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17-01-2020 09:46

E nota final

Agostinho da Silva

Ao que diz, e sei que o não move qualquer lisonja pessoal, considera o Professor Henryk Siewierski, da Universidade de Cracóvia, que o excelente convívio que mantivemos durante os quatro anos em que ensinou língua polaca e sua cultura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa foram para ele uma segunda Universidade. Também sem cumprimento e por tudo o que esse contacto para mim foi, penso, por meu turno, que houve igualmente para mim uma Universidade, já nem sei de que número, pois muito tenho aprendido em várias, desde a inicial, a Faculdade de Letras do Porto, lá por entre 24 e 28 ou 29, até aos meus Amigos de hoje, passando pela Parasitologia Médica do Instituto Oswaldo Cruz, pelos Sábados do Moinho de Vento em casa de António Sérgio, pelos sertanejos do Nordeste brasileiro e pela gente do Senegal ou pela do Japão ou pela de Timor. Quanto excelente professor e quanta sorte a minha. Em tudo, vida e conversa – a tal “vida conversável”, como lembrou Siewierski, tomando as palavras de Pero de Sousa. E em tudo houve a experiência, a que chamaria um outro nosso autor “madre de todas as coisas”. Muito conversamos nós dois, o Professor e eu, e se lembrou o nosso Amigo de recolher o que se dizia e de o oferecer para publicação, já que apareceu benevolente Editor; sem espécie alguma de correcção ou apuro de estilo, sem, por outra parte, nenhuma tentativa de o escrever, ainda que imitando o falado. Se o que fica para trás não servir para outra coisa será exemplo, no sentido de amostra, da forma pela qual uma pessoa não inculta conversava com um Amigo neste quase final do século XX. Claro que não falei somente eu: falou, e muito, e lucidamente, e com todo o interesse em penetrar o mais possível na cultura portuguesa, o Professor Henryk Siewierski, e a ele, afinal, se deve o volume. Os quatro anos foram-me Universidade porque agudamente perguntou e me obrigou a pensar muita coisa que jamais me ocorrera ou a recordar factos mais ou menos esquecidos de minha vida. Creio que, sobretudo, deve ser uma Universidade Foro de perguntas, de provocações, digamos, de preferência a supermercado de respostas convenientes para a vida e de receitas para singrar no mundo sem perigo de naufrágio. E, curiosamente, às perguntas que fez as decidiu ele eliminar, tentando a jogo de criatividade o possível leitor e o fazendo participar do diálogo. Completarei eu dizendo que o máximo que desejo é que as perguntas que se façam e as possíveis respostas do volume sejam bem sacudidas, bem joeiradas, jamais se aceitem como verdades estabelecidas, mas apenas como ponto de partida de discussão. É o que os outros pensem, o que os outros criem aquilo que fundamentalmente me interessa. Só assim escrever ou falar servirão para alguma coisa. Estimular é útil, siderar nefasto.

04-12-2019 11:34

«Devo, todavia, confessar que mais interessado pela verdade do que pela ficção, me inclinei para a leitura de romances menos conhecidos. Assim estudei em obras de J. K. Huyssmans, Barbey d’Aurevilly, Léon Bloy e Georges Bernanos, o modo singular de considerar válidas algumas das teses mais rebarbativas do pensamento católico. Firmei a convicção de que o estudo das ciências ocultas, porque proibidas, seria a habilitação para entender as verdades do cristianismo.» 

Álvaro RibeiroA Literatura de José Régio, página 83.

