UNIVERSO TÉLMICO. 64

03-04-2019 12:41

Publicamos hoje o texto da intervenção de Risoleta C. Pinto Pedro, sobre a obra poética de Manuel J. Palmeirim, na sessão de homenagem aos poetas populares de Sesimbra que se realizou naquela vila, no passado dia 23 de Março, no Auditório Municipal Conde de Ferreira, numa organização da Liga dos Amigos de Sesimbra.

foto de Sara Ramos

Manuel J. Palmeirim - As duas faces de um poeta

Risoleta C. Pinto Pedro

 

Para falar de Manuel J. Palmeirim, outros, nomeadamente ou especialmente António Reis Marques, seriam muito mais indicados do que eu, por isso não ousarei falar do que não sei. Apenas posso falar do que conheço dele: dois livros de poesia e pouco mais.

O primeiro livro, Espumas Vivas, sai em Março de 1950 em edição de autor, o segundo, 7 Poemas de Sesimbra, em 1963, uma edição de O Sesimbrense, na colecção “Poesia Sesimbrense”.

Não possuo muita informação sobre o autor, não é fácil encontrá-la, nem é esse o propósito da minha comunicação, que se baseia sobretudo numa análise literária dos dois livros, mas é importante assinalar o que o próprio, numa introdução intitulada “Duas Palavras”, ao segundo livro, nos diz:

Dedica o seu livro aos companheiros Gilberto Pinhal e Zé Preto, que nessa altura já tinham partido, prematuramente, mas que evoca com admiração e carinho, recordando momentos em que foi confidente da inspiração poética quer de um quer de outro. Anuncia, também, os próximos números da colecção a um e a outro dedicados, justificando a sua precedência enquanto trombeta anunciadora da futura vinda poética dos verdadeiros heróis.

Tive conhecimento do seu trabalho na área editorial, nomeadamente na Europa-América e na D. Quixote, com muitas traduções para esta última.

Para além dos livros citados e sobre os quais me debruçarei, tenho conhecimento, que muito agradeço ao João Aldeia, de activa colaboração n’O Sesimbrense, que se conheça a partir de 1946 e até 1968, nomeadamente contos e outros textos literários, poesia, assuntos locais, polémica…

Apesar de os ter lido, não serão alvo deste estudo, até porque não quero monopolizar o tempo da sessão, mas poderão ser objecto de estudo e partilha numa outra comunicação, por alguém que tenha gosto em fazê-lo, sugestão que deixo, ou por mim, se não se apresentar ninguém.

 

É visível, neste poeta, por um lado a veia da tradição, que lhe vem da origem, e a veia mais moderna, que lhe vem do contacto com a poesia contemporânea, muito possivelmente potenciada pelo seu trabalho em editoras. O que é curioso é que, dos dois livros que lhe conheço, aqueles a que tive acesso, Espumas Vivas e 7 Poemas de Sesimbra, acima referidos, a tradição vem depois da modernidade. Cá voltaremos.

No primeiro, de 1950, apesar de não ser livro directamente relacionado com Sesimbra, e do seu carácter mais inovador, sem preocupações em respeitar o cânone tradicional no que respeita à rima ou à métrica (inovador, mas não necessariamente melhor…), ainda assim aqui vem rebolar aos nossos pés a espuma do mar materno. Aliás, o próprio título lhe denuncia a origem, e a alusiva metáfora está presente e dá o tom logo no primeiro verso («Vivo na imensidade revolta e encapelada/ Dos meus pensamentos»), embora com menos embalo do que o segundo livro. O primeiro poema traz ainda algum ritmo, uma memória viva que se vai perdendo ao longo do livro. Que, aliás, termina assim: «Babei-me e adormeci». Será o retorno à baba das ondas que é a espuma?

O poeta, por modéstia, por sinceridade, ou por fingimento poético à Pessoa, Pessoa que ressoa de vez em quando neste primeiro livro, não se tem em grande conta como poeta, aliás, não tem em grande conta os poetas em geral:

«Um poeta é um cavalheiro que se lembrou de escrever/ Que estava satisfeito ou triste, irritado ou feliz/ Num determinado momento.»

Quanto à rima e à métrica, com que se há-de reconciliar no segundo livro, não ficam muito bem no retrato que faz do cânone da poesia, como coisa passada:

«Antigamente havia a métrica e a rima,/ O som e a música,/ E o poeta quando chegava ao fim já não sabia/ Se tinha sentido aquilo que escrevera,/ Se escrevera apenas com sentido».  Lembra vagamente “O Poeta é um fingidor”, de Fernando Pessoa. Para ele, a qualidade está na razão directa do sentir: «Qualquer um pode fazer um poema/ Melhor faz quem mais sentir». Resta saber se este é o sentir “sincero” dos românticos, se o sentir “fingido” de Pessoa.

