INÉDITOS. 83

21-08-2019 10:06

Sobre a Gramática Secreta da Língua Portuguesa*

 

O fracasso cultural da minha “Gramática Secreta da Língua Portuguesa” patente na indiferença do grupo de filosofia portuguesa significa talvez que a maravilha do pensamento concreto, do pensamento que procede no ser e na forma dos fenómenos, neste caso, dos fenómenos fonéticos, deixou de impressionar os leitores. Uma humanidade cheia de pressa já não tem tempo para contemplar. Ainda haverá alguns entre nós que sabem criar em si o vazio no próprio seio do tumulto, o lugar absoluto onde os fenómenos simples convocados brilhem no esplendor do significado. É para esses outros que retomo o assunto da “Gramática Secreta”, que reassumo a responsabilidade de reflectir o que me foi dado ver.

Tive o arrojo e a ironia de concorrer ao Grande Prémio de 1981 da Sociedade de Língua Portuguesa, sem qualquer esperança de vencer, no critério de um júri composto por cinco professores universitários, trabalhos de outros universitários, puros do pecado da imaginação. O que me entristece é não ver discutido em público ou, privadamente, em conversa ou carta, aquilo que, no meu livro, tenho por uma descoberta científica, a mais importante, atrevo-me a dizer, descoberta científica que se fez em linguística de Saussure e de Sapir até hoje.

O essencial dessa descoberta diz-se assim:

O sistema fonético português é, ponto por ponto, o mesmo que o sistema cabalístico dos princípios internos do mundo, representado na figura da balança sephirótica.

Caso se verifique a equivalência dos dois sistemas, como um é um facto linguístico em si existente e o outro um dado metafísico produzido independentemente desse facto, das duas uma: ou estamos perante uma coincidência fortuita, o que é improvável dada a complexidade dos dois sistemas e as múltiplas relações dos seus elementos; ou encontrámos uma relação altamente significativa destinada a revolucionar toda a linguística.

Os cabalistas estabeleceram uma correspondência entre as letras do alfabeto hebraico e a balança sefirótica. Todavia, essa correspondência não pretende basear-se num critério fonético positivo, é construída sobre os valores metafóricos das letras, pelo que a situação delas nos vários lugares da “balança” varia de escola para escola. Aqui, na “Gramática Secreta Portuguesa” a correspondência é a que é e não pode ser outra, porque resulta de uma classificação objectiva dos fonemas portugueses.

Porque se trata de uma investigação com conclusões no domínio científico da fonética e da fonologia, os filósofos de uma filosofia há muito separada da ciência consideram-na ao lado das suas preocupações essenciais, mas os linguistas também não querem atender, praticantes como são de uma ciência separada da filosofia, uma investigação conduzida à luz de princípios metafísicos. Ainda por cima, a poesia está sempre presente na minha “Gramática Secreta” a ligar ciência e filosofia, e a imaginação, por mais rigorosa que se apresente e por mais submissa que se comporte em relação a uma e a outra, é sempre suspeita por aquele excesso seu, aquele ímpeto de liberdade que leva a ciência a realizar-se para lá dos seus limites e a filosofia a não temer a necessidade dos factos.

Gostaria de ver os linguistas serem capazes de rebater a classificação dos fonemas que apresentei, a sua repartição por dez conjuntos, a integração destes em quatro grandes grupos. Se, por outro lado, os filósofos quisessem reflectir a projecção da ideia nos fonemas, à luz da admissão de sucessivos estádios de manifestação do Princípio dos princípios, não poderiam deixar de ensinar os primeiros a maravilhar-se com as inesgotáveis perspectivas sóficas da ciência que cultivam.

Infelizmente, uns e outros voltam-se as costas e um livro que poderia ajudar a compreender o mistério da frase do apóstolo João (“No princípio era o Verbo, no princípio era o Lógos”) fica esquecido e entregue às moscas de Belzebuth.

 

António Telmo

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* Nota do editor: o título é da nossa responsabilidade.

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