 

      

 

04-12-2019 11:24

Sobre A Literatura de José Régio

 

Propondo-me escrever sobre aquele que foi um dos maiores filósofos de Portugal, escolho para ponto de partida e para ponto de chegada A Literatura de José Régio. Tudo indica que este livro foi, para Álvaro Ribeiro, o mais importante dos onze que publicou e é, para nós, se quisermos conhecer a verdadeira orientação do seu pensamento, a sua profunda vivência interior da filosofia, aquele a que poderíamos chamar, sem desvio ou exagero, o livro da revelação. Em analogia com a Carta Íntima que precede A Ideia de Deus de Sampaio Bruno, há, a abri-lo, algumas páginas de “evocação e de invocação” do Anjo da filosofia. Ali revela que por mais de três decénios manteve o propósito íntimo de o escrever. Foi publicado em 1969. O Problema da Filosofia Portuguesa apareceu em 1943. Por conseguinte, alguns anos antes de iniciar o que depois se veio a chamar “o movimento da filosofia portuguesa”, já no seu espírito vivia a ideia deste livro, «de desígnio insondável».

O movimento da filosofia portuguesa deve considerar-se aberto com Sampaio Bruno e fechado com Álvaro Ribeiro.

O grande erro em que têm caído os “filhos da luz” é o de haverem deixado convencer-se pelo mito do diabo como do libertador das servidões do intelecto e da alma. Este é um dos sentidos mais fundos da obra de Álvaro Ribeiro.

 

António Telmo

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* Nota do Editor - O título é da nossa responsabilidade.

21-08-2019 10:06

Sobre a Gramática Secreta da Língua Portuguesa*

 

O fracasso cultural da minha “Gramática Secreta da Língua Portuguesa” patente na indiferença do grupo de filosofia portuguesa significa talvez que a maravilha do pensamento concreto, do pensamento que procede no ser e na forma dos fenómenos, neste caso, dos fenómenos fonéticos, deixou de impressionar os leitores. Uma humanidade cheia de pressa já não tem tempo para contemplar. Ainda haverá alguns entre nós que sabem criar em si o vazio no próprio seio do tumulto, o lugar absoluto onde os fenómenos simples convocados brilhem no esplendor do significado. É para esses outros que retomo o assunto da “Gramática Secreta”, que reassumo a responsabilidade de reflectir o que me foi dado ver.

Tive o arrojo e a ironia de concorrer ao Grande Prémio de 1981 da Sociedade de Língua Portuguesa, sem qualquer esperança de vencer, no critério de um júri composto por cinco professores universitários, trabalhos de outros universitários, puros do pecado da imaginação. O que me entristece é não ver discutido em público ou, privadamente, em conversa ou carta, aquilo que, no meu livro, tenho por uma descoberta científica, a mais importante, atrevo-me a dizer, descoberta científica que se fez em linguística de Saussure e de Sapir até hoje.

O essencial dessa descoberta diz-se assim:

O sistema fonético português é, ponto por ponto, o mesmo que o sistema cabalístico dos princípios internos do mundo, representado na figura da balança sephirótica.

Caso se verifique a equivalência dos dois sistemas, como um é um facto linguístico em si existente e o outro um dado metafísico produzido independentemente desse facto, das duas uma: ou estamos perante uma coincidência fortuita, o que é improvável dada a complexidade dos dois sistemas e as múltiplas relações dos seus elementos; ou encontrámos uma relação altamente significativa destinada a revolucionar toda a linguística.

Os cabalistas estabeleceram uma correspondência entre as letras do alfabeto hebraico e a balança sefirótica. Todavia, essa correspondência não pretende basear-se num critério fonético positivo, é construída sobre os valores metafóricos das letras, pelo que a situação delas nos vários lugares da “balança” varia de escola para escola. Aqui, na “Gramática Secreta Portuguesa” a correspondência é a que é e não pode ser outra, porque resulta de uma classificação objectiva dos fonemas portugueses.

Porque se trata de uma investigação com conclusões no domínio científico da fonética e da fonologia, os filósofos de uma filosofia há muito separada da ciência consideram-na ao lado das suas preocupações essenciais, mas os linguistas também não querem atender, praticantes como são de uma ciência separada da filosofia, uma investigação conduzida à luz de princípios metafísicos. Ainda por cima, a poesia está sempre presente na minha “Gramática Secreta” a ligar ciência e filosofia, e a imaginação, por mais rigorosa que se apresente e por mais submissa que se comporte em relação a uma e a outra, é sempre suspeita por aquele excesso seu, aquele ímpeto de liberdade que leva a ciência a realizar-se para lá dos seus limites e a filosofia a não temer a necessidade dos factos.

