INÉDITOS. 77

21-08-2018 01:24

Para os Diálogos do Mês de Outubro, obra inédita e inacabada que integrará as Capelas Imperfeitas, Volume X das suas Obras Completas, escreveu António Telmo mais do que uma “Explicação”. Exercício do maior interesse para o leitor será comparar a que hoje lhe revelamos, e que parece ter sido a última versão, com essa outra, inicial, que já em 9 de Outubro de 2016 antecipáramos.

 

Explicação das conversas

 

Se os investigadores do obscuro vierem um dia a interessar-se por estas “conversas” não cairão, decerto, no erro de identificar os três interlocutores com Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro e José Marinho, juntando um apelido de família a cada um dos nomes individuais para formar os nomes dos três famosos filósofos que, de facto, foram decisivos para a orientação espiritual do autor. O autor sou eu, quem neste momento escreve, António Telmo no catálogo dos literatos. Na verdade, posso considerar-me discípulo de Álvaro Ribeiro, convivente admirativo de José Marinho e um dos factores da tradição filosófica e iniciática que Leonardo Coimbra superiormente conduziu. As “conversas” reflectem essa múltipla sabedoria, mas não há coincidência entre os três interlocutores e os três filósofos, porque as teses e os teoremas passam livremente de uns para os outros, de modo a sedimentar pelo movimento a síntese dos pontos de vista, igualmente viventes, que constituem a essência manifestada da minha vida espiritual. Deve, no entanto, dizer-se que se alguém quiser conhecer o pensamento oculto de Álvaro Ribeiro tem nestas conversas indicadas as suas direcções principais e poderá, a partir dessas indicações, desvendar no maior pensador da actualidade as relações, escondidas nos seus livros, entre a filosofia e a cabala.

O título Filosofia e Cabala nasceu de uma sugestão que ele me fez em 1971 numa carta que me escreveu para Beja[1], onde então me encontrava em exílio, leccionando numa Escola Comercial e Industrial. Vale a pena citar o parágrafo que lança a sugestão.

«Ser-nos-ia agradável que António Telmo viesse a Lisboa falar sobre “Filosofia e Cabala”. Sei que hoje conhece bem esse assunto, especialmente na feição sefardi. Lembro-me das nossas conversas sobre interpretação cabalista das doutrinas de Freud, sobre a polaridade dos sexos e a mediação da libido, o prazer e a morte. Ultimamente, ao retocar nuns textos de Kant, verifiquei que a psicanálise descobre nos estudos do grande filósofo a profundidade do subconsciente judeu. Não deverá ser novidade para a erudição alemã. Certo é, porém, que o pietismo cristão em que o filósofo foi educado pela mãe admite a tradução para o hassidismo polaco. A leitura da obra de Martin Buber permite a fertilidade da comparação.

Kant dá, efectivamente, expressão laica a certas teses do judaísmo. Fichte, Schelling e Hegel são mais goim, pagãos ou cristãos. É útil rever e reler a obra de Kant.» 

            Acontece que, na altura, eu não conhecia a obra de Kant e Álvaro Ribeiro sabia isso. Porque me aconselha então a rever e a reler Kant?

            Tudo se torna claro se virmos em Kant uma cifra do próprio Álvaro Ribeiro. Nesse caso, a obra do meu Mestre esconderá, igualmente, uma profundidade: a do subconsciente judeu. Não, porém, de expressão no hassidismo polaco, mas no sefardismo, a que o início da carta alude, sobretudo ali onde esse sefardismo elabora, pela Cabala, a doutrina da polaridade dos sexos. Todos sabemos que tal doutrina é central na obra de Álvaro Ribeiro. O paralelismo que permite cifrar o nome de Álvaro Ribeiro no nome de Kant é o da educação maternal dos dois filósofos. A mãe de Kant educou-o no pietismo cristão que «admite a tradução para o hassidismo polaco». A mãe de Álvaro Ribeiro educou o filho na religião católica que admitirá a tradução para o cabalismo sefardi. Com efeito, n’A Literatura de José Régio, recorda agradecido «quanto a sua mãe deve na formação dos seus melhores sentimentos e, neófito, ter aprendido as primeiras orações cristãs, para saber a existência de Deus».

