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22-09-2020 12:29

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

Dez sonetos para o Filósofo da Razão Poética

Risoleta C. Pinto Pedro


 

(9) O Horóscopo de Portugal

 

O homem pensa e não conhece,

Interdito lhe é o bom pensar.

Pensa que pensa, e não como parece,

Por arrogante das estrelas se apartar.

 

Tal não é o filósofo do infinito

Que vê Portugal um só de três.

Um quarto ascenderá com nosso grito

Quando a alma colectiva sair desta mudez.

 

Após leitura atenta e demorada

Dos sinais astrais espalhados pelos céus,

Mesmo não sendo a incógnita afastada,

 

A anos-luz está dos selectos europeus:

Sabe o Sol e Portugal, os dois sinónimos

De um mistério escondido nos Jerónimos.

 

07-09-2020 09:49

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

Dez sonetos para o Filósofo da Razão Poética

Risoleta C. Pinto Pedro

 


 

(8) Capelas Imperfeitas

 

Imperfeitas as capelas exemplares

Onde afrescos despertam dialogais

E Narciso persiste com seus pares

Ensinando agudo olhar além taipais.

 

É com lupa bondosa e implacável

Que medíocre cegueira mostra ao mundo,

Como escola informal em tom notável,

Buscando o Génio com rigor fecundo.

 

Propondo-se escrever em branco incêndio

A vivência interior de seus iguais

É com Régio, esse converso arrais

 

Que Ribeiro salva de torpe vilipêndio

e cruza memórias, ao olhar banais,

com teoremas pintados em murais.

 

31-08-2020 21:10

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

 

António Telmo, um homem singular

(Testemunho em verso ao jeito popular)

Maria Antónia Braia Vitorino

De caminhar

Calmo e lento,

Desatento

Ao cumprimento

Não ouvido,

Distraído

A olhar a beleza

Da árvore, da flor:

A Natureza!

Sem ambição

Do que é vão

Amava a Filosofia

Que fez dele escritor.

Simples, sem vaidade,

Gostava desta cidade

Onde foi professor.

Convivente,

Apreciava a companhia

P’ra conversar com humor.

Seus hobbies: caçar e bilhar.

Era alguém diferente

Do habitual.

Espírito livre, aberto,

Discreto mas “inquieto”

A dialogar

C’o pensamento.

Um ser ILUMINADO

Que olhava Além

Um mundo IMAGINAL

Pr’alcançar o ESSENCIAL.

Inteligência invulgar

De um saber vasto e pensado.

Uma eloquência

Excepcional!!

De suprema intuição,

Num ápice, a solução!

Sem pedir, nem procurar,

Convidado p’ra professor

Dentro e fora do país

A fundar uma Escola

Que dirigiu como quis.

Granjeou uma reputação

Que o levou a inspector

Da Educação

Durante a Revolução.

Uma Escola simpática

E a mais democrática

Que Agostinho encontrou

Dentre as que visitou.

Em merecimento

Sesimbra seu nome deu

A uma rua.

Também Estremoz

Onde viveu e morreu

Numa rua sua

Seu nome pôs.

31-08-2020 20:10

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

Dez sonetos para o Filósofo da Razão Poética

Risoleta C. Pinto Pedro

 

(7) Páginas Autobiográficas

 

Não sei se fui o que recordo ali:

Menino em fuga com leão ao colo,

Dado por Deus na África onde ardi,

Antes de ver avô rumar ao solo

 

Em Almeida, onde nascera antes.

A Senhora da Manta que não vi,

Ocupou por nítidos instantes

O menino assustado que sorri

 

E hoje envia ao fantasma de então

Memória, luz, compaixão, perdão,

Desenhando ainda na parede branca

 

De minha tia em Alter-do-Chão,

Com ervinha verde e trémula mão,

O quadrado que o mal dizima e espanta.

