«OS MEUS PREFÁCIOS». 08

02-11-2014 14:19

Pelo menos na ordem do simbólico, conforme o desejo do poeta, 2 de Novembro, data votada à Saudade, é o dia do seu nascimento, que parece ter realmente ocorrido a 8 desse mesmo mês, no ano de 1877, em Amarante, na freguesia de São Gonçalo, numa casa da então Rua de São Pedro. António Telmo prefaciou, em 2002, o volume 21 das Obras de Teixeira de Pascoaes, publicadas pela editora Assírio & Alvim. Reunindo os títulos Londres. Cantos Indecisos. Cânticos, o livro tem edição de António Cândido Franco. É a Introdução télmica que agora oferecemos ao leitor, num dia que é de Pascoaes, e no rescaldo do Congresso "As Biografias no Pensamento Português dos Séculos XIX-XX, por ocasião dos 80 anos da publicação de São Paulo", iniciativa do CLEPUL de que o Projecto António Telmo. Vida e Obra foi parceiro.           

 

INTRODUÇÃO A LONDRES. CANTOS INDECISOS. CÂNTICOS, DE TEIXIERA DE PASCOAES[1]

 

Portugal e o seu arquétipo, tal como nos é possível concebê-lo através do que na sua situação geográfica é símbolo num espelho e também da sua história no que ela tem de secreta ou de fantástica, mas sobretudo através da língua onde os fonemas formam o arco que lança a flecha do sentido, é o que essencialmente conspira na poesia de Pascoaes para abater o espírito que nega.

Neste volume da Assírio & Alvim, aparece um longo poema sobre Londres, onde nos surpreende, por contraste com o espírito crepuscular ou outonal de Pascoaes, uma toada que lembra a de Cesário Verde, mais poeta da cidade do que do Ocidente (como queria Pessoa), pois só conhece o campo quando a ele vai em piquenique ou ao fim-de-semana acompanhado de uma mulher. Pascoaes visitou Londres e aí pernoitou durante vários dias por causa de uma jovem inglesa que conheceu no Porto e por quem se apaixonou como se ela fosse a aparição da sua mesma alma. Chamava-se Leonor Dogge ou Dagge, tenho visto o nome escrito das duas maneiras. Dogge lembra a marca de um automóvel hoje fora do mercado. Mas Leonor, pelo som e pela etimologia hebraica, é como um sol outonal todo oiro num ar quase líquido. Todas as jovens mulheres que o poeta amou chamavam-se Leonor e, como as de Camões que também amou uma Leonor ou como a Beatriz de Dante, eram luz pelo sorriso, sol pelos cabelos, céu diurno ou nocturno pelos olhos, humanas rosas. Henri Corbin fala-nos de uma cognitio matutina que é como o levantar da aurora perante o nosso espírito. Pode-se reconhecê-la nas canções camoneanas, mas em Pascoaes deve sim falar-se de uma cognitio vespertina com a estrela do terceiro céu a lucilar ao pôr do dia. Entre nós, o Sol não se sepulta no horizonte, mas casa-se com a terra porque se põe nela. O pôr do Sol também neste caso é um morrer. Os gregos viam-no afundar-se na noite que confundiam com o Oceano, a Ocidente para lá das colunas de Hércules, limite do mundo conhecido. Nas longínquas paragens para lá de onde acabava o mar mediterrâneo era a terra dos mortos, a entrada do tenebroso Hades, mas também o lugar das ilhas bem-aventuradas somente acessíveis aos heróis.

