UNIVERSO TÉLMICO. 37

21-05-2016 19:51

Um Lisboeta chamado Isaac Abravanel[1]

António Carlos Carvalho

 

Há sempre um elemento de surpresa nos textos de António Telmo, algo que nos obriga a voltar atrás e a reler, para verificarmos se lemos realmente bem...

No caso desta comédia satírica (em que se dizem coisas muito sérias), a primeira surpresa é a de ver a questão dos Painéis de Nuno Gonçalves tratada nestes termos, quando desde o início sempre foi, e continua a ser, encarada como tema da maior gravidade e seriedade, ao ponto de ter havido mesmo quem pusesse a vida em jogo nessa polémica sem fim.

A segunda e maior surpresa é verificarmos que António Telmo – que já na História Secreta lembrava que está por fazer uma interpretação dos Painéis que, mais atenta às funções das personagens do que à identificação dos indivíduos ali retratados, mais perscrutadora do simbolizado do que do símbolo, fosse capaz de os dar como uma das cifras fundamentais da História de Portugal – chama agora à boca de cena duas personagens realmente essenciais, mas pouco referenciadas nesta questão dos Painéis:

D. Afonso V e Isaac Abravanel, o rei infeliz e o pensador sempre condenado ao exílio;

D. Afonso V apresentado como «último rei de Portugal» e discípulo de Abravanel «na sublime ciência da Cabala».

E são estes dois sublinhados que mais nos surpreendem: vermos que António Telmo considera «o Africano» como o derradeiro monarca – sendo o 12.º rei, encerra um ciclo perfeito – e o que realça nele é a busca da sabedoria. O que obriga a olhar para o corpo das suas armas pessoais (um rodízio aspergindo gotas, mas gotas de quê...?) com outros olhos, mais profundos.

Na peça, Isaac Abravanel queixa-se de que «tudo têm feito para apagar a minha figura dos Painéis. Ninguém tem querido ver em mim o Judeu... com a Torá aberta nas minhas mãos». E, no entanto, «Portugal era para nós o novo Israel » – estas palavras que Telmo coloca na boca de Isaac Abravanel constituem certamente uma alusão ao plano original da História Secreta de Portugal enquanto História de Portugal-Israel incluído em A Terra Prometida, volume I das Obras Completas de António Telmo, páginas 91 a 93.

E Abravanel também se poderia queixar do completo esquecimento a que o seu próprio nome foi votado na cidade, Lisboa, que o viu nascer em 1437.

Conselheiro de reis, cortesão e financeiro de casas reais, erudito enciclopédico, pensador filosófico, exegeta bíblico notável, escritor brilhante, diplomata incansável, último porta-voz dos judeus portugueses e europeus na Idade Média, mas igualmente construtor de pontes para a era seguinte, a do Renascimento, Isaac Abravanel foi ainda o «pai» dos movimentos messiânicos dos séculos XVI e XVII, tanto no mundo judaico como no universo cristão.

Por essas e por muito boas outras razões chamaram-lhe «a grande águia», «um homem de Deus», «tão sábio como Daniel», «uma fortaleza e um escudo para o seu povo», «aquele que salvou os oprimidos das mãos dos seus inimigos».

Figura de verdadeira estatura internacional, exerceu uma profunda e duradoura influência no próprio mundo cristão. Entre a Reforma e o Iluminismo, nenhum outro autor gozou de maior fama ou suscitou maior discussão – lembra-nos o seu principal biógrafo, Benzion Netanyahu, em Dom Isaac Abravanel – Estadista e Filósofo, 1953 (Edições Tenacitas, 2013).

