VERDES ANOS. 03

26-03-2014 13:02

O princípio de individuação na literatura[1]

 

Triste ideia, sem dúvida, faria da poesia aquele que nela apenas visse uma cinematografia do sentimento. É certo que, quando se fala de «pensamento», raras vezes se anuncia aquela actividade invisível que nos envolve, domina e exalta sempre que lemos um grande poeta. Quando de «pensamento» falamos, temos em mente uma ideia de arranjo e composição, de discernimento e análise de imagens e, nesse sentido, nos exprimimos ao declarar, por exemplo, Antero de Quental um poeta filósofo. Mas a poesia não é comparável à cinematografia. Resulta de uma actividade secreta invisível e subtilmente audível e, por isso, se projecta primeiro em ritmos, depois em imagens, por fim em figuras, que constantemente se dissolvem durante a leitura em alta voz.

Não é possível negar a existência do pensamento sem reduzir a literatura a figura contingente. E com efeito, os estudos literários em que transparece ou se afirma essa negação denunciam-se cúmplices da sociologia positivista. Alguns positivistas, como o linguista francês Belly, chegam até a propugnar a eliminação da poesia do mundo social e só devemos admirar-lhe a coerência se subentendemos nesse desejo o intento mais fundo de combater a filosofia.

A corrente positivista, que domina em superfície a nossa cultura, aparece ligada a outras anteriores, tais o iluminismo e o humanismo da Renascença. Na história da cultura portuguesa, tais correntes, entre si comutadas, não impedem, contudo, a originalidade da nossa literatura. Para Fernando Pessoa, consumado o ciclo das descobertas marítimas, retomou-se um movimento de descobrimento no invisível, de que a epopeia última será a expressão suprema.

À filologia incumbe imprimir-se uma orientação eficaz no domínio do pensamento. Quem queira estudar a filologia portuguesa desde os inícios até hoje, ganha, sem dúvida, mais em considerar os escritos de natureza artística do que em cingir-se aos trabalhos compostos por linguistas. Diz-se que a filologia como ciência é recente, o que só pode interpretar-se como afirmação de que passou pela classificação das ciências positivas. A palavra «ciência» já se não impõe como se impunha e, por isso, deixou de actuar eficientemente como instrumento de propaganda e domínio positivistas, a não ser, evidentemente, nas zonas sempre retardadas da vulgaridade. Todas as vezes que a filologia é apresentada como novidade científica, não só se veda qualquer possível verdade dos estudos anteriores, como se contraria a liberdade de pensar a filologia noutra direcção, porventura mais fecunda.

Se os efeitos que o escritor produz e se configuram em beleza manifestam a actividade das causas, não surpreendem ninguém os limites duma sistematização filológica que para se constituir teve de negar os difíceis caminhos da hermenêutica. A hermenêutica não se cinge somente aos textos literários, mas é também uma interpretação filológica das várias expressões da actividade plástica. No problema das relações da filosofia com as artes manuais, das causas com os efeitos, a filologia fornece a fórmula de solução. O artista plástico que compõe conforme vê, e não conforme ouve ou imagina, na fase de imitação acreditará na mediação geométrica e matemática da sua arte para a filosofia, em inconsciente oposição ao ensino de Aristóteles. A oposição à estética aristotélica explica também a predominância na escultura de representações do corpo humano e a supremacia dos estudos anatómicos sobre os biológicos na Escola de Belas Artes.   

As artes plásticas mais divulgadas, arquitectura, escultura e pintura, na medida em que se cindem da biologia, tornam-se representações do visível tendentes a isolar a luz em figuras poliédricas definitivas. Será talvez a Oração à Luz a poesia mais própria para ser meditada por plásticos. Para Guerra Junqueiro, a luz é uma energia ou uma força, não é mera representação passiva; energia ou força que percorre invisivelmente a natureza e se redime em oração e pensamento, no fenómeno transcendente da maternidade natural. Fixar a luz, como fazem plásticos, em formas geométricas perfeitas, acabadas ou passadas, cujo paradigma é a figura humana, equivale a produzir um fascínio que impede a assunção invisível do pensamento.               

A cultura humanística estatifica e estratifica os poetas e, ao estudar os recíprocos reflexos, a que chama influências, utiliza um jogo de espelhos, com mestria de ilusionista para quem a luz é sem segredo. Já vários escritores pensam que Camões foi ultrapassado por Pascoais, por Junqueiro ou por Pessoa. Não há, todavia, dúvidas que os quatro são superiores. Superiores, quer dizer, poetas que em versos exprimem o sobrenatural. E o que vimos dizendo no decorrer destas linhas, que a literatura, enquanto sistema de artes verbais, sempre se refere àquela realidade, de que a palavra é o meio revelador, da figura para a imagem e da imagem para o ritmo.

A desconfiança para com o poder revelador da literatura, revelador em sentido substantivo, anda ligada à decadência do princípio de individuação, como sua consequência. Quando tal princípio é desatendido pelo modernismo transparece sobretudo no romance, em seu aspecto relativo ao tratamento dos caracteres. Estes, no escritor de tradição humanista, são tomados como tipos gerais, e é em função de características de natureza social que são descritas a fisionomia, a linguagem, os gestos, o vestuário, todos os actos do personagem. Sociedade opõe-se a colectividade. Inábeis sempre que se trata de coleccionar e distinguir, de reconhecer o princípio de individuação, omitem os romancistas nos personagens os actos que melhor revelam as potências singulares. No primeiro momento, o princípio de individuação aparece como uma negação, classificável pela escala dos sentimentos negativos, que culmina no orgulho e, enquanto tal, ainda constitui objecto do romance modernista. No segundo momento é já a promessa duma infinita dádiva. Evite-se, porém, considerar este momento como negação do primeiro. Não é a sua negação, mas a sua antítese, isto é, posto em vez da tese que aquele representa, pois o inicial obscurecimento produzido pela negatividade do sentimento contém em si o princípio da luz e da liberdade. No terceiro momento transforma-se em movimentada e libertada energia, pelo socorro da colectividade, que elegeu alguém único no seu princípio e, nessa promoção, lhe deu os meios de nobilitação.

Não se percebem claramente os motivos, as razões ou os fins que levam muitos a menosprezar o grande romancista que é Somerset Maugham. Quem leu as «Férias do Natal» a pouco tempo do «Nome de Guerra» de Almada Negreiros não pôde deixar de notar o paralelismo dos entrechos nos quais uma mulher conduz o protagonista de metamorfose em metamorfose pelos ciclos da vida. Recordamos aqui o «Nome de Guerra» porque é talvez o único livro entre nós nos últimos trinta anos que merece o nome de romance.

 

António Telmo

    


[1] Diário Popular, suplemento Letras-Artes, ano XIV, n.º 5006, Lisboa, 12 de Setembro de 1956, pp. 7 e 15.

 

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