Sem a Ilha do Amor, que Camões imaginou mas Vénus realmente criou, os Descobrimentos teriam de ser interpretados como uma calamidade que se abateu sobre o mundo dos homens. Com os descobrimentos marítimos dos portugueses se inicia a fase final da Idade do Ferro, caracterizada por nela se fazer a Grande Mistura do Oriente e do Ocidente, dos povos e das raças, das especiarias e das espécies. Abre-se então o caminho a uma mutação radical na maneira de raciocinar, mutação que Francisco Bacon qualificou de Instauratio Magma, tendo para a nova ciência escolhido o seguinte emblema: uma caravela com todas as velas pandas passando as Colunas de Hércules à conquista do Novo Mundo. Jean Robin, a quem se devem estas indicações, não menciona os descobrimentos marítimos dos portugueses por de certo ignorar o mito da fundação de Lisboa por Ulisses. Para a interpretação deste mito, esse «nada que é tudo», tem grande interesse aquilo que nos diz em Le Royaume du Graal depois de ter mencionado Francisco Bacon: «René Guénon tem, a propósito das Colunas de Hércules (Estreito de Gibraltar), curiosíssimas reflexões, sublinhando que elas «marcam os limites do mundo conhecido», isto é, que constituem a fronteira que, por razões que seria importante procurar, não podia ser ultrapassada pelos navegadores».

«Segundo Dante – continua Jean Robin –, Ulisses é condenado porque passou esta passagem estreita onde Hércules pôs os seus sinais». Para Guénon, tal como o confidenciou a Denis Roban, a menção das Colunas de Hércules por Dante «parece certamente indicar que Ulisses seguiu uma via ilegítima e, se bem que aviste de longe a montanha do Purgatório, não pôde chegar lá, nem muito menos atingir o Paraíso Terrestre que se encontra no cimo dessa montanha».

As navegações dos portugueses, tendo como ponto de partida Lisboa, como que prolongam ainda mais além dos limites do mundo conhecido as navegações de Ulisses. O Velho do Restelo não é o que se tem julgado até agora. Ele condena, como Dante Ulisses, aqueles que, imitando Prometeu ou Ícaro, seguem uma via ilegítima. Releia o leitor as três últimas estrofes do Canto IV d’Os Lusíadas.            

A ideia de que o fim do ciclo se concretiza com os descobrimentos marítimos dos portugueses conjuga-se com uma muito antiga profecia, segundo a qual o termo desta humanidade seria um dia assinalado pelo afundamento da Ursa Maior e da Ursa Menor no oceano. Com efeito, tal afundamento deu-se com a passagem das naus pelo Equador. Foi também, todavia, nesse momento que se tornaram visíveis no céu as quatro estrelas do Cruzeiro do Sul. Como se explica que Dante soubesse dessas quatro estrelas duzentos anos antes de serem avistadas pelos portugueses? Veja-se o que escreve à saída do Inferno: «Uma suave cor de safira no Oriente, manifestando-se no aspecto sereno do céu puro até ao primeiro círculo, começava a deslumbrar meus olhos logo que saí da atmosfera morta que tanto afligira o meu olhar e o meu coração. O belo planeta que incita ao amor fazia sorrir todo o Oriente, velando os Peixes que o escoltavam. Voltei-me para o lado direito e fixei o meu olhar atento no outro pólo e vi quatro estrelas que nunca ninguém antes vira, excepto os primeiros homens. O céu parecia alegrar-se com a sua irradiação. Ó região do Norte, pobre viúva, que estás privada de as contemplar!»

Uma vez cumprido com os Descobrimentos o que quer que foi de terrível, nas palavras do Velho do Restelo de simultaneamente «alto e nefando», Portugal morre em Alcácer-Quibir e volve-se no Encoberto. Ao descobrimento seguiu-se o encobrimento. Por isso Pascoaes ama, no dia, a hora do Sol-pôr, no ano o Outono, a saudade na alma humana.

Portugal não deixou mais de ser o Encoberto. O que por aí se vê há quinhentos anos não é Portugal, mas a casca do que foi, o que encobre degradando, «uma apagada e vil tristeza» semelhante à que Pascoaes viu emanar de Londres na forma de fumo e nevoeiro. Mas a tristeza londrina não é a que ele vive em Amarante, nas margens do Tâmega, em São João de Gatão. Junto ao Tâmega, é a tristeza própria do puro anoitecer. Os Cantos Indecisos são indecisos porque neles o espírito não se decide nem pela noite nem pelo dia.

