INÉDITOS. 40

27-01-2015 09:39

[António Telmo, aos seis anos, em Moçâmedes, Angola, entre os irmãos, Orlando, à esquerda do leitor, e Rui, à direita]

 

Primeiras memórias*

 

África, Moçâmedes:

4 anos. Roubei um leãozinho a uma senhora que o tinha estado a mostrar aos meus pais dentro de uma arca.

Corri com ele ao colo por uma rua movimentada, pela qual atingiria a minha casa. A dona do leão corria atrás de mim, gritando: “Menino, menino, dê cá o leão!” As pessoas tinham parado a ver o espectáculo. Sorriam. Esse sorriso ainda me acompanha hoje, a acompanhar-me divertido e amigo quando me vejo em situações análogas à do roubo do leão à senhora pela criança[1], seu verdadeiro dono por direito divino. 

 

Almeida

Regressáramos de África. Vi passar o cadáver do meu avô, lembro-me do meu olhar: ver sem ver.

Outra lembrança:

Com outras crianças brincando nas muralhas. Estávamos juntos a olhar não sei o quê. De repente, um dos rapazinhos grita: “Vem ali a Senhora da Manta”. Fugimos apavorados. Eu de uma imagem informe e sombria, que, depois, toda a vida me tem perseguido e que eu tenho tentado dissolver atirando-lhe luz para cima.

 

António Telmo

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* Título da responsabilidade do editor.

[1] Nota do editor – Certamente por lapso, António Telmo escreveu: «(…) em situações análogas à do roubo do leão à criança pela senhora (…)».

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