VOZ PASSIVA. 118

06-03-2021 10:43

A “Arte Poética”, de António Telmo

Será a televisão a grande prostituta do Apocalipse?[1]

Victor Mendanha

 

«A ideia de que a Televisão corresponde à prostituta que está sentada sobre as águas anunciada no Apocalipse para o fim dos tempos também me tem ocupado ultimamente. É uma prostituta porque recebe todas as correntes, é uma mistura de sémens. Assistimos a uma missa e, no intervalo, a um anúncio de camisas de Vénus. As águas são a humanidade onde se movem as correntes».

Assim fala um dos personagens do profundo diálogo que, felizmente, ocupa um capítulo inteiro da segunda edição do livro de António Telmo, “Arte Poética”, cuja primeira foi editada pelo autor em 1963.

Desta vez coube a responsabilidade da publicação da obra à prestigiada e prestigiosa Guimarães Editores, que a inseriu na sua colecção Filosofia e Ensaios e se falamos em responsabilidade é porque tudo quanto António Telmo escreve, recorde-se o caso da “História Secreta de Portugal”, “Gramática Secreta da Língua Portuguesa” ou, mesmo “Filosofia e Kabbalah”, merece a maior atenção por parte daqueles que estão despertos ou em vias disso.

Falar de António Telmo, além de não ser necessário, é perturbá-lo no seu refúgio de Estremoz, preferindo usar o espaço disponível para aguçar o apetite do leitor com a transcrição de uma amostra do suculento diálogo entre X e Y, a fazer parte deste livro considerado pela editora como “o único exemplar, em Portugal, de uma centena de páginas inteiramente dedicadas à iluminação da literatura pela filosofia, por aquele pensamento que o Autor diz operativo e que consiste, aqui, em ligar a literatura a uma finalidade iniciática”. Avancemos:

«X: Não é Rudolf Steiner que atribui a Lúcifer a criação de uma esfera espiritual própria, rica e prodigiosa, mas separada da criação divina? Esta ideia deixa de nos parecer fantasmagórica quando pensamos na televisão. Televisão é quase um sinónimo de Lúcifer, se decompusermos cada uma das duas palavras nos seus dois elementos e os fizermos corresponder um a um. Só o automóvel disputa à televisão a supremacia no mundo do homem. As aldeias, as vilas e as cidades perderam a naturalidade antiga, como direi?, aquela relação serena da terra com o céu que se exprimia pela arte das chaminés, dos campanários e dos galos indicando a direcção das brisas e dos ventos. Hoje, por toda a parte, onde há casas, oferece-se-nos o espectáculo irritante de todos os telhados com antenas de televisão, lembrando esquisitos insectos».

«Y: A relação que encontrou entre a palavra Lúcifer e a palavra televisão é impressionante».

«X: A ideia de que a Televisão corresponde à prostituta que está sentada sobre as águas anunciada no Apocalipse para o fim dos tempos também me tem ocupado ultimamente. É uma prostituta porque recebe todas as correntes, é uma mistura de sémens. Assistimos a uma missa e, no intervalo, a um anúncio de camisas de Vénus. As águas são a humanidade onde se movem as correntes».

«Y: E está sentada nas nossas casas e toda a família à volta, como se ela desempenhasse a função das antigas lareiras. As antenas usurparam, de facto, o lugar das chaminés».

Fico-lhe grato, meu bom amigo.

 



[1] Publicado originalmente em Correio da Manhã, Dezembro de 1993.