Teixeira de Pascoaes é o poeta do Novo Testamento da Pátria como Camões é o poeta do seu Velho Testamento. É, no fim do ciclo, quando o vasto dia do mundo se faz noite, o poeta português por excelência. Ele é que é «o do sentimento dum ocidental». Ouçamos Luís de Camões:

 

Eis aqui quase cume da cabeça

Da Europa todo o reino lusitano

Onde a terra se acaba e o mar começa.

 

Este acabar-se e este começar são, por assim dizer, eternos, no sentido de que sempre se está acabando a terra e sempre começando o mar. Não é, pois, que acabe a terra para que só fique o mar, como se tudo se dissolvesse no absoluto. O acento ali, naqueles três versos cruciais (como diria José Marinho, o filósofo do «insubstancial substante»), é posto em Portugal como mediação e o que caracteriza rigorosamente a «mediação» é ser ela o terceiro termo da uma tríade, terceiro que é o primeiro e o segundo e que não é nenhum deles. Assim como em Hegel que Fernando Pessoa, aos vinte e quatro anos, aproxima de Pascoaes pelo transcendentalismo panteísta com o seu movimento de espiritualização da matéria e de materialização do espírito.

Ibn Arabî deu-nos o melhor ensino do que seja propriamente a mediação pelo exemplo da linha que cinde e ao mesmo tempo une a sombra e a luz, quando no solo consideramos a projecção de um corpo exposto ao Sol. Sabemos que essa linha existe por um prestígio da imaginação, mas não sabemos se é a sombra que a traça ou se, pelo contrário, é a luz. Ela vai-se indefinindo à medida que o Sol declina até que a noite tudo absorva ou à medida que o Sol se eleva tudo dissolvendo no seu esplendor. Em Pascoaes, vemos Portugal caracterizado como «o país da penumbra», o «país crepuscular», cuja verdadeira natureza somente se surpreende no lento encobrir-se da luz que perdura na imaginação eternamente.

Voltemos a Londres.

Teixeira de Pascoaes veio dali doente, decepcionado com a inglesa, que a todas as manifestações de amor só sabia ou queria dizer: I don’t know, I don’t know. Uma alma vazia como a sua casa com que deparou ao chegar, duas janelas que eram dois olhos ocos.

Chegado a Portugal, mudou de vida. Deixou a advocacia e desistiu de casar. Seria para sempre solteiro como solteiros ficaram sempre outros dois imensos poetas, José Régio e Fernando Pessoa, que formam com ele a tripeça bandárrica onde vêm interrogar o demónio de Portugal todos os que se afastaram da mentalidade inferiorizante. Abandonou de todo a ideia de ser um homem prático. Meteu-se dentro de casa, no seu solar de São João de Gatão, donde só saía para sentir a natureza ou para vir ao Porto tratar dos negócios do espírito. A sua casa tinha nas janelas sentidos para o mistério do exterior; uma delas era como o olho de Shiva. A lama de Pascoaes continua lá.

Aquela viagem a Londres faz lembrar a de Dostoiévski. É num dos seus livros que encontramos a associação da cidade ao deus Baal, o Belzebu do cristianismo, o babilónico deus inimigo do deus de Abraão, que é o nosso deus. Ernst Jünger, referindo-se à experiência londrina do escritor russo, faz várias considerações que se poderiam aplicar aos versos londrinos do escritor português. Assim, por exemplo: «Dostoiévski apercebeu-se de que era Baal quem dominava nos bastidores da espectacularidade londrina, na margem do Tamisa; Baal que o apavorava e fascinava ao mesmo tempo…»

