INÉDITOS. 17

10-07-2014 09:10

Dando sequência ao trabalho de estudo do espólio de António Telmo, publicamos hoje dois breves apontamentos do filósofo, plenos de revelações autobiográficas, e cujo sentido se ilumina pela leitura astrológica que o autor de O Horóscopo de Portugal neles ensaia. Surgem aqui acompanhados pelo comentário de Eduardo Aroso. 

Autobiografia e astrologia: dois apontamentos*

 

1.

Os vinte e três anos primeiros da minha vida estiveram sempre ameaçados pela sombra temível do mal. Deve-se isso em primeiro lugar ao meu horóscopo. O signo do Touro, onde estava o meu Sol quando nasci, é, como se sabe, oposto ao signo do Escorpião, que, logo por meu azar, preside aos horóscopos de minha mãe e de meu irmão Rui, que Deus tenha as suas almas em paz. Do mesmo lado, a um ou dois graus do Escorpião se encontrava ao nascer, o Sol do meu irmão Orlando.

Éramos três irmãos. Eu era o mais novo com uma diferença para eles de quatro e cinco anos. O Orlando era o mais velho; o seu horóscopo era, por sinal, dominado pelo planeta Marte que é, aliás, o planeta que tem no Escorpião o seu lugar essencial.

O meu Pai era alheio a esta oposição, pois nascera no signo de Virgem. Teve muita dificuldade em amestrar aqueles dois filhos. Eu era dócil e sofria com angústia os conflitos de meu Pai com eles. Foi, neste sentido, uma infância horrorosa no período dos 7 até aos 16 anos, quando deixámos Arruda dos Vinhos por Sesimbra.  

 

2.

Nasci com o Sol e a Lua altos em Touro, quando no horizonte se levantava o signo de Leão.

Fui o último de três irmãos. A minha mãe esperava uma rapariga, veio um rapaz. Cogitou fazer de mim padre para a acompanhar na viuvez. O seu signo era aquele onde o forte Marte tem o seu domicílio. Os meus dois irmãos também nasceram associados a Marte. O signo do Escorpião é oposto ao do Touro.

Vejo agora pelo I Ching que nós os três, os irmãos, realizámos com grande aproximação, as características que o famoso, muito respeitável livro chinês, o mais antigo do mundo, atribui aos três filhos do Céu e da Terra:

 

                O fulgor para o primogénito.

                O perigo para o segundo irmão.

                A imobilidade para mim.

 

Na Idade Média, o primeiro, na classe nobre, ficava o senhor do património.

O segundo filho, de natureza quereria tornar-se militar.

O último tinha por destino o sacerdócio.

Mas o último era, nos contos tradicionais, a pedra que se punha de lado e sobre a qual se haveria de edificar.

A alma do sangue dos meus pais criou-me como terceiro filho em oposição aos meus dois irmãos e à minha mãe. O dado inicial é o horóscopo. Nasci com o Sol e a Lua ao alto no signo do Touro. Do lado oposto, o Escorpião e a agressividade de Marte. Os três contra mim sem que o soubessem. Sabia-o o espírito envolvido pelo sangue.

 

António Telmo

 

* Título da responsabilidade do editor.

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Comentário

Eduardo Aroso

Nestes inéditos (1 e 2) de António Telmo podemos observar o que em astrologia se designa por sinastria, ou seja, comparação de horóscopos, embora a situação neste caso não seja completa, pois o filósofo apenas se refere ao seu signo solar e ao dos seus familiares. Isto é, não compara – pelo menos no texto não o refere – cabalmente os horóscopos. Vejamos: «Os vinte e três anos primeiros da minha vida estiveram sempre ameaçados pela sombra temível do mal. Deve-se isso em primeiro lugar ao meu horóscopo. O signo do Touro, onde estava o meu Sol quando nasci, é, como se sabe, oposto ao signo do Escorpião, que, logo por meu azar, preside aos horóscopos de minha mãe e de meu irmão Rui, que Deus tenha as suas almas em paz». A primeira questão que se nos levanta é a que se refere aos «vinte e três primeiros anos da sua vida». A justificação podemos encontrá-la apenas (ou não) na astrologia, já que é disso que o filósofo trata. Assim, feitas as progressões planetárias para os 23 anos de AT, encontramos, entre outros, dois indicadores muito significativos: Vénus (planeta dos relacionamentos) progredido e regente da 3ª casa (irmãos) passou a quadratura - o aspecto planetário mais difícil/desafiador – com Marte e depois com Plutão de nascimento, sendo estes dois os regentes da 4ª casa, a do pai e da mãe e da família em geral. Ao mesmo tempo o Sol progredido no horóscopo de António Telmo tinha saído recentemente de Touro (oposto a Escorpião). É muito provável que AT tivesse feito estas contas para escrever dessa maneira.