A íntima relação entre a Igreja cristã e a Sinagoga judaica só pode ser conhecida através da Cabala. Foi neste sentido que, nos primeiros sete anos de convívio, ele me orientou. Eu vinha da habitual decepção nos jovens inteligentes que, tendo recebido como a maioria dos adolescentes em Portugal, educação católica abandonaram a prática religiosa porque o ensino dos padres contrapunha a inquietação amorosa, apontada como a fonte de todo o pecado, ao sagrado desejo de desvendar os mistérios divinos. Álvaro Ribeiro foi-me abrindo os olhos para a íntima relação entre o amor e o conhecimento, mostrando-me, ao mesmo tempo, que nos dogmas e sacramentos da Igreja Católica se esconde uma doutrina oculta, análoga daquela que a Cabala desvenda pela hermenêutica literal e numérica do Pentateuco e de outros livros do Antigo Testamento, com relevância para o Cântico dos Cânticos. Insistia muito então no facto de o Sacramento do Matrimónio, considerado por São Paulo o magnum sacramentum, ter como ministros não os sacerdotes solteiros mas os próprios nubentes. Aquele e este ensino podem ser seguidos n’A Arte de Filosofar e no prefácio à Verdade e Amor[2] de Soloviev.

Eis o caminho para uma síntese entre as duas religiões. Mais obscuro é o papel da terceira religião semita – a muçulmana. Mais obscuro o papel e mais difíceis os caminhos de conciliação. O leitor atento das conversas do Vale do Infante tem, no entanto, todos os dados que lhe permitem ver claro neste assunto, se souber juntar-lhes a nota, agora, fornecida sobre as relações do pietismo cristão com o hassidismo polaco. A gnoseologia de Kant com o Espaço e o Tempo como formações da nossa sensitividade põe o Homem no centro do Universo; assim no sufismo de um Ibn Arabi o “conhece-te a ti mesmo” condiciona e presume todo o outro conhecimento; assim Cristo aparece nesse mesmo sufismo como Adão redimido. Fácil é agora ver quem, em Portugal, assume a difusão desta doutrina.

Álvaro Ribeiro enaltece o valor filosófico do “conhece-te a ti mesmo”, não por via sufi, mas por via sofista, isto é, através de Anaxágoras[3]. O perigo para ele, donde pode vir o desentendimento, é o de considerar o homem sem a mulher que o completa e complementa. Sem o amor, não há verdadeiro “conhecimento de si próprio”.

Em José se alude, mas somente se alude, a José Marinho. Através dele, pude ter acesso a uma semi-iniciação sufi, cujos trâmites internos passaram despercebidos à maioria dos meus conviventes. O que então me foi dado ver entrou em conflito com o ensino aristotélico de Álvaro Ribeiro. O conhecimento pela sensação, isto é, a ideia de que o espírito só é acessível à sensação, ideia que Platão desfaz no Teeteto e no Sofista, aparecia-me como um bom antídoto contra aquilo que eu designara na Arte Poética por filosofia especulativa, abrindo-me, no domínio da experiência, insuspeitados caminhos. Ele situava-se e operava na relação do pensamento com o ser, subestimada por Álvaro Ribeiro que lhe preferia a relação do pensamento com a acção.

É, todavia, de notar que o autor d’A Razão Animada não defende um racionalismo puro, isto é, que confie inteiramente na razão do homem ou, até, como Leibniz ou Hegel, na razão de Deus. A razão é, para Álvaro Ribeiro, o espírito do homem, porque, entre todos os seres que povoam o Universo, só ele dispõe da palavra; mas sem as notícias que lhe são dadas pela intuição, sem as audácias da experiência que promove a viagem por mundos antes não conhecidos, sem a imaginação que desmatematiza a palavra e a torna mágica e operativa, seria uma pobre e infecunda razão, ilusoriamente contente de si, rolando sobre si própria indefinidamente. Daqui, a possibilidade de diálogo com os poetas e os místicos que, descontentes com o que há de humano, procuram as vias angélicas, – luciferinas ou querubínicas.           

 

António Telmo



[1] N. do O. – Há aqui um lapso de António Telmo. Na realidade, em 1971 o filósofo encontra-se a viver e a trabalhar em Sesimbra.

[2] N. do O. – Em rigor, A Verdade do Amor.

[3] N. do O. – Há lapso de António Telmo, que, por certo, pretendia referir-se a Protágoras.

 

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