O Tamisa e o Tâmega! Que semelhança e que diferença! Talvez para agradar ao que julgo ter sido seu amigo, Aubrey Bell, um inglês que conviveu em Portugal e a quem dedica o poema, o nosso poeta, após ter descrito Londres e a sua tristeza infernal, termina inesperadamente pela sua exaltação. Mas já não é a cidade fantástica e tenebrosa que tem em mente. É o que ela evoca: Shakespeare e Byron, o rei Artur e o seu sonho da Ilha de Oiro e das Terras do Nascente; é, diz ele, a mesma «tristeza em Deus»; é a inevitável aproximação entre Byron e Camões pelo mar que em ambos ecoa, entre o rei Artur e D. Sebastião; e tudo envolto no mesmo nevoeiro. O Tâmega e o Tamisa! Uma metade igual, uma metade diferente! Quão perto e quão longe!

Não. Pascoaes engana-se e engana-nos. Não é a mesma tristeza e o mesmo nevoeiro. Em Londres há tudo o que o deus Baal traz consigo e o nevoeiro é a sua respiração feita de vapor, de ruído, de vício, de fumo e de uma dor imensa.   

A tristeza do Tâmega é a dos Cantos Indecisos, não a tristeza sórdida do Inferno, mas a de um mundo que sofre por haver nele Deus longe de Deus.

 

Numa gramática que em tempos escrevi para uso dos poetas e a que chamei Gramática Secreta da Língua Portuguesa, pondo no secreta a ideia de que a não destinava ao uso dos linguistas, mostrei a dada altura, uma altura a que cheguei interrogando e reflectindo e procurando saltar acima dos próprios joelhos, que é em ginástica o acto supremamente poético, mostrei, dizia eu, que a nossa língua tem como característica dominante o outonal dos fonemas e que, por isso, Teixeira de Pascoaes é o poeta supremamente representativo do génio divino que a formou por acção subtil na alma do povo das radiações que transformaram a matéria original latina. O «outonal dos fonemas» é uma expressão bárbara, mas explica-se quando nos lembramos de que o Outono é o entardecer do ano, como que o seu crepúsculo e que podem incluir-se nessa designação os fonemas que condensam luz e treva, yang e yin, numa só emissão de voz. Tais são as vogais fechadas de medo e remoto, a imensa variedade de ditongos e, sobretudo, as sílabas que terminam por m, n, l, e r como por exemplo nas palavras luar, oculto, ermo e sombra. Na língua portuguesa não há palavra terminada por consoante. Os linguistas consideram os indicados m, n, l e r semiconsoantes uns, semivogais outros.

Os exemplos apresentados são precisamente das palavras que Teixeira de Pascoaes escolheu para mostrar a natureza intraduzível de numerosas palavras portuguesas, onde naturalmente se destaca a palavra saudade. Mas em saudade o que é essencial não é só o ditongo da primeira sílaba com sua correspondência num sentimento outonal, é também a repetição do som d com sua correspondência num desejo que é lembrança e numa lembrança que é desejo. O que é a memória? Não é o ser e o seu espelhar-se na mesma alma? Também na palavra memória se evidencia um redobro. Aliás, o eco ou a ressonância aparecem noutras línguas a significar o acto de lembrar, como no grego por exemplo, donde nos vêm anamnese e reminiscência.          

As pessoas, quando conversam umas com as outras, não têm qualquer consciência das frases que proferem, só têm consciência de vagas intenções. Muito menos a têm das palavras e dos fonemas. Falam sem se lembrarem de si próprias falando. Se o tentassem fazer, ficariam bloqueadas. O filósofo (não o filósofo-poeta), que lida com conceitos e juízos, sabe porque emprega determinadas palavras e não outras e como as combina; mas o poeta, se o filósofo é também poeta enquanto filosofa, tem consciência igualmente dos fonemas, torna-os significativos, carregados de intenções mágicas, de energias supra-sensíveis. Assim em Pascoaes soberanamente. A tal ponto que é possível deduzir dos fonemas que escolhe toda a sua poesia, todo o seu pensamento, no que têm de genuíno e de universal, ao modo como Cuvier, a partir de um osso, era capaz de reconstituir todo o animal e Goethe toda uma catedral a partir de uma janela.