A sinastria ou comparação de mapas astrológicos é uma técnica muito antiga e que se baseia no princípio universal das «simpatias e antipatias», princípio esse que opera, por exemplo, na química, ou na botânica. Todo o agricultor experiente sabe que determinadas plantas não se desenvolvem bem, ou nem chegam mesmo a crescer, junto de certas árvores, acontecendo também o contrário. É claro que no caso dos seres humanos as coisas passam-se de modo diferente, como é óbvio, mas ainda assim Goethe deixou claro que as afinidades electivas existem, o que qualquer um de nós comprova no que respeita às nossas relações na vida diária, sabendo, ou não, astrologia.

O cenário “familiar astrológico” tenso, embora apenas quanto aos signos solares, que AT aqui descreve, e de modo muito explícito, refere-se à mãe e aos dois irmãos Rui e Orlando, todos eles do signo solar de Escorpião oposto ao signo de Telmo, o Touro. Veremos de seguida o sentido astrológico da afirmação «O meu pai era alheio a esta oposição, pois nascera no signo de Virgem».

AT aponta como maléfico o signo solar de Escorpião oposto ao seu o de Touro. Na verdade, a palavra mais correcta é complementar, e nisto nos adentramos, por exemplo, no alcance astrológico da profunda relação Touro/Escorpião, Sagitário/Gémeos, Aquário/Leão, etc. Aliás, é bem de ver que a atracção ou simpatia (muitas vezes não isenta de fricções e tensões!) das oposições faz-se, seguindo o meu exemplo dado, respectivamente pelos elementos: Terra/Água; Fogo/Ar; Ar/Fogo. Estes signos complementam-se, tal como as antíteses se resolvem pela síntese ou por um terceiro elemento/signo. E aqui vemos o papel que o pai de AT – houvesse ou não consciência disso – teve no meio familiar. O esquema geométrico seguinte pode elucidar. A oposição (180º) e a quadratura (90º) são considerados os “aspectos maléficos” enquanto os sextis (60º) e os trígonos ou trinos (120º) são “aspectos benéficos”. (1)

Orlando, Rui e mãe – signo de Escorpião; Telmo signo de Touro (como que isolado) e o pai signo de Virgem, originando um ângulo de 120º em relação ao signo de Telmo e um de 60ª em relação ao dos irmãos e mãe. A posição do signo solar do seu progenitor actuou como um ponto astrológico alquímico, conforme o esquema acima, percebendo-se assim o papel do pai de AT na família, tivesse ou não o primeiro consciência disso.

Em jeito de conclusão, poderíamos perguntar o seguinte: conhecendo AT a astrologia, considerando que este texto é escrito nos anos maduros da sua vida, qual a razão por que se referiu ao signo de Escorpião como maléfico, para seu azar? Qualquer condição familiar é íntima e marcante na vida de cada um, a primeira estação do fatum ou destino, onde o nosso livre-arbítrio pouco ou nada dita, já que sem alternativas que mais tarde podemos ter como mudar de emprego, de localidade, etc, nascemos numa única família e a ela herdamos. No caso de AT terá dolorosamente - mas porventura como bênção divina - feito com que escrevesse o texto do modo como o fez. «Os três contra mim sem que o soubessem. Sabia-o o espírito envolvido pelo sangue». Há um indício todavia que nos faz supor que o filósofo conhecia profundamente o sentido da oposição ou do complementar em astrologia (e, como é óbvio, na filosofia), porquanto, vários anos antes – note-se –, escreveu desta maneira em Horóscopo de Portugal, página 26 «uma das singularidades do horóscopo de Portugal é que a inversão do hemisfério superior no hemisfério inferior se produz nos acontecimentos e ideias que se vão dando em cada um deles com o curso do Sol» (…) as Casas opostas se correspondem dando o mesmo movimento na dupla forma luminosa e tenebrosa». Ou seja, mais uma evidência de que não há signos melhores ou piores do que outros, embora cada um deles possa expressar, consoante as situações, ora o seu lado luminoso, ora o tenebroso.

Seja como for, AT entendeu que uma certa forma de realização - dir-se-ia também uma «diversidade na unidade» - acabou por acontecer, pois assim escreve: «Vejo agora pelo I Ching que nós os três, os irmãos, realizámos com grande aproximação, as características que o famoso, muito respeitável livro chinês, o mais antigo do mundo, atribui aos três filhos do Céu e da Terra»

 

4-7-2014 (dia da Rainha Santa Isabel)

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Nota (1): a fundamentação de aspectos “bons/favoráveis e aspectos maus/desfavoráveis" baseia-se na Tradição e no conceito sagrado, neste caso, da divisão do Círculo.

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António Telmo. Vida e Obra antoniotelmovidaeobra@gmail.com