Ainda sobre a rima, sendo verdade que rimar e criar uma métrica regular não chegam para que aconteça poesia, também é verdade, como António Telmo tão bem assinalou, que métrica não é o mesmo que metrificação e que tanto esta como o ritmo, antes de aparecerem no poema, estão dentro do poeta. Ritmo e métrica apenas surgem materialmente no poema porque já existiam antes, tal como a língua. Assim sendo, são duas das mais nobres funções ou características inalienáveis da poesia, a que se deve acrescentar a metáfora.

Ao contrário do autor, não avaliarei e muito menos quantificarei o seu talento, tal é impossível e não tem muito interesse, cada leitor que o faça, mas não posso deixar de afirmar que a maior parte das vezes a sua métrica, sobretudo a do segundo livro, 7 Poemas de Sesimbra, parece corresponder a um ritmo interno. E isso fala muito a seu favor.

Ainda a propósito do primeiro, Espumas Vivas, e da qualidade poética, não posso deixar de assinalar o excelente “Apontamento Crítico” assinado por L. D. Cardefe, que tem tanto de sucinto quanto de certeiro. Embora eu me permita semi discordar, tenho de reconhecer a qualidade.

Começando por afirmar que a arte se compõe «de três partes integrantes: o real, o poético e o ideal», de cuja «harmoniosa fusão integral surge «a vida coada através da arte: não já, pois, como vida, mas como Vida». Concluindo que «partindo da vida, chega-se à Vida atravessando os tão desejados (e tão mal trilhados) caminhos da arte.». Vê a arte como um «meio de construção da Vida» e não como um fim. Critica o facto de se viver «em excesso para a arte» em vez «de se viver para a Vida». Afirma, implacável, que se começa «por ser artista… e não se chega a ser homem!»

Desta falha exclui Manuel J. Palmeirim, a quem atribui tal «humanidade, que ele atinge frequentemente o desumano».

Esta desumanidade talvez a encontre em alguns versos que se aproximam do excesso de Álvaro de Campos, como vemos em: («Caminham no céu gigantescas aves de metal»); e do cinismo dele mesmo ou à Cesário, que exemplifico: («Olha, filho: Não te mates!/ Não te mates porque esta vida não vale dois tiros.»); ou ainda: («(Donde estou não se vê a lua/ Mas presumo que está uma noite óptima para os poetas.)»).

Ao mesmo tempo que o seu prefaciador afirma «Palmeirim é um homem!», acrescenta que não chega «a ser artista». Nem Poeta. E remata: «Faltam-lhe para isso, em Espumas Vivas, o elemento poético e o elemento ideal». Conclui que ali está presente «o real, em toda a sua brutal sinceridade».

Ora eu, apenas leitora que nunca conviveu com o poeta, não posso avaliar, como já referi, da sua sinceridade, por essa mesma razão não poderei dizer se é ou não artista.

Mas poderei anotar que se o mar aparece como ideia motriz, o seu ritmo só iremos encontrá-lo, plenamente, no segundo livro. Perde neste primeiro livro em ritmo, o que ganha em reflexão, confidência crítica e indignação. Salta directamente da vida, por cima do ritmo e da rima, para o ideal. Mas um ideal pela negativa. Não nos diz ele como deveria ser a Vida, mas lamenta ele que seja como é a vida. Diferentemente do que preconiza o seu, de resto excelente, por assim dizer, prefaciador.

Mas não poderei estar totalmente de acordo com L. D. Cardefe, porque pelo meio de um texto mais aparentado com uma reflexão sobre a vida, saltam de vez em quando poéticas e belíssimas imagens, como esta:

«De mil espumas brancas de viver efémero/ Uma me salpicou o rosto/ Qual pontada fria.»

Tem metáfora, tem ritmo, tem métrica. É belo.

Polvilham também o livro considerações sobre a arte, passíveis de reunir e formar algo a que poderíamos chamar a Arte Poética do Manuel J. Palmeirim da primeira fase:

Por exemplo:

«Esta maneira de escrever a que alguns chamam “poema”/ É maneira de escrever como a prosa./ Simplesmente leva mais intervalos».

Caeiro estaria de acordo. Curiosamente, Campos também.

Mas Campos também não desgostaria do poema “Sem Rótulo”:

«Caminham no céu gigantescas aves de metal;/ Atravessam os mares monstruosos peixes de ferro;/ Cruzam a terra velozes móveis!/ Em tudo, homens!/ Homens nas aves, homens nos peixes, homens nos móveis velozes.// Matraqueiam bocarras de fogo escancaradas/ Um troar sinistro, no ar, no mar, na terra./ Em tudo, homens!»