Os linguistas, submissos como são a Saussure e à escola francesa, não aceitam a correspondência entre as sequências sonoras e os significados como uma relação necessária, argumentando com a estatística, que não confirma essa relação. Avaliam qualidades pela quantidade. Claro que só para o poeta iluminado os fonemas são qualidades, como qualidades foram no momento intemporal da criação da língua pelo povo. Mas o povo não é o homem comum, a plebe. É o homem excepcional como totalidade.

Em Cantos Indecisos não há palavras em que se quebre a sequência dos sons outonais. E as imagens que transportam, pela metáfora, sentimentos e ideias em transfigurações pertencem a um mundo que morre para ressuscitar do outro lado da alma.

Fernando Pessoa, numa evidente alusão a Pascoaes, disse um dia haver poetas que, tendo uma vez escrito um poema excepcional e em tudo admirável (pensava, talvez, na Elegia do Amor), depois o repetem, mais ou menos modificado, em todos os poemas que vêm a escrever. Não é bem assim. Aliás, os três livros que compõem este volume destacam-se uns dos outros pelo conteúdo e pela forma. Mas é verdade que há nos versos de Pascoaes uma monotonia, se nisso pensarmos lembrando o suceder-se das ondas do mar, que pode adormecer ou enfadar quem não for capaz de viver em experiência, ou em sugestão dela, o que nelas se envolve e se desenvolve. As vivências de Pascoaes são de uma rara profundidade. Podemos suspeitar da sua veracidade como quando escreve por exemplo: «E ponho-me a gritar cingido de relâmpagos!»

Mas a inveracidade deste verso precisamente é contestada pela lenda que corre há muito entre a gente humilde de Amarante. Teixeira de Pascoaes, afirmam, subia ao alto da montanha; era um Moisés levantando os braços aos céus; e punha-se a gritar clamando pelos relâmpagos. Formava-se uma trovoada e ele aparecia envolvido em chamas.

Claro que o homem moderno já não se espanta com estas coisas. A tecnologia faz muito melhor. Todavia, mesmo que pudéssemos por momentos supor que o poeta fizesse o que dele se conta, que na realidade fosse um manipulador de energias cósmicas, o que valerá isso ao pé da palavra que ilumina a alma? Sim, o que é uma experiência real, ou o que é que tem de realidade uma experiência sem que a palavra a faça viver para o espírito e para a vida mental do homem. Estamos cansados de místicos, de ocultistas e de esotéricos que não sabem o que é a relação de um substantivo como um verbo. Uns são substancialistas: só há energia que é matéria; outros são insubstancialistas: só há energia que é espírito. O Espírito Santo é, como ensinou José Marinho, o Insubstancial substante.

 

O terceiro livro deste volume é composto por vinte e dois cânticos, tantos como as letras do alfabeto hebraico ou como as lâminas do arcano maior do Tarot. Claro que o autor dos Cânticos não deve ter pensado minimamente nisso. A relação pitagórica da matemática com a poesia só se aplica em raros casos. Como mostrou Guénon, é o caso de A Divina Comédia, concebida como foi por Dante na forma ascendente de uma catedral edificada sobre o Inferno e suspensa dos Céus. É também o caso da Mensagem. Como o mistério do número nove está intimamente associado ao mistério do amor pode dar que pensar o facto de a Ilha de Vénus aparecer no Canto Nono d’Os Lusíadas, ser todo esse canto e o seguinte. Mas não devemos abusar destas relações, pois corremos o risco de cair em plena fantasia, sem qualquer proveito para a inteligência do que estudamos.

