INÉDITOS. 28

26-09-2014 09:39

Presumível esboço de uma carta para Max Hölzer[1]

 

Sobre o que me diz de uma coincidência das suas interpretações de Fernando Pessoa, cada vez estou vendo melhor que é possível dizer a verdade sem a experiência dela, apontar a realidade sem verdadeiramente a conhecer. É isto, parece-me, que produz a ilusão do conhecimento teórico. Donde ver na sua e na minha interpretações mais uma “confluência” do que uma “concordância”. Partimos, suponho eu, de planos diferentes da consciência e encontramo-nos num ponto, que considerado por outrem parece ter a mesma origem. O enigma está em saber como é dado àqueles que apenas são capazes de uma interpretação teórica falar com relativo acerto de um plano prático de que creio não têm nenhuma experiência.

Parece-me por exemplo (este parecer é apenas como uma suspeita) que os poemas de Fernando Pessoa ele próprio, poemas que começam pela fixação ou determinação dum fenómeno natural (a brisa, os montes ao longe, o sol nulo dos dias vãos, a onda que enrolada torna, etc.) constituem a expressão dos “exercícios práticos” que Pessoa fazia, de exercícios de “rappel”. Será assim?  

 

António Telmo



[1] Título da responsabilidade do editor.

 

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