VERDES ANOS. 11

21-03-2015 13:34

O leitor está perante um escrito histórico. Tanto quanto se sabe, trata-se do primeiro artigo de imprensa de António Telmo, e revela já uma evidente e firme feição filosofal. Publicado em 15 de Novembro de 1952 no jornal A Semana, reflecte, de certo modo, a preocupação com os problemas da tradução, mormente com o efeito desvirtuador que a mediação corrente das versões francesas inflige ao livre desenvolvimento da cultura filosófica portuguesa, tópico que Álvaro Ribeiro, pouco tempo depois, tratará admiravelmente nos capítulos inaugurais de Apologia e Filosofia (1953) – "Do aristotelismo ao positivismo" – e de A Arte de Filosofar (1955) – "A língua portuguesa". Mas a influência mais notória neste alvorar da ideação télmica deve talvez ser procurada no artigo de Eudoro de Sousa “Sejamos contemporâneos de Aristóteles”, publicado no Diário Popular de 7 de Março de 1949, (cfr. Eudoro de Sousa, Origem da Poesia e da Mitologia, Lisboa, INCM, 2000, pp. 101-103). Compreende-se tudo isto se nos lembrarmos do convívio de Telmo com os dois mestres nas tertúlias lisboetas, no início da década de 50. Como quer que seja, as reflexões dadas à estampa são também as de um jovem estudante do curso de Filologia Clássica da Faculdade de Letras de Lisboa que, por esses dias, ainda cumpre o serviço militar em Évora. Prestes a ser promovido a alferes miliciano, o que sucederá por portaria de 19 de Dezembro, o sr. Aspirante Vitorino não conclui, neste mesmo ano de 1952, qualquer cadeira na escola pública (ficara porém aprovado em três disciplinas curriculares em Junho e Julho do ano anterior), exemplo paradigmático de um percurso académico cuja irregularidade se explica por factores vários.

Lusismo e obscurantismo dos estudos clássicos[1]

 

Diz-se e pensa-se, em Portugal, repercutindo, como de costume, estrangeiras vozes, que toda a moderna cultura europeia radica na «antiguidade clássica». O motivo dos estudos clássicos resulta da atribuição desta origem e, visto como Portugal seja uma parte do grande todo evolutivo cujo centro irradiante e absorvente é a França, entre nós, portugueses, esses estudos exercem-se de uma perspectiva eminentemente europeia. Mas os portugueses mostram, como sempre mostraram, relutância perante os estudos clássicos. Desta antipatia há eruditos lamentos de personalidades ilustres. Dar-se-á acaso o caso que Portugal, como povo europeu que seja, renegue a origem, e também a finalidade, que europeus ou naturais seus europeizados lhe atribuem?

O nosso modo de reagir aos movimentos sociais trans-pirenaicos, de os adoptar, adaptar e interpretar, a feição especial pela que tomamos as doutrinas empiristas ou racionalistas exógenas, sinalam um terrível compromisso entre a vocação de um destino e a imposição de outro, compromisso no povo subjacente e obscuro, mas que se consciencializa em certos espíritos e neles se efectiva pela utilização da letra das doutrinas e do corpo das acções para fins, que nessa letra e nesse corpo, não estão contidos, nem original, nem finalmente, assim se desenvolve o espírito de argúcia, muitas vezes mal compreendido.

Não são, pois, nem o povo nem os homens representativos, aqueles de quem se deve dizer que estão atrasados em relação à Europa, mas dos ilusória e ingloriamente tentados a divulgar entre nós a cultura estrangeira. Também estes têm, ao fim e ao cabo, direito de cidadania portuguesa, pois a sua incapacidade de suplantar a Europa, ou, simplesmente, de acompanhá-la, pode-se, benignamente, explicar na mesma linha de fidelidade ao destino do povo a que pertencem. Se, porém, replicam com a irredutibilidade da alma nacional, com a sua tenaz resistência, que defronta o seu esforço, obrigado assim a ser lento nos resultados, denunciam-se, nesse caso, por um crime contra a tradição, vocábulo de complexas relações etimológicas. Decerto que por tradição não se entendem aqui as formas pretéritas, passadas ou perfeitas, mas o movimento imorredoiro de aspiração de liberdade, corporizado na nossa história, segundo ciclos mais ou menos transparentes, mas sempre representativos. Este movimento sinala direcção atlântica. Concretizou-se pelas descobertas; desceu depois às zonas profundas da alma popular; surgiu finalmente revigorado e renovado, num estádio superior, mas ainda, como sempre, de finalidade atlântica.