De qualquer modo, estamos aqui nos Cânticos perante vinte e duas meditações tão essências para o conhecimento do mistério de Deus no homem e na natureza quanto são essenciais para o conhecimento da natureza e do homem no mistério de Deus as vinte e duas letras do alfabeto hebraico. Cada cântico tem seu nome que o singulariza, com excepção do primeiro e do último que recebem o nome geral de cantos. Por isso, propriamente só há vinte cânticos. Com o primeiro poema ou canto fecha-se a porta do passado, ouve-se ela bater para cá da noite e dos seus fantasmas; o último é uma porta que se abre para uma vida nova no mundo do espírito, novo estádio da alma que deve resultar da vivência em profundidade do que é posto a ser nos vinte cânticos.                     

Estamos já não muito longe dos livros em prosa. Conservou-se o ritmo, mas desapareceu a rima. A reflexão tomou conta do verso. O poeta-filósofo começa a dar lugar ao filósofo-poeta. Há cânticos que são mais filosofemas que poemas.

 

Os valiosos estudos da obra de Pascoaes que até agora têm vindo a ser feitos por pensadores da tradição portuguesa, os estudos de um Afonso Botelho, de um António Cândido Franco, de um Manuel Patrício, de um Paulo Borges ou de um Pedro Sinde, se obedeceram à preocupação de situar essa obra no quadro da nossa filosofia, nem sempre o fizeram de acordo com o conceito de filosofia portuguesa, e de tudo o que nela se implica, tal como foi formulado por Álvaro Ribeiro, o mestre entre nós dos que sabem. Com efeito, para o pensador da razão animada a filosofia é uma forma de literatura e depende por isso da inspiração individual. A inspiração individual, todavia, tem como condição o exercício da crença metódica e não da dúvida metódica que fatalmente reduz a filosofia à matemática e à mecânica. Se há método, há escola. Álvaro Ribeiro afirma, em dado momento, que não há uma, mas duas escolas de filosofia portuguesa. Não diz por meio de que pensadores se faz a divisão, mas não estará errado supor que estaria pensando em Sampaio Bruno e em Leonardo Coimbra. Eu vejo, quando evoco estes dois espíritos, a Igreja de João e a Igreja de Pedro perfilando-se no horizonte destacadas uma da outra, mas iluminadas pelo mesmo sol.

Pascoaes era amigo de Leonardo e forma ambos fundadores do movimento da Renascença Portuguesa. A revista, que lançou o movimento pela palavra escrita, recebeu o nome de Águia, a ave joanina. Leonardo Coimbra via no Regresso ao Paraíso (como Pessoa na Elegia do Amor) a suprema expressão poética da alma portuguesa, mas mais tarde, numa contundente depreciação do São Paulo, escreveu palavras de indignação contra o que lhe parecia um revoltante antipaulinismo de feição maniqueia.

A corrente de religiosidade portuguesa onde Pascoaes pôs a navegar o seu barco tem a remota origem em Prisciliano, mas foi com Sampaio Bruno que se revestiu de forma filosófica.

Deixei atrás, olhando o Tamisa e o Tâmega, a ideia de ser a tristeza, tal como a sente Pascoaes nas coisas e nos entes, a de um mundo que sofre por haver nele Deus longe de Deus. Toda a filosofia de Bruno e toda a poesia de Pascoaes podem sair daqui. Não é este o momento de o fazer, porque chegamos ao termo desta introdução. Direi, todavia, ainda o seguinte: são vários os exercícios possíveis de imaginação saudosa, aquela imaginação que ajuda a evolução da natureza pelo homem, mas o ponto de partida é sempre o mesmo: lembrar-se cada um de si próprio como de Deus que sofre por não ser Deus. Este ponto de partida só se encontra por uma demorada aprendizagem, não obstante ser um dado imediato da consciência.

                                                                                                                                                 

[Maio de 2002]        

 

António Telmo

 


[1] Teixeira de Pascoaes, Londres. Cantos Indecisos. Cânticos, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, pp. 7-19. 

 

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