E eu estaria de acordo com Campos. Tem rasgo, é poesia. Mas depois perde força… Essa é, aliás uma característica de alguns destes poemas: a irregularidade da sua força poética.

Também ao início do poema “Tensão” é impossível ficar indiferente:

«Um morro gigantesco, negro, horrendo,/ Na noite escura se confundindo – trevas unidas./ Sobre o morro um olhar desvairado domina a terra inteira./ Uma gargalhada sinistra ecoa lugubremente/ De vale em vale/ E repete-se… Repete-se eternamente/ Zunindo-me nos ouvidos/ Sarcástica, ameaçadora, rude, negra – mais trevas unindo./ Quem a ouve estremece. Quem a não ouve não vive.»

Quase nos sentimos na Serra de Pascoaes.

E a seguinte passagem, que um poeta menor não escreveria:

«Não ouves a gargalhada do medo, animal?/ Não tremes agora como um cão perante o desconhecido?/ Não corres como um cavalo ao pressentir o que não se vê?/ Não galgas, como um felino apavorado,/ Obstáculos – intransponíveis quando te julgas homem?// Não penses no que és!»

Ou ainda, pelo inesperado:

«Reuniram-se os sete pedaços desiguais do meu prato/ E o prato voltou para a minha mesa.»

Como se o tempo tivesse passado a movimentar-se ao contrário. Um físico actual não se surpreenderia com esta relativização do tempo, o passado depois do presente.

Não teria importância a ausência do uso canónico das ferramentas da poesia tradicional, a métrica e a rima, se se tivesse sempre deixado arrebatar pela metáfora, como aqui acontece. Perde força quando se entrega à reflexão, à conclusão, à moral, à lamentação, daí a fraqueza da maior parte dos finais. Mas a garra está lá, existe. A arte está lá, mas de modo irregular, em qualidade desigual. Na ausência da rima, da métrica, é salvo, e de que maneira, pela metáfora.

Já o segundo livro, os Sete Poemas de Sesimbra,  com uma respiração ao pé deste mar, tem dentro de si o ritmo das ondas, que  está nas palavras, apenas têm de ser procuradas. Este livro é banhado pela espuma, mesmo quando o poema é sobre o castelo.

Melhora quando se aproxima da tradição, o livro tem mais unidade e há mais equilíbrio, porque aqui se alimenta do que é perene, que vai buscar ao início do movimento das ondas. Quando imita o moderno, fragmenta-se como espuma e perde-se de si. Quando se aproxima da tradição poética e histórica, ganha ritmo o verso e a métrica balança na língua como um barco no mar, o ambiente para que foi criado.

Reparte-se este segundo livro espacialmente entre a praia, não a dos turistas, mas a do pescadores, o castelo e a estrada. E a história. Dos homens, dos lugares e da Poesia.

No início do livro, a intertextualidade com Raul Brandão, na epígrafe, pois também ele escreveu sobre Sesimbra e os pescadores.

Marginal a estrada, a dos namorados, o desejo incontrolável. O corpo sob o poder da lua e do calor do Verão. E aqui estamos em pleno cenário das cantigas de amigo. O campo de avelaneiras onde dançam as amigas do séculos XI, XII, é substituído pela estrada, mas o som do mar, como numa barcarola medieval, é o alaúde do amor. O  movimento das ondas materializado no refrão, a imitá-las.

Curiosa a ambivalência do namoro, a lembrar muito outro amigo de Sesimbra, António Telmo e a sua peça de teatro A Verdade do Amor:

Palmeirim canta: «Pares de namorados arrulham pecados,/ Demoníacos uns, outros santificados,/»

E Telmo: «A menina e o menino/ Sexo neutro: a criança!/ Feminino e masculino. Siga a dança!»

Estes sete poemas soam entre a praia e o castelo, a água e a pedra. E em “Bairro dos Pescadores” os «cubos alinhados» das casas são «barcos cansados», numa certa analogia, pela antítese, com a expressão de Miguel Real em A Cidade do Fim, romance sobre Macau onde também Sesimbra é personagem. A expressão de Miguel Real é «naus que viram casinos», mas refere-se a Macau. Aqui não há dinheiro para tal, são as casas que parecem naus exaustas, em repouso.

No livro de 1963 encontramos uma toada antiga, ancestral, que vem dos trovadores, um ritmo que vem do mar. Quem nasceu ou viveu em Sesimbra, conhece-o.

Contudo, também neste livro o poeta relativiza a rima e o rimar. Não nos poemas, mas no texto introdutório. Assume-se como mais prosador e afirma que «nem sempre que faço versos acontece poesia»; bem como reafirma que «a facilidade em rimar e conhecimentos de métrica nunca foram a maior riqueza de um poeta. O que diz aqui em prefácio já dissera no anterior livro em poema. E no entanto, aqui acontece rima, métrica e… poesia.

