INÉDITOS. 84

25-03-2020 16:04

 

Filosofia portuguesa e martinismo[1]

O problema da filosofia portuguesa é o problema do martinismo em Portugal.

É isto que se tem de pôr a claro, se o problema da filosofia portuguesa é o problema da filosofia de Álvaro Ribeiro. Foi ele que pôs o problema; é nele que deve ser equacionado. A equação é esta:

Martinismo + X = filosofia portuguesa. O X é a relação misteriosa, ainda incógnita, de cada filósofo com o enigma do homem e do universo. A doutrina sabemos qual é. Mas a filosofia não é a exposição de uma doutrina; é a reflexão e vivência individual dessa doutrina. Doutrina pressupõe escola, tradição de ensino, propulsora de uma corrente invisível.

A ter em conta O Encoberto de Sampaio Bruno, o martinismo é um momento, perfeitamente significativo, dessa corrente e que se apresenta como capaz de harmonizar a religião católica com o conhecimento e a liberdade. É, pelo menos, assim que a apresenta Álvaro Ribeiro n’A Arte de Filosofar: «A acção de Pascoal Martins é a magnífica versão para a Europa Central da doutrina que faz a síntese das três tradições religiosas peninsulares.» Não chega dizer que Portugal é, como a Espanha, a terra em que coabitam três tradições. O importante é procurar a síntese e é ela que cada filósofo se propõe, com maior ou menor consciência, formar pelo pensamento. A separação da filosofia e da teologia foi, segundo Álvaro Ribeiro, o resultado, entre nós, da Reforma pombalina. «A filosofia é inferior à religião», diz-nos ele noutro lugar e várias vezes escreve que a ideia de Deus é o princípio da filosofia.   

 

António Telmo



[1] Nota do editor –O título é da nossa responsabilidade.

 

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