24-08-2020 22:25

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

 

Duplo decálogo

Miguel Real

 

O DECÁLOGO TELMIANO

 

  1. – Portugal como nação-abrigo da tradição primitiva de uma sabedoria vinculadora da ligação entre a cultura oriental e cultura ocidental (Dalila Pereira da Costa);

 

  1. – Portugal como nação-abrigo da tradição oculta vinculada à mensagem espiritual presente no Evangelho de São João, posteriormente subvertida pela Igreja de São Pedro (Pedro Martins);

 

  1. – Portugal como nação-abrigo da tradição prisciliana da Igreja Lusitana (T. de Pascoaes, Sampaio Bruno);

 

  1. – Portugal como nação-abrigo da tradição da Ordem do Templo (os templários), transformada por D. Dinis em Ordem de Cristo – fautora da empresa dos Descobrimentos;

 

  1. – Portugal como nação-abrigo da religião do Livro (judaísmo, cristianismo e muçulmanismo) anterior aos finais do século XV (expulsão de judeus e mouros);

 

  1. – Portugal como nação-abrigo da mensagem paracletiana do abade Joaquim de Fiori ou da III Idade do Mundo (o Império do Espírito Santo de Agostinho da Silva);

 

  1. – Portugal como nação-abrigo da teoria do V Império (Bandarra, pe. António Vieira e Fernando Pessoa);

 

  1. – Portugal como nação-abrigo dos “Fiéis do Amor” (Camões, Grão Vasco, Sampaio Bruno);

 

  1. – Portugal como nação-eleita da História do Futuro, de pe. António Vieira;

 

  1. – Portugal como nação-eleita de Os Lusíadas, de Camões, e de Mensagem, de Fernando Pessoa.

 

 

 

SEGUNDO DECÁLOGO

 

ANTÓNIO TELMO – O CONTINUADOR DE PESSOA

 

O vento perguntou a Fernando Pessoa?

  1. – Quem, Pessoa, seguiu o teu caminho da serpente?
  2. – Quem, Pessoa, seguiu os teus estudos sobre a Kabbalaah?
  3. – Quem, Pessoa, seguiu os teus estudos sobre a Rosa-Cruz e o Rosicrucianismo?
  4. – Quem, Pessoa, voltou a desenvolver os teus estudos sobre a Filosofia Hermética?
  5. – Quem, Pessoa, foi de novo Iniciado, neófito, dos rituais antigos?
  6. – Quem, Pessoa, se tornou cristão gnóstico?
  7. – Quem, Pessoa, desenvolveu de novo o sexto e secreto sentido?
  8. – Quem, Pessoa, se devotou intensamente ao ocultismo, tornando-o a sua filosofia principal?
  9. – Quem, Pessoa, celebrou de novo o Templo e o templarismo?
  10. – Quem, Pessoa, cantou de novo o Quinto Império camoniano e vieirino?

 

E Fernando Pessoa respondeu ao vento:

 

- Só conheço um pensador português que o tivesse feito: A. T., as suas iniciais. Por vezes, lendo-o nas alturas, confundo os seus escritos com os de uma senhora do Porto: D.P.C., as suas iniciais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

24-08-2020 21:25

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

 

Dez sonetos para o Filósofo da Razão Poética

Risoleta C. Pinto Pedro

 

 

(6) Luís de Camões e o Segredo dos Lusíadas

 

É outra a ilha, outro é o mito.

Hermeneuta, nauta e cavaleiro

Ouve de longe de Camões o grito

Do poeta vagalume, do guerreiro:

 

“Que leia mais do que vê escrito”!

É difícil escrever com Roma à frente!

A verdade do Amor só sai em grito,

Soletrada ao contrário pelo crente.

 

Esconder o que escondeu, não é de ateu,

Mas de quem nessa ilha viu o céu.

Se a imagem da mulher desperta Deus,

 

Que dizer destas deusas, Prometeu?

É de amor a cantiga, esconde o véu,

Revelando ocultamente o gineceu.

 

 

21-08-2020 00:21

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

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António Telmo, Mara Rosa (retrato a carvão)

 

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Na morte de António Telmo

António Cândido Franco

 

À esquina o nome do lugar.

 

Na porta a declaração de óbito

e uma fotografia a preto e branco.