Três destes poemas, como informa, já haviam sido publicados n’O Sesimbrense sob pseudónimo: Tristão Sesimbra. Por aqui ficaríamos mos a saber que ali vem publicando poesia «de quando em quando».

Tem uma atitude humilde, porque não só não se exalta, como se desmerece, e aproveita esta edição do primeiro livro na colecção “poesia Sesimbrense” de 1963, para justificar a sua precedência, enquanto arauto dos poetas que, no seu entendimento, o são verdadeiramente: Zé Preto e Gilberto Pinhal.

Talvez o pseudónimo “Tristão” concentre em si a tristeza do desaparecimento dos amigos poetas, a tristeza que numa concepção simbólica da doença surge associada à tuberculose que prematuramente os levou.

Já Telmo, também convivendo com amigos infectados pela doença, ouve uma voz que o avisa de algo como: Não entristeças, senão entuberculizas. Era um quase menino, pouco sabia da metafísica das doenças, contudo existe um saber universal a que os poetas têm acesso.

Mas voltando ao que escreve Palmeirim sobre a rima, permito-me discordar dele. Se rimar toda a gente rima, rimar com elegância dentro dos limites da métrica, como ele faz, com uma ou outra excepção, não é para qualquer um, e não é fácil fazê-lo sem cair na banalidade.

Acrescenta-lhe ainda a toada tradicional bem servida pela anáfora e temos poesia quase cantada e sem dúvida muito cantável.

Seria até interessante se em vez de se pagar balúrdios a cantores de centésima ordem, como vemos por esse país fora, se investisse numa composição musical de qualidade a partir de poetas da terra, destes ou de outros poemas sesimbrenses. Sesimbra ganharia.

O primeiro poema apresenta um processo muito interessante, ao analisar ou conciliar Sesimbra, de que trata o poema, com um tom eminentemente lírico, pela presença anafórica do eu, no refrão de cada estrofe («Comigo e sem mim»); transforma o que parece exterior em confidência, sem de si falar. O lirismo em alta rotação.

A preocupação social que já encontráramos no livro anterior, cruza-se aqui de forma harmónica com os “ais” que caracterizam alguma poesia lírica, nomeadamente a nossa poesia original, trovadoresca, mas igualmente expressam as vidas «da gente sem pão».

Reparem na musicalidade da aliteração, em: «Do mar marulhando», a coerência da forma com o conteúdo no paradoxo: «No vale tão fundo/ Tu ficas mais alta/ Que todo o nundo».

Da praia, relata poeticamente a labuta e a fome; do castelo, a história e o orgulho. A uni-los, a coragem, a bravura. E como sabe articular o falar sobre o antigo com a crítica ao novo:

«As guerras de agora/ São inda peores, mais maquiavélicas/ Heróis não existem. Deitaram-nos fora/ Os inventos novos, novas armas bélicas.»

Encontramos neste livrinho, desde os ais das cantigas de amigo aos romances tradicionais recolhidos por Garrett.

E uma imensa sabedoria poética, entretanto adquirida pela compreensão de que, ao contrário do que afirmara no outro livro, não é necessário que o poeta seja literalmente sincero, pelo contrário. Aqui o canta:

«Se escondes a dor,/ Descobres poesia!». Aqui, o poeta é um fingidor. E não parece ver mal nisso.

Com esta inteligência poética entre um e outro livro reforçada, muitas são as mudanças. Se não fora a preocupação com a crítica social, quase não identificaríamos o mesmo poeta. Parece ter meditado nas palavras de L. D. Carfede e atravessando os caminhos da arte, aqui está a poesia com tudo a que tem direito, musicalidade, confidência, tradição, observação do real e transformação pela metáfora. O percurso da vida à Vida. A provar que é aquilo que nega ser: um poeta. Com rima e métrica e tudo. E crescendos dentro dos poemas de modo a criar finais fortes, nobres, por vezes épicos.

Um enorme crescimento é o que encontro neste segundo livro, através deste caminho iniciático que proporciona a arte para se conhecer a verdadeira Vida. Através do símbolo, do ritmo e da música, que o mesmo é dizer-se da metáfora, da métrica e da rima, uma forma mais familiar de falar da poesia que transforma e não se limita a contar as vidas pequenas de homens conformados na sua revolta, mas os eleva entre o barco e o castelo e os prepara para uma Vida Nova. Como diria Dante, não basta descer aos infernos, é preciso de lá sair e essa é a missão do poeta: ir e voltar. Não é para todos.

 

Sesimbra, 23 de Março de 2019.

 

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António Telmo. Vida e Obra antoniotelmovidaeobra@gmail.com