UNIVERSO TÉLMICO. 05

07-07-2014 12:11

CORRESPONDÊNCIA DE ÁLVARO RIBEIRO PARA RAFAEL MONTEIRO. 02


 

Lisboa, 20 de Setembro de 1973

Exmo. Sr. Rafael Monteiro,
meu prezado Amigo:

 

Recebi, li e agradeço o seu curioso opúsculo sobre os painéis «de Nuno Gonçalves». Também li, recentemente, o belo estudo que intitulou de «Esclarecimento da história da vila piscatória de Sesimbra».

Bem sabe que muito aprecio os trabalhos históricos do Rafael Monteiro, com suas inteligentes hipóteses e suas ressurreições de vidas esquecidas. O tema dos painéis, além de misterioso e escabroso, é também perigoso para quem o abordar sem os indispensáveis sacramentos, pois causou já muitos desgostos a escritores ilustres e até uma morte por suicídio, mas eu louvo a coragem de quem é capaz de se sacrificar na defesa de causas perdidas. Perdida está a minha campanha em prol do ensino da filosofia portuguesa nas escolas públicas, mas nem por ver a desistência dos que outrora me acompanharam deixei alguma vez de insistir na seriedade do meu propósito.

O espírito arábico-judaico, por assim dizer sefardim, que subjaz na língua e na cultura portuguesas, moldado depois pela cleresia católico-romana, bem merece a atenção do Rafael Monteiro no anunciado estudo sobre o «convento» do Cabo Espichel, cuja publicação se aguarda com o maior interesse. Não é verdade que os cristãos portugueses impedissem que se pintasse a figura do judeu em igreja católica; contra essa objecção milita a abundância de azulejos com temas do Velho Testamento, a pintura de uma admirável e perfeita figura de rabino na igreja do Convento de Cristo em Tomar, e a extraordinária figura da árvore sefirótica, com seus dez judeus, num altar lateral da Igreja de S. Francisco em Estremoz. Grande parte, se não a maioria, dos sacerdotes portugueses protestavam em silêncio contra as barbaridades cartaginesas da Santa Inquisição, e protegeram quanto possível os marranos.

Nossos tempos são diferentes!… Vivemos num período de destruição política da Pátria, e até dos fundamentos históricos da Nacionalidade. O Governo nomeia deputados, governadores civis, presidentes das câmaras entre doutores que ignoram as raízes étnicas e o passado institucional dos povos sobre os quais vão exercer autoridade. Assim se descaracteriza a paisagem natural e social por obediência às instruções da O.C.D.E. e da U.N.E.S.C.O.

Bem hajam, pois, os escritores populares e patriotas que protestam contra a utopia da uniformização cultural num Mundo em que o espaço e o tempo diferenciam as manifestações da vida. Rafael Monteiro merece a gratidão dos sesimbrenses!…

Queira confiar sempre na estima intelectual que já alguns anos lhe dedica o seu amigo e admirador

 

Álvaro Ribeiro

 

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