INÉDITOS. 48

17-03-2015 23:05

Palavras que fazem ver[1]

 

Imagine-se um cego de nascença que, por milagre ou cirurgia, isto é, por imposição das mãos, fica a conhecer de repente pelos olhos a maravilha visível do nosso mundo, de nós conhecida pelos olhos desde que a inteligência pousou na sensação da criança. O cego dará melhor do que nós a outros cegos que não beneficiaram do milagre a ideia do que é o novo mundo, pois sabe por experiência as suas dificuldades. Um cego não pode conduzir outros cegos, mas quem vê, se não foi antes cego, conduzi-los-á pelos seus próprios caminhos e não pelos caminhos próprios dos cegos. Aquele que para ver beneficiou do milagre sabe que só os próprios caminhos dos outros cegos podem conduzir ao milagre. Assim, a ressurreição ilumina porque é ressurreição da morte.

É compreensível que os cegos esperem um dia poder vir a ver. Mas não poderão, pensando, ter acesso a um mundo superior ao visível? Pensando o que ouvem e o que não ouvem: o som, a palavra e o silêncio. O erro deles, julgo eu, é o de, pensando, tentarem adivinhar pelos sons o que se passa lá fora. Se ouvissem olhando para dentro do que ouvem o que é que se lhes depararia? O Inferno, sem dúvida. A ressurreição não se dá três dias depois de estadia no Inferno?

Em tudo isto nos confundimos e perdemos como num labirinto. Por isso prefiro pensar que a redenção não é individual, mas consistirá na universal comunicação dos espíritos entre si, comunicação que se inaugura pela relação conseguida do homem com a mulher jogando simultaneamente com a dos iniciados entre si no ágape. O horror é que nestas duas espécies de relação é onde a solidão nos convoca para o apelo interior que protesta perante a estupidez dos outros. Se bem observarmos, porém, vemos que toda a deficiência é de palavras, está na palavra actual. Pelo sémen um corpo fecunda outro corpo. O prazer divino da alma é o das palavras que fazem ver.


António Telmo



[1] Título da responsabilidade do editor.

 

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