Gostaria de ver os linguistas serem capazes de rebater a classificação dos fonemas que apresentei, a sua repartição por dez conjuntos, a integração destes em quatro grandes grupos. Se, por outro lado, os filósofos quisessem reflectir a projecção da ideia nos fonemas, à luz da admissão de sucessivos estádios de manifestação do Princípio dos princípios, não poderiam deixar de ensinar os primeiros a maravilhar-se com as inesgotáveis perspectivas sóficas da ciência que cultivam.

Infelizmente, uns e outros voltam-se as costas e um livro que poderia ajudar a compreender o mistério da frase do apóstolo João (“No princípio era o Verbo, no princípio era o Lógos”) fica esquecido e entregue às moscas de Belzebuth.

 

António Telmo

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* Nota do editor: o título é da nossa responsabilidade.

21-08-2019 10:03

Nove anos

 

António Telmo partiu há nove anos. Quase toda a obra do filósofo publicada em vida e uma parte importante dos escritos que deixara inéditos estão hoje acessíveis aos leitores de língua portuguesa. Ainda em 2019, sairá a lume, com o apoio institucional e científico do nosso Projecto e a chancela da Zéfiro, o Volume XI das suas Obras Completas. No seu espólio encontram-se ainda muitas páginas, nomeadamente sobre linguística, a aguardar publicação. Será sobretudo sobre este material que a nossa atenção passará preferencialmente a incidir no futuro próximo.  A passagem, já no próximo ano, da primeira década de uma ausência sempre tão presente como a sua será, por certo, um excelente pretexto para se ir desvelando o que António Telmo ainda tem para nos oferecer.

 

30-07-2019 09:40

Pinharanda Gomes

O contrabandista de Deus

Miguel Real

 

Possuidor de um vasto saber sobre a história do pensamento português, de que se destacam os três volumes da História da Filosofia Portuguesa, bem como os seis volumes da série Pensamento Português, regista em todos os seus livros uma adesão viva ao modo religioso e espiritualista de problematização das questões filosóficas. Autor prolífico, tem resgatado do esquecimento histórico inúmeros autores integrados na mundividência espiritualista, prestando sólida consistência à existência de uma corrente filosófica em Portugal que, em continuidade, por vezes subterraneamente, desprezada pelo racionalismo e pelo positivismo, condenada pelo modernismo, tem privilegiado, dos alvores da nacionalidade até ao século XX: o espírito face à matéria; a alma face ao corpo; a transcendência face à imanência; a metafísica face à positividade empírica; enfim, Deus face à idolatria dos produtos humanos reificados segundo desejos sociais e ambições ideológicas ou políticas. Este é, de facto e de direito, o estatuto singular de Pinharanda Gomes no seio da cultura portuguesa contemporânea. O seu legado patrimonial.

Lega um exemplo de disciplina, esforço e persistência no estudo, de minimização das coisas materiais face às espirituais e uma obra que vincula Deus e Homem enquanto desacerto ou desequilíbrio entre ambos, buscando o segundo, como Peregrino, amparo e paz no regaço do primeiro.

Autodidacta (porventura, o último, após a morte de Saramago), nascido em Quadrazais, Sabugal, terra raiana de contrabandistas, a que devotou parte importante da sua obra, Pinharanda Gomes só soube ser de nacionalidade portuguesa quando iniciou a frequência do ensino primário. Fiel à natureza candongueira da sua terra, Pinharanda Gomes conservou sempre a capacidade de transmutar e converter conceitos de uma área de estudos para outra ou outras. É assim que a Filosofia lhe serve de caminho montanhoso para os céus da Teologia, a História alimenta uma Antropologia da espiritualidade portuguesa, comprovada e sedimentada pela Historiografia, e a Filologia ampara a Filosofia.

