INÉDITOS. 82

12-05-2019 12:38

 

FRAGMENTO DE DIÁLOGO ENTRE X E Y[1]

 

 

X

Não sabemos nada. Ninguém sabe nada. Se alguém sabe, esse é como um deus: esconde-se e cala, de modo que fica tudo na mesma. Sim! Só Deus sabe e conhece, mas tudo se passa no Universo dos homens como se Ele não fosse.

 

Y

Parece ser o seu silêncio a condição da existência do mundo. Como poderia o Mundo suportar a sua visão? No entanto revela-se. Como poderia o mundo ser sem a sua revelação? É este mínimo que nos é dado, mas esse mínimo é tão real quanto a própria existência do Mundo. Mais nada nos resta fazer do que apreender os sinais de luz compossíveis com os nossos limites. Depois da morte, logo se verá.

 

X

Por que o havemos de saber depois da morte e não agora? Por que havemos mesmo de procurar saber? Vê aquela rapariga que passa! Observa como é harmoniosa a andar, como nos movimentos do seu corpo quebradiço se prenuncia o amor e a maternidade. Como ela, outras ondularam e ondularão no éter pela infinidade dos séculos e na onda luxuriosa da forma feminina sempre se repetiu o mesmo desejo. Nascem e morrem os seres. De onde vêm e para onde vão? Só sabemos que aparecem e desaparecem numa forma de vida. Esta é a única realidade, mas tão indiferente à nossa metafísica quanto o era antes.

 

Y

Se eu cometo o erro de imaginar um antes e um depois onde só nos é possível ver o nada e o vazio, tu não cais em menor engano ao julgares que só te importarás em saber depois de ter sabido. Precisas de ter a certeza do termo para ires à sua procura. Como não há para ti tal termo, ficas onde estás céptico e impassível. És como um homem que nunca tivesse visto nadar nem soubesse que nadar era possível e, por isso, nunca tentasse atravessar as águas. Só farás o que os outros tiverem feito ou tentarás fazê-lo. Estarás para sempre dependente dos gestos dos outros.

 

X

E o que é que tu propões em troca?

 

Y

Aprende-se a nadar nadando. O conhecimento só é dado no acto de conhecer. Como disse o poeta, “tudo o mais é com Deus”.

 

X

Há, porém, outro caminho. A partir do que já se sabe, procurar-se saber mais.

 

Y

Não dizias há pouco que ninguém sabe nada?

 

X

Falava de Deus. Sei, por exemplo, que a terra gira em volta do sol. E, como este, tenho outros conhecimentos reais e bem positivos.

 

António Telmo



[1] Nota do editor – Inédito. O título é da nossa responsabilidade.

 

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