Compreendemos agora a lusitânia incúria dos estudos clássicos. O espírito de uma Grécia mediterrânea já não nos podia atrair; muito menos quando filtrado pela Europa central. Não que não haja, como há, uma visão nossa da Helenidade. Quem estude as vicissitudes por que passou entre nós o aristotelismo e, concomitantemente, as atitudes pelas quais[2] reagimos às diversas formas racionalistas que assumiu, verificará como o empirismo biológico do Estagirita é o lado pelo qual a visão portuguesa aponta para uma teoria que termina e recomeça aos pés de Deus. Dest’arte, não convém ao nosso pensamento específico, antes se oferece antagónica, a delineação de quadros que fixam a realidade movente, a inexaurível florescência das formas. O sentido da nossa visão romântica consiste de interpretar as metamorfoses dos seres, não pela dialéctica do espaço e do tempo, que subordina a imobilidade daquele à mobilidade deste, mas por aquela relação em que o espaço, constante e gradualmente, reverte em tempo libertador.

Também, talvez que no amor português ao pensamento aristotélico não haja mais que o anelo obscuro de fechar um círculo que outrora se rompeu quando a Discórdia, pela maçã fatal, cindiu o ocidente do oriente. Este anelo constituirá também o motivo fundo porque os portugueses que, com real vocação, se habilitam em estudos clássicos, não só não seguem a lição da França, como manifestam especial predilecção em investigar os cultos helénicos relativamente a um remoto segredo transmitido.

A arte interpretada sem implicação cultual, a filosofia estudada no sentido de uma ciência demasiado humana, a religião compreendida pelo aspecto meramente ético-político-social, tais as linhas gerais do classicismo francês, caracteristicamente europeu. Isto não podia, como não pode, interessar a portugueses. Consciente ou inconscientemente, não queremos filologar com o sr. Meillet ou com o sr. Marouzeau. Desta tríplice interpretação congénere ressalta evidente o carácter impiedoso do classicismo. A impiedade assinala-se, em arte, pelo corte das relações das musas com o «mistério»; em filosofia, pelo racionalismo, metafísico e matemático; em religião, pela autonomização da moral.

Ao sentido do espírito que nos tem conduzido, durante esta curta digressão, mostra-se flagrante a necessidade de ir colher directamente nas fontes originárias o que nos chega pela via da tradução, quase sempre, entre nós, oriunda da pátria de Racine. É demasiado sabido que, em política, o intérprete infiel pode perturbar a intenção de um povo. Aqui, nas zonas da cultura, política do espírito, o intermediário é, mesmo sem intenção de infidelidade, necessariamente infiel. O acto de traduzir exerce-se como que por um processo de alotropia química em que o elemento originário perde todas as originárias qualidades.

Urge, portanto, que o português dialogue com a Grécia, sem intermediários: – defrontando o idioma original, portuguesmente traduzindo. Contribuir-se-á, assim, para que se desfaça o compromisso entre o que somos e o que nos fazem ser; para que se desfaça não no sentido de que fique só o vestuário importado, mas no sentido de que o que somos substancial e irredutivelmente somos [sic][3], livremente se desenvolva. Então, certamente, a ninguém já se esconderá o que a princípio afirmámos: – no modo original e próprio de interpretar uma cultura de que não provimos, afirmar-se-á mais uma vez o sentido atlântico do nosso génio descobridor. Este génio, a quem o futuro misterioso se revela como reintegração no tempo primordial e mítico, não pode, é certo, desconhecer o mais oriental e o mais antigo dos povos europeus. Mas certo é, também, que a europeia visão da Grécia contradiz a vocação natural e o desígnio transcendente.     

 

António Telmo



[1] A Semana, Lisboa, 15 de Novembro de 1952.

[2] Nota do editor – No texto impresso: “pelas que”, o que nos parece ser manifesta gralha tipográfica.

[3] Nota do editor – Presumimos ser erro a repetição da forma verbal “somos” na presente estrutura sintáctica.

 

 

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