Contrabandista de ideias, Pinharanda Gomes toda a vida se postou fora do pensamento mainstream, exterior às academias bem-pensantes, brilhando, em cada livro, não por brilho alheio, mas por luz própria. É normal, até natural, devido à natureza formal das universidades, que estas lhe não tenham concedido privilégios. Até que a Universidade da Beira Interior decidiu atribuir-lhe o doutoramento Honoris Causa em 2018.

Até sempre, Pinharanda! Lá nos encontraremos de novo, agora não na Biblioteca Nacional, mas no teu Céu.

 

03-06-2019 13:02

António Telmo e a apologia da não perversão da linguagem

Eduardo Aroso

 

«Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma»

Fernando Pessoa

 

«Durante o Governo de Salazar (…) construiu-se um tipo de organização cultural e social do país que foi a obra-prima da inveja portuguesa. Nesse Governo se conceberam os intelectuais que agora actuam como agentes na preparação da demência pela corrupção da língua»

António Telmo

 

 

No café onde habitualmente tomo a benigna dose diária de cafeína, chega-me aos ouvidos a linguagem de dezenas de estudantes do chamado ensino superior, alguns já licenciados. Praticamente não há excepções que se notem neste ambiente de conversa, do qual, para o que aqui mais importa, excluo o que com alguma frequência chega inevitavelmente aos ouvidos: o agressivo volume sonoro de quem crê estar no espaço da liberdade da sua casa. Da chamada asneira ou palavra brejeira também o desconto, ao mesmo tempo na esperança de que a aprendizagem de umas boas maneiras intensivas dadas na família ou por outros meios possa, se não resolver, pelo menos atenuar a situação. Mas - tenhamos algum bom-senso - à idade febril da juventude deve conceder-se a mesma compreensão da que temos sobre a natureza dos músculos e dos ossos aos 20 e 30 anos ou aos 80.

O problema mais agudo, de consequências futuras, que não se podem imaginar bem e muito menos medir, é o acelerado reducionismo da língua portuguesa na formação integral das pessoas, ditado pela pressa, pelo facilitismo ou já por alguma imbecilidade actuando ela própria nessa atrofia do pensamento, num estreitamento de expressão cada vez mais notório. O que hoje se designa por “socialmente (ou culturalmente) correcto” reveste-se do medo de algo que possa emergir e assim ferir um dado paradigma. Segundo Byung-Chul Han, hoje onde não há idêntico há terror, no mínimo estranheza. Um bem-falante num grupo de maus conversadores estaria assim a lançar o terror do não idêntico, e, portanto, a ser um estranho, ainda que ele pudesse desenvolver e explicitar bem melhor o tema da conversa em causa. Como duas rectas paralelas, os (provavelmente) dois níveis de pensamento instalados não se encontrariam.

 

Parece que não têm sido suficientes as chamadas de atenção, entre nós, de filósofos como Álvaro Ribeiro e António Telmo para o problema da filologia na sua relação com o pensamento. É de ver que, por exemplo, um músico tem menos possibilidades de composição numa escala de sons mais reduzida do que se o fizer noutra de maior extensão, ou um pintor que não dispõe de uma gama variada de cores está limitado no trabalho da tela onde pretende fixar a beleza de um pôr-do-sol. Mas parece que nem a clareza de uma compreensão dir-se-ia quase intuitiva, nem a fundamentação dos pensadores têm sido dignas de atenção, sobretudo se o assunto diz respeito ao chamado ensino superior e à formação das elites culturais, que actuam como estabilizadores e fermentadoras da fala e da escrita no seu melhor, pois, se assim não fosse, ficaria a linguagem descartável do dia-a-dia que não pode ser marca de civilização.Em Filosofia e Kabbalah António Telmo dedica um capítulo ao tema em causa, intitulado «Como a perversão da linguagem leva à demência na sociedade». Ao lembrar a preocupação que Álvaro Ribeiro deixara já em Uma Coisa que Pensa (1976), Telmo, no final da década 80, escreve o seguinte: «Na verdade, a decadência da língua portuguesa reveste-se de formas, no momento que passa, que se aproximam assustadoramente  dos aspectos que assume a linguagem no indivíduo atingido pela espécie de demência que os clínicos designam por afasia».  Aborda também a relação do pensar, falar e escrever. Nesta tríade indivisível, é evidente que a pobreza da linguagem não só não pode ajudar a pensar, como não torna possível a representação desse pensamento pela escrita. Aspectos subtis que se adentram mesmo no espírito são mencionados por Telmo quando diz: «E nos indivíduos, quando o espírito perde o poder de invocar a palavra precisa, atribuímos isso a uma quebra momentânea de memória, aceitando a descrição pela explicação, e, por instinto de defesa, empregamos a primeira palavra que nos surge, a palavra imprecisa, sem cuidar de saber se ela nos é sugerida». Ora, isto é o chamado «pensamento que não pensa» de que já Heidegger falava, e que no automatismo diário actual se pode ver, por exemplo, em expressões como: «Ah, pois é verdade. Até já deu na televisão», ou «Já ouvi falar isso na televisão». Parece difícil, nos tempos que correm, alguém, deter-se para pensar, mas nem sequer se toma como terapia o aforismo latino «festina lenta», bem útil, por exemplo, para muitas licenciaturas do acordo de Bolonha.

