UNIVERSO TÉLMICO. 08

23-03-2015 09:30

António Cândido Franco, membro fundador do Projecto António Telmo. Vida e Obra, responde ao que sobre a sua biografia de Agostinho da Silva foi escrito no blogue Liceu Aristotélico. Com um ponto final, que é também o nosso. Acabou-se o recreio na Travessa do Fala-Só. 

[29 de Maio de 2010. Visivelmente doente, António Telmo faz a sua derradeira oração pública na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, casa de que foi o primeiro director. É manifesto o sacrifício com que o orador, bastante debilitado, fala para a assistência. Surpreende, porém, pelo tom empolgante com que a arrebata num apólogo estrénuo da República, suscitando-lhe, a final, tremenda ovação. No âmbito do colóquio "Anarquia, Monarquia e República", do ciclo Portugal Renascente, colóquio inteiramente idealizado por Telmo, este fala sobre "Monarquia e República". A seu lado, António Cândido Franco aborda o tema "Anarquia e República", além de apresentar o livro Luís de Camões, de Telmo, lançado nesse mesmo dia.]

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O Estranhíssimo Colosso – Uma Biografia de Agostinho da Silva no Liceu Aristotélico

António Cândido Franco

 

Conta algures Tomaz de Figueiredo, monárquico contumaz, a seguinte história. Na noite de 11 para 12 de Fevereiro de 1944, num dos quartos da sua casa de Lisboa, na Avenida Praia da Vitória, ao pé do Saldanha, era velado Henrique de Paiva Couceiro, que ficara fiel à monarquia no levantamento revolucionário de 5 de Outubro de 1910 e fizera depois as incursões monárquicas do norte em 1911, 1912 e 1919. Tomaz de Figueiredo, que o conhecera na infância na estrada de Pontevedra, compareceu para velar o homem que lhe aparecera em criança. A noite correu fria e muda, até que alguém o puxou pelo braço, para lhe confessar, varado de espanto:

– Sabe quem esteve aqui? Não? Pois um revolucionário do 5 de Outubro! E disse-me isto: Eu fui, sempre hei-de ser republicano; Paiva Couceiro foi sempre monárquico, também nunca torceu. Homens destes respeitam-se. É o que eu faço.  

Esta bela e comovente história não se repete mais. Os adversários de hoje não têm grandeza de alma. É tudo tão pequeno que nem paga o trabalho citar-lhes o nome. Em lugar de heróis, há hoje delatores. O Liceu Aristotélico (blog.spot), ao falar da minha biografia de Agostinho da Silva, O Estranhíssimo Colosso, chamando-me anarco-comunista, indica o seguinte por baixo da coroa de sua majestade: Don’t suspect an anarchist; report them. Vertido em português de lei: se vires um anarquista, não te contentes com meias medidas; denuncia-o à polícia! Se Paiva Couceiro por cá andasse, havia de ser o belo e o bonito! Homens daqueles não suportavam baixezas destas.

Do responsável do Liceu Aristotélico o que até aqui sabíamos era que elogiava o “portuguesismo” do ditadorzeco de Santa Comba, o mesmo que, em 1937, sem qualquer decência, atirou para o exílio com um homem a caminho dos 80 anos. Chamava-se esse homem Henrique de Paiva Couceiro.

Sabemos hoje mais. O nosso liceal anda muito preocupado com a História. Quer tudo nos eixos e cheio de rigor. Não admite a troca duma data e enfurece-se com qualquer descuido. Não se pode escrever uma linha fora da disciplina de Clio. Um erro, uma desatenção, a mais leve inadvertência é crime de lesa-majestade. A História é tudo! A História – as fontes documentais, como ele faz questão de dizer – é a madre de todas as verdades.

Pobre Aristóteles que escreveu o tão lúcido e exigente capítulo IX da Poética e tão tripudiado anda. Aures habent et non audient.

 

21 Março de 2015

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