 

Um homem de óculos

de ar impenetrável e amplo.

 

Na capela uma caixa de pinho

embrulhada em veludo preto e

coberta com um pano cor de vinho.

 

Por cima pétalas e rosas.

Aos pés duas batas de flores.

 

Diante o altar com crucifixo em lata.

No nicho em pau as santas do lugar.

 

Ao cimo um Cristo triste no Calvário

com cruz e espinhos.

 

Nos bancos corridos

sombras negras que compõem o cenário.

 

 Um grupo de amigos caminha e avança.

No centro a caixa preta de pinho.

 

O Filósofo é agora o tapete

 à volta do qual se vive o transe.

 

No silêncio hierático e puro

da sua boca selada pelo não ser

brilha o azul incriado do verbo escuro.

 

Morte, mistério da iniciação.

 

E numa rosa quente, a arder

que alguém lhe pôs à altura d’ coração

explode a luz em fogo do Oriente.

 

 

22 de Agosto de 2010

21-08-2020 00:07

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

 

A ciência é o que menos importa quando descobre aquilo que a nega[1]

 

Mais uma vez me acontece ficar a olhar maravilhado para a iluminura do manuscrito persa com a paisagem da Ilha do Amor imaginada por Luís de Camões.

O meu livro Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões foi um insucesso. Nem o facto de ter sido escrito pelo autor da História Secreta de Portugal contribuiu o que quer que fosse para atrair a simpatia do leitor. O maniqueísmo é uma doutrina condenada. O Príncipe dos poetas maniqueu!

A partir daqui as pessoas não vêem mais nada. Nem sequer se interrogam se o seu conceito de maniqueísmo que divide o universo entre dois princípios antagónicos corresponde ao que facto ele foi no mundo persa.

Pus a palavra no título associando-a a Camões, julgando que assim atraía o leitor escandalizado para a leitura de um livro onde descobriria a beleza sem par da espiritualidade daquela Pérsia que o poeta tinha por gloriosa.

Estava convencido de que, quando esse leitor verificasse a espantosa coincidência entre a paisagem do manuscrito e a paisagem da Ilha do Amor poria em questão tudo quanto até agora se escreveu sobre as “fontes” camoneanas. Não vivemos num país culturalmente sério. Não é verdade que os positivistas façam a história sobre os documentos. Eles arranjam os documentos que possam mostrar o que pensavam previamente da história. Em terra de científicos, a ciência é o que menos importa quando descobre aquilo que a nega.

 

António Telmo    



[1] Nota do editor – O título é da nossa responsabilidade.

 

21-08-2020 00:05

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

 

A Voz

Maria Antónia Braia Vitorino

 

Bem timbrada

Bem colocada

Atraía

Seduzia

Encantava

Quem ouvia!

Telmo usava

Improvisação

Ao expor.

Chamava

Mais atenção

Ao espectador.

Articulava

Pausadamente

Com boa dicção.

Olhava de frente

P’ra quem assistia

Àquela sessão.

Tudo se percebia.

Rosto erguido

Sem baixar

Nem virar

A cabeça.

Tudo era ouvido.

A intenção era essa.

20-08-2020 23:46

ANTÓNIO TELMO, DEZ ANOS DEPOIS

 

Dez sonetos para o Filósofo da Razão Poética

Risoleta C. Pinto Pedro


 

(5) A Verdade do Amor

 

É na verdade que o Amor persiste

Adoração que nasceu em mim.

O Espírito nega, antes do fim,

A emoção que no pensar consiste.

 

Por via de Platão e Leonardo,

Memória, imagens que Bergson acorda,

Do N de Natália, aonde o bardo

Conduz Narciso, cujo beijo aborda.

 

Sendo a paisagem, para quem medita,

A montanha ladeada de ciprestes,

Nada faz pensar que a turbulência habita

 

Metistófeles, sob desvairadas vestes.

A força do nome que lhe pôs o Mestre

Soterra-o na treva do desdém terrestre.

 

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António Telmo. Vida e Obra antoniotelmovidaeobra@gmail.com