Acontece que, de vez em quando, parece haver uma súbita semi-consciência, um notar algo neste problema que afecta a nação e o país. Referindo-se a palavras, digamos bastardas, que proliferaram em pouco tempo na nossa sociedade, e ao apontar uns poucos escritores que têm reagido, escreve António Telmo que só os actores do «Parque Mayer apresentaram até agora a única reacção, com quadros que ridicularizam aquelas palavras, tentando através do riso fazer substituir uma atitude emocional de adesão por um atitude emocional de repulsa». Ou seja, uma atitude bem portuguesa, que encaixa perfeitamente num outro nível, o dos intelectuais do regime, que negam haver filosofia portuguesa, não podendo contudo negar que, por exemplo, uma equação errada não se corrige com uma tese de biologia! Em suma, embora a ironia e a sátira cumpram o seu papel na vida humana, não podem (ao invés do que poderiam os sucessivos ministérios da cultura e da educação) estancar e tentar inverter a situação.

Referindo-se à mão que é manipulada (hoje torna-se sufocante a ideia de manipulação de tudo e em tudo), ela pode agir já em cisão com o núcleo central do pensar, havendo assim o risco da linguagem automatizada ou do não-pensamento se comunicar a esse membro superior. O perigo, segundo António Telmo, é que: «se falta o suporte primordial de sentido, a ligação directa do pensamento às mãos canaliza a corrente mental para formas de automatismo puro, conforme vem exemplificado num filme célebre de Charlie Chaplin». O filósofo de Estremoz faz ligações antigas e subtis ao dizer: «O que caracteriza o homem na plena posse dos seus predicados é o intelecto activo. Assim designava Aristóteles a “energia espiritual” que os antropólogos hoje significam pelo “pensamento voluntário”. Opõem o pensamento voluntário ao pensamento automático na exacta relação aristotélica do intelecto activo (noús polêtikos) com o intelecto passivo (noús pathétikos).

 

Um dos exemplos mais conhecidos da perversão da linguagem instalada, notamo-lo quando por exemplo, alguém começa uma frase dizendo portanto ou efectivamente. O autor de Filosofia e Kabbalah escreve: «O emprego da conjunção portanto fora da função semântica ou articulatória própria, algumas vezes intempestivamente como termo de abertura do discurso ou em resposta a uma pergunta ( - Que vai fazer hoje? – Portanto vou ao cinema), constitui um exemplo típico de linguagem afásica, persistindo apenas a dúvida se o havemos de classificar como um fenómeno de intoxicação». O que vemos nós senão um caudal de logorreia («falar impelindo o som pelo fio ininterrupto dos automatismos») de uns quatro convidados mais o apresentador de um programa de televisão, falando todos aos mesmo tempo?! Mesas-redondas já não só de inflamados comentadores desportivos, mas situações de outra ordem que exigem