VOZ PASSIVA. 02

09-12-2013 16:20

António Telmo, Filosofia e Kabbalah, Lisboa, Guimarães Editores /1989*

António Cândido Franco

 

O título deste livro de António Telmo, Filosofia e Kabbalah, poderia na prática ser lido de outro modo: Filosofia e Poesia. Trata-se, com efeito, de uma obra que se organiza sempre em torno das relações entre Filosofia e palavra poética. Nela coexistem assim os estudos e as interpretações dedicados a poetas como Pascoaes, Pessoa e Camões com os trabalhos dedicados a filósofos também portugueses: Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra e José Marinho. Esta interacção entre Poesia e Filosofia adquire em António Telmo uma consciência invulgar, que não se limita a encontrar linhas de correspondência entre filósofos e poetas portugueses, num diagrama subtil e muito ajustado (p. 84), mas vai ao ponto de postular a filosofia como arte poética porque tem a metáfora por instrumento. É ao defender que a metáfora é o verdadeiro organon do pensamento que Telmo firma uma verdadeira arte poética. Para o Autor, a metáfora não é apenas uma “rotação de atributos à volta da mesma substância”, mas uma translação do próprio pensamento. Em António Telmo as palavras procuram-se sempre noutras palavras mais subtis – recordemos, neste sentido, que o seu livro de estreia, no já recuado ano de 1963, se chamava justamente Arte Poética e apontava para o entendimento do pensamento a partir da poesia ou, o que vem a dar ao mesmo, da Kabbalah. A possibilidade de substituir esta pela palavra poesia não nos deve surpreender: basta sabermos que a Kabbalah é uma forma específica de encarar a linguagem verbal humana, onde o signo linguístico não é arbitrário e convencional, mas sim natural e não-contratual.

 

Os estudos dedicados no presente volume à poesia de Teixeira de Pascoaes, de Fernando Pessoa e de Camões partem desta perspectiva de translação do sentido e do pensamento, e conseguem excelentes resultados. A leitura do célebre e conhecido soneto “Gomes Leal” de Fernando Pessoa é, sob este aspecto, esclarecedora. António Telmo lê o título do poema como um disfarce ou termo de substituição. Pondo lado a lado o soneto e o horóscopo de Fernando Pessoa, acaba por chegar à conclusão de que o título do poema encobre afinal um auto-retrato do próprio autor. Esta original leitura é um feliz exemplo de como a translação do sentido e do pensamento pode obter excelentes resultados. Também a translação do som – técnica muito antiga, que já Sócrates aconselhava a Hermógenes no Crátilo de Platão – pode alcançar sucessos semelhantes. Assim, quando lê Adamastor como Adão Astral (o Adam Astor) António Telmo estabelece, por translação de som, uma curiosa e original interpretação desse nome e, por consequência, do passo onde ele se encontra. Já Fernando Pessoa, segundo informação do autor de Arte Poética, era exímio praticante do mesmo tipo de exercícios interpretativos, podendo por exemplo o título Mensagem ser lido e interpretado a partir da expressão latina Mens Agitat Molem (cf. p. 168). 

 

Num livro sobre Sampaio Bruno, Joel Serrão refere a seu propósito a existência de dois tipos de fontes, as quais nos parecem poder ser extensivas à totalidade da cultura dum país ou duma língua. As fontes exotéricas são as mais conhecidas e aquelas que, pela facilidade de acesso, dominam o gosto e a moda da época. Pelo contrário, e apesar de resumirem muitas vezes o essencial não só do que passa mas do que permanece, as fontes esotéricas são de aceso difícil, pois requerem um saber operativo: só um escol culto e interessado parece ter conhecimento delas. Nos últimos trinta ou quarenta anos os estudos mais conhecidos sobre a poesia portuguesa clássica ou contemporânea têm sido quase inteiramente dominados pelo uso exaustivo daquilo a que Joel Serrão chama fontes exotéricas – António Telmo é precisamente um dos hermeneutas que prestam atenção às outras fontes da nossa poesia.

 

O uso das fontes esotéricas tem a vantagem de aproximar o intérprete do texto e dos seus vários níveis de sentido. Além disso e apesar de usadas por um escol muito minoritário em relação ao conjunto da população, essas fontes parecem ser responsáveis por quase todos os momentos verdadeiramente marcantes da nossa poesia. A de Herberto Helder é ainda hoje um excelente exemplo da sua vitalidade actuante. Lembremos as suas palavras: “Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro”, palavras que se podiam perfeitamente aproximar de algumas outras de António Telmo. O gosto de trasladar o sentido, tão característico da poesia de Herberto Helder, pode ser vantajosamente aproximado do gosto de trasladar o pensamento que caracteriza a filosofia ou a hermenêutica de António Telmo. Nenhum poeta estará assim tão próximo de António Telmo pois nenhuma poesia formula com tanta evidência aquilo que a filosofia de Telmo postula: a metáfora como instrumento de pensamento. Há neste paralelismo, o mais actual no nosso país entre Filosofia e Poesia, a certeza de que estamos ante um autor que, apesar da obscuridade a que se tem remetido, ou por causa disso mesmo, é dos mais importantes intérpretes da poesia portuguesa e um daqueles que, com mais proveito e originalidade, se movem hoje no campo da hermenêutica literária.

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* Publicado em Colóquio/Letras, n.º 120, Abr. 1991, p. 227-228.

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