VOZ PASSIVA. 67

01-03-2016 10:43

António Telmo[1]

Helena Maria Briosa e Mota

 

Perdi o último dos meus Mestres ainda vivo. A notícia impessoal, em letra de forma, dói. Dói e gela por dentro, não obstante a ardência deste mês de Agosto. Por mais que Pascoaes tenha avisado: «Alerta, alerta, que a morte é certa e a hora incerta!», por mais certo que seja o inevitável, nada é bastante para atenuar a brutalidade da perda. Tenho de falar com a Maria Antónia e a Anahi. Mas não pode ser hoje pois o discurso, para além de errático, sairia certamente molhado e, mais que nunca, agora elas devem ser preservadas.

Lembro-me do dia em que o vi pela primeira vez. Acompanhando a sua jovem filha, mais que visitar o Amigo, nesse dia ele ia visitar o compadre. O convite foi para que eu ficasse, mas os afectos sobrepunham-se à curiosidade e ao empolgamento da estranha que, por mais desejosa que estivesse de fruir da presença e da conversa daquele grupo de eleição, nada mais podia fazer que deixá-los no gozo total do encontro fraterno. A mocinha, mais que todos, mostrava-se desejosa de estar com o Padrinho.

Cheguei a casa e fui reler a História Secreta. Desta feita, já com diferente cuidado. E ordenei, mentalmente, as questões que colocaria ao Autor se alguma vez voltasse à fala com ele.

Tal só aconteceu mais de uma década volvida. Já Agostinho da Silva nos havia deixado quando fui bater à porta de António Telmo, na senda de informação sobre memórias de experiências que ambos teriam partilhado, na busca de documentação que ajudasse a reconstituir a vida daquele que era objecto do meu interesse e estudo. E foi no decurso de múltiplos encontros ao longo de cerca de quinze anos que descobri que, se até então elegera um Mestre, outro se perfilava perante mim: no meu informante identifiquei marcas e características que assim o enquadravam e a que eu dava especial relevo. Acima de tudo, a coerência entre o que fala e escreve e aquilo que, na realidade, fui verificando ser a essência do seu ser.

Mais que a douta palavra e o conhecimento sobre áreas que o comum dos mortais desconhece, a beleza da palavra certa, o raciocínio rápido ou a genialidade da argumentação, António Telmo é um homem que ama o convívio e os seus con-viventes. Adora conversar e fá-lo com a mesma naturalidade com quem encontra no café, na rua ou nos campos.

António Telmo está, em regra, disponível para o outro. Quem quer que seja, todos lhe interessam. Cristãmente, de forma amorosa e desprendida, sem nunca demonstrar pinta de enfado ou pressa, sem dar-se ares de superioridade intelectual. Ele olha e descobre no interlocutor qualquer resquício, remoto que seja, de excelência escondida. Igual a Leonardo, sabe olhar e descobrir, sob a pedra bruta, a beleza que lá se esconde.

António Telmo conversa com as pessoas, mas também o faz quando em comunhão com os animais e com a Natureza. Conversa com os seus cães se vai à caça, com os pássaros, com o sol e com a lua. Adora andar pelos campos, assistir ao nascer da alva, sentir o calor do sol bafejar-lhe o corpo e as entranhas, aspirar os odores húmidos ou cálidos e os aromas que se desprendem da terra, das árvores e das flores. Delira ao descobrir o que na Natureza existe de oculto.

Imagino que é lá que recupera forças e volta a ser menino de calções e fisga no bolso. Porque se há algo que o caracteriza, que sempre nele verei, é o António Telmo-menino, traquinas e gozão, que se diverte a ser, a qualquer momento, criança. Basta olhar para a sua face, de sorriso maroto e riso aberto. Mesmo perante os cenários mais improváveis, António Telmo sorri. E, igual a Agostinho, vê «o outro lado da coisa». Desdramatiza e ameniza. Olha o revés, o lado de trás do lado, e intui ou distingue não só o que de positivo poderá existir no adverso como a excelência que seguramente poderá encontrar no invisível. Sim, porque em Telmo temos sempre de ver a três dimensões.

Se há algo que nunca esquecerei é o seu olhar: o olhar de menino espantado perante as maravilhas do mundo que, em êxtase, compartilha com quem lhe faz companhia; mas também nele se descortina o da criança trocista, que planeia uma qualquer travessura e se desmancha em riso quando nos apanha de surpresa. O olhar mais belo, aquele que mais me enternecia, era o que se incendiava sempre que os seus amores assomavam. Nele e nelas se via espelhada a mansidão do amor, sua razão de ser, pois dele irradiava aquela chama única, criadora da atmosfera luminosa que retrata a unidade familiar.

A si, meu Mestre agora ausente, devo a prática recomendada pela máxima «conhece-te a ti mesmo». Foi por sua instigação, lembra-se?, que aprendi e iniciei os exercícios espirituais segu(i)ndo a filosofia antiga. Comecei a olhar para dentro de mim, a descobrir e a desenredar-me das «teias de aranha» que me apontou. A si devo a arte de fruir o momento presente, de dar valor à beleza do instante e de estar atenta aos pequenos milagres dos pormenores, que assim se tornam pormaiores. Seja o sabor de uma palavra revestida de novo significado, o zumbido de uma abelha que quebra o silêncio, o equilíbrio artístico de um pardalito no frágil ramo, ou as tentativas de caminhada pelo universo do quarto do menino titubeante que nele se aventura.

Foi consigo e pela sua mão que recebi a graça de começar a olhar e a ver para além do óbvio e das rotinas, a ousar calcorrear caminhos nunca percorridos, na ânsia de melhorar como pessoa. Porque era essa a finalidade de quantos integravam o grupo com afinidades electivas

Sinto a sua falta, Professor: de um momento para o outro, vi-me órfã. A sua chama viva esfumou-se, só pode sentir-se nos corações de quantos tocou e em quem deixou marca. O sopro da sua voz não mais formula palavras. Mas é no seu legado que continuaremos a descobrir a luz que nos ilumina e será sobre a pedra em que lançou alicerces que prosseguiremos a construção do Futuro. Por nós e por Portugal, que acaba de perder um dos seus lídimos cavaleiros.

 

Diário, Agosto de 2010



[1] Título da responsabilidade do editor.

 

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