INÉDITOS. 29

19-10-2014 16:52

Teixeira de Pascoaes[1]

 

Quando eu era moço, pelos meus vinte anos, enviei a Pascoaes um soneto que tinha como tema a magia poética da Lua Cheia, da Lua Plena, sem quebra ou defeito, e digo assim pois acreditava que nos meus doze versos ela estava presente exactamente assim e que, por isso, o Príncipe dos Poetas Lunáticos não deixaria de reconhecer um igual. Não obtive resposta. Envergonhado, não contei nada aos amigos.

Andávamos todos então pelos arredores da filosofia portuguesa. Líamos o Teixeira de Pascoaes uns aos outros, ansiando ser em espírito levados nas ondulações dos misteriosos versos. A Elegia do Amor, As Sombras, o Marános e o Regresso ao Paraíso eram os poemas preferidos. Fernando Pessoa disse desses versos, sem nomear o autor, que eram extraordinários, mas que uma vez lido um estavam lidos todos e Unamuno numa carta aconselhava Teixeira de Pascoaes a encurtá-los, pois cansavam pela monotonia. Um e outro não eram decerto capazes de passar horas a olhar o mar, a vê-lo onda após onda desfazerem-se na praia, procurando observar a diferença qualitativa de cada rebentação, o tom de verde e azul na espuma branca.

Todavia, eram ambos admiradores de Pascoaes.

Tornou-se famoso o verso «a folha que tombava / era alma que subia» da Elegia do Amor, por ter sido interpretado por Fernando Pessoa como o exemplo supremo do mistério da relação da vida com a morte na unidade dos contrários, unidade que se realiza pela simultaneidade da materialização e da espiritualização, o que sempre acontece, mas que só raramente se reflecte na opaca brutalidade da alma.

O Álvaro Ribeiro fez editar pela Editorial Inquérito com prefácio seu e com o título de A Nova Poesia Portuguesa um pequeno livro reunindo uma série de escritos de Fernando Pessoa n’A Águia onde colhi a ideia (…)[2]

Quando dois ou três anos mais tarde vim a pertencer ao grupo dos dois filósofos portuenses, José Marinho e Álvaro Ribeiro, fomos todos avisados de que Teixeira de Pascoaes vinha a Lisboa falar no Grémio Literário.

Ficámos à porta, à espera da chegada do carro que o trazia. Vinha com uns amigos. Dirigiu-se imediatamente ao Álvaro e ao Marinho, que bem conhecia de se encontrarem na Renascença Portuguesa e, em seguida, foi-nos apertando as mãos um a um fraternalmente. Um de nós deixou-se ficar como estava e disse-lhe: Não o conheço de parte nenhuma. E Pascoaes prontamente: Dê-me sua mão. Todos nos conhecemos do Paraíso.

 

António Telmo

 


[1] Título da responsabilidade do editor.

[2] António Telmo interrompe neste ponto o manuscrito, para o retomar no parágrafo seguinte.

 

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