Durante mais de 200 anos, os pensadores cristãos debateram os seus argumentos e viram nele uma fonte de inspiração. E ainda hoje, quem se interessar pela exegese bíblica ou pelo pensamento filosófico «tropeça» constantemente no seu nome e nas citações das suas obras. (Além da biografia de Netanyahu, com várias reedições, podemos ler Isaac Abravanel – La mémoire et l’espérance, de Jean-Christophe Attias, 1992, ed. Cerf; Isaac Abravanel – Conseiller des princes et philosophe, de Roland Goetschel, 1996, ed. Albin Michel; Two Portuguese Exiles in Castille, de Elias Lipiner, 1997, ed. Magnus Press; ou, entre nós, A Filosofia Hebraico-Portuguesa, de Pinharanda Gomes, 1981, ed. Lello; História do Pensamento Filosófico Português, volume II, 2001, ed. Caminho; além de Don Isaac Abravanel, Almoxarife e Rabi-Mor de Portugal, de Amílcar Paulo, 1972.)

Isaac ben Judah Abravanel nasceu em Lisboa, em 1437 – o mesmo ano da morte de D. Duarte –, no seio de uma família ilustre de judeus peninsulares. O pai, D. Judah, fora financeiro do Infante D. Fernando; o avô, D. Samuel, fora cortesão de três reis de Castela; o bisavô, D. Judah (um nome próprio constantemente repetido na linhagem familiar), fora tesoureiro de Fernando IV em Sevilha e almoxarife-mor de Castela. A família Abravanel dizia ser descendente do rei David, da casa real de Judá, tendo vindo para a Península logo após a destruição do primeiro Templo. Em 1378, quando Sevilha assistiu ao início de uma campanha de perseguição dos judeus, os Abravanel começaram a pensar que se deviam instalar em Portugal, o que fizeram a seguir à batalha de Aljubarrota. No início do século XV, a família Abravanel tem já um papel activo no comércio do país, resistindo a alguns sinais esporádicos de intolerância religiosa por parte do povo e do clero, no tempo de D. Duarte e mesmo já no reinado de D. Afonso V. Quando Isaac tem 12 anos, em 1449, regista-se o primeiro motim da multidão fanatizada, que ataca as três judiarias de Lisboa e só recua porque elas se encontravam fortificadas e defendidas. D. Afonso V, que se encontrava então em Évora, foi obrigado a regressar rapidamente a Lisboa e a enfrentar a revolta com medidas fortes e condenações severas dos amotinados. Este rei tentou sempre proteger os judeus portugueses contra o clima adverso das próprias Cortes. Aliás, manifestou uma grande curiosidade pelos judeus, dos quais dizia estarem destinados a receber recompensa divina «porque os seus motivos religiosos são puros».

Este soberano notável, que Isaac Abravanel descreveu como «justo e íntegro, vigoroso e heróico, numa busca ardente do bem-estar do povo, culto e sensato», foi também um patrono das letras e até colecionador de livros – segundo o cronista Rui de Pina, foi o primeiro no seu reino a coleccionar bons livros e tinha uma biblioteca no palácio real.

O jovem Isaac estudou Latim e Grego, a Escolástica e os Padres da Igreja, Filosofia, Medicina e Astrologia, além de ter recebido a sua formação judaica junto de Isaac Aboab e de Joseph ben Shem Tov.

O seu primeiro texto filosófico é dedicado às «formas dos elementos»; o segundo livro, A Coroa dos Anciãos, também escrito em Lisboa por volta de 1465, aborda já o conceito de Deus e o significado da profecia e nele exprime a sua admiração pela Kabbalah e pelos kabbalistas, a quem chama «portadores da verdade».

Mas é igualmente obrigado a seguir as pisadas do avô e do pai, tornando-se então um financeiro muito eficiente e o conselheiro de maior confiança de D. Afonso V. Por outro lado, em 1472, passa a ser o líder natural da comunidade de judeus portugueses, cujos interesses representa na corte. E assim se vai delineando o que será o dualismo constante da sua vida: por um lado, as obrigações dos negócios e das finanças públicas; por outro, as devoções pessoais, a escrita, a reflexão filosófica, o comentário bíblico, sobretudo o dos textos proféticos.

