INÉDITOS. 86

28-04-2020 19:58

Sampaio Bruno, filósofo exemplar[1]

 

O medo que certos espíritos, deste ou daquele modo interessados em sair, têm da gnose poderá também levá-los a reflectir que não é possível tocar, só que seja, o limiar do conhecimento divino sem que se sintam estremecer os alicerces da nossa percepção comum onde se instalara a relativa segurança do não ser. Apoderou-se de Jacob o pavor: “Esta, disse, é certamente a casa de Deus.” Estamos defendidos pelos muros da própria prisão.

Há, porém, uma razão mais válida contra a gnose. É a impossibilidade de admitir que o mundo visível, criação maravilhosa de Deus, seja uma prisão. Este sentido da presença do divino na natureza e, portanto, de uma liberdade imanente às coisas e aos seres é muito agudo nos portugueses. Não obstante, a nossa mais alta e representativa poesia, desde Camões a Pascoaes e a Pessoa, tem como dominante o sentimento do exílio, do distante no tempo e no lugar, do Paraíso perdido. Aqui aparece Sampaio Bruno como o filósofo exemplar dos portugueses; ali é Leonardo Coimbra.                

 

António Telmo



[1] Nota do editor – O título é da nossa responsabilidade.

 

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