, mas, que defendem pelo sacrifício da própria vida, povo para o qual são pecados mortais só o homicídio, o adultério e a idolatria, povo que considera a aliança como padrão da vida religiosa, que antecede de um ritual belo, sério e santo o próprio acto conjugal, que santifica o sábado como dia de festa da família, que pratica a oração com simplicidade, modéstia e alegria, que espera pela era messiânica de redenção da humanidade, a influência de tal povo, repetimos, ainda não foi assaz reconhecida por etnógrafos e historiadores. Este povo que vive, respeita e pratica um admirável preceito, segundo o qual «o pai que não manda ensinar um ofício ao seu filho faz dele um pedinte ou um ladrão», trabalhando destituído de instituições políticas e fixado na vida civil ou privada, foi o educador filosófico e religioso de outros povos migrantes, exerceu uma influência civilizadora que permaneceu latente e oculta depois de ser expulso da Península Ibérica. Este factor é muito mais importante do que aquele que aparece sublinhado pelo materialismo histórico, ou seja, a falta de tais homens no comércio, na indústria e na agricultura, ocupações que poderiam ser igualmente distribuídas pelas várias camadas da população católica.

 

Como não é de supor que estas linhas de Álvaro Ribeiro tenham sido escritas por Jorge de Sena, esperamos, com sincera boa vontade, que os dislates aleivosos fiquem por aqui. Foi por estas e por outras que o Projecto António Telmo. Vida e Obra foi criado…   

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