Em 1471, após a conquista de Arzila, cerca de 250 judeus locais são feitos escravos e trazidos para Portugal. Isaac Abravanel toma a seu cargo a missão de os devolver novamente à condição de homens livres: durante seis meses, faz tudo para conseguir a sua libertação.

Entretanto, nascem os seus filhos Judah (1460), o futuro Leão Hebreu; Joseph (1470) e Samuel (1473), além de duas filhas. A sua casa de Lisboa é o centro de grandes debates intelectuais: tal como virá a escrever no seu comentário de Josué, «Habitava então tranquilamente a casa que herdara de meus pais na cidade tão formosa de Lisboa (...). Era a minha casa o centro onde se reuniam homens doutos e prudentes. Via-me respeitado nos paços de D. Afonso V, um soberano poderoso e justo, que durante o seu reinado fez prosperar e conservou a liberdade aos judeus. Mantinha-me sempre ao seu lado, era o seu auxiliar e livremente entrava nos seus paços e saía deles.»

Contudo, tudo isso acabou em Agosto de 1481: D. Afonso V morreu com 49 anos e com ele morreu também uma época para Isaac Abravanel e para os judeus portugueses. Subiu ao trono D. João II, com a sua fúria centralizadora virada contra a casa de Bragança, que sempre apoiara a família Abravanel. Isaac viu-se subitamente envolvido numa suposta conspiração da nobreza contra o rei; perseguido, atravessou a fronteira para Castela e instalou-se perto de Badajoz, numa localidade onde viviam umas 300 famílias judaicas, e escreveu ao rei invocando a sua inocência. Em vão. Dois anos depois são publicadas sentenças de morte contra ele e Joseph, seu sobrinho e genro. Conclui então que a ira divina caiu sobre ele por se ter dedicado tanto à busca de valores temporais, negligenciando o lado melhor do seu ser. No exílio, entrega-se mais ao estudo dos profetas, de Josué e dos Juízes, completando os seus comentários sobre Josué, Juízes e Samuel: em quatro meses e meio, escreve quatro grandes volumes, num total de mais de 400 mil palavras. E reflecte sobre a História e a Política à luz da experiência reflectida na Bíblia e, também, face à sua própria experiência pessoal vivida na pátria.

A partir de 1485 instala-se em Alcalá de Henares, tratando das rendas do cardeal Mendoza e do Infantado. Sete anos depois da fuga para Espanha, tem uma posição semelhante à que tivera em Portugal: em 1491, é o financeiro pessoal da rainha Isabel; em 1492 é o líder não-oficial da comunidade judaica espanhola.

Mas 1492 é também o ano da expulsão dos judeus de Espanha: Isaac tenta interceder junto dos reis chamados «católicos» para que o decreto não seja aplicado. Sem sucesso.

E a família Abravanel parte para o segundo exílio, no reino de Nápoles, onde mais uma vez Isaac consegue uma importante posição junto do rei. É em Nápoles que completa o comentário dos dois Livros dos Reis, incorporando reflexões sobre o exílio espanhol. Interroga-se: o mundo será governado por algum princípio moral? Haverá recompensa para a virtude e castigo para o mal? Deus estará realmente presente neste mundo? Em resposta escreve Justiça Eterna, mostrando as maneiras pelas quais a justiça se revela neste mundo, e ainda Princípios de Fé A atmosfera intelectual de Nápoles ajuda-o a curar em parte as feridas do exílio. Mas o rei Ferrante morre em 1494, os franceses invadem a Itália e Isaac Abravanel acompanha o novo rei, Afonso, para Mazzara, na Sicília, enquanto em Nápoles o bairro judaico é saqueado, incluindo a sua casa: perde bens, a maior parte da biblioteca e o próprio manuscrito de Justiça Eterna. Isaac ainda vai com o rei para Palermo e depois instala-se em Corfu – onde encontra muitos outros exilados e, sobretudo, recupera aí o manuscrito do seu comentário inacabado do Deuteronómio, perdido durante a fuga de Portugal.

Ainda em Corfu, completa os comentários dos profetas maiores e inicia um novo livro, Os Dias do Mundo, em que apresenta a sua visão da História de Israel em relação com a História universal e demonstra a eternidade do povo judaico.

De Corfu segue então para Monopoli, um porto do Adriático entre Brindisi e Bari; no ano seguinte completa aí o comentário do Deuteronómio. Pela primeira vez, sente-se aliviado da pressão dos deveres políticos e sociais – mas, ainda que tenha apenas 58 anos, sente-se igualmente velho, enfraquecido, abandonado. E começa a perder a visão: tem cada vez mais dificuldade em escrever, alguns anos depois passará a ditar os seus textos a um escriba.

Em 1497 escreve Fontes da Salvação, o primeiro volume da sua trilogia messiânica, em que profetiza o rumo futuro do mundo e indica o ano de 1503 como data provável do início da redenção; seguem-se Os Anúncios Salvadores do seu Ungido e Anunciador da Salvação, segundo e terceiro volumes da trilogia que Netanyahu considerou a maior obra alguma vez composta, até então, sobre a questão messiânica.

Em 1498, escreve Céus Novos, comentário do Guia dos Perplexos, de Maimónides, e completa o comentário dos profetas menores.

Em 1503, o tal ano em que previra o início da redenção do mundo, instala-se em Veneza: a última etapa da sua vida errante de exilado. Aí oferece os seus serviços ao Conselho dos Dez como moderador entre a República e Portugal na negociação de um tratado de comércio das especiarias; as negociações falham e mais uma vez Isaac regressa à escrita: completa o comentário sobre os últimos profetas e termina o comentário do Pentateuco, que considerou a primeira das suas obras: «nela investi todo o meu pensamento e todo o meu conhecimento.»

Isaac Abravanel morreu em Novembro de 1508, com 71 anos. Foi sepultado em Pádua, porque Veneza não permitia que se enterrassem judeus no seu território.

O principal biógrafo de Abravanel, examinando essa vida atribulada mas tão rica de feitos e de obras, assinalou que Isaac Abravanel, como pensador, foi um místico; como líder judaico, foi simultaneamente realista e místico; perdeu a batalha prática da defesa do seu povo, é verdade, mas ganhou o combate pela alma desse mesmo povo. A sua tarefa histórica foi a de dar nova vida à auto-confiança judaica e restaurar a esperança na redenção. Enquanto pensador messiânico, entrou na discussão do quinto reino ou quinto Império, tal como se apresenta na profecia de Daniel, afirmando que, antes desse império final, o quarto, o de Roma, seria destruido por divisão interna e pelo confronto entre o Cristianismo e o Islão.

Falando de si próprio, disse sempre que não era um kabbalista (como foi o filho, Judah) mas aceitou os métodos kabbalísticos, que praticou nos seus escritos, e manifestou uma grande admiração pelos antigos mestres dessa ciência ou arte, os tais que tinham respostas para todos os mistérios do mundo.

Duas notas finais:

Agora que se anuncia a criação em Lisboa de um museu judaico, seria da mais elementar justiça que lhe dessem o nome de Isaac Abravanel – tal como Tomar tem um museu com o nome de Abraham Zacuto (que nem sequer era de lá...), Lisboa prestaria assim as devidas, ainda que tardias, homenagens a um lisboeta ilustre.

«Em tudo, nos seus êxitos e nos seus fracassos, no seu trabalho de comentador e de criador, no seu sofrimento e na sua glória, Isaac Abravanel foi, mesmo quando disso nos esquecemos, um judeu de Portugal» (João Vila-Chã, em «História do Pensamento Filosófico Português»).

Assim foi, assim é e assim será, por muito que doa a alguns.

António Telmo tinha absoluta noção dessa verdade.

 



[1] Posfácio a Contos Secretos seguidos de A Goga, V Volume das Obras Completas de António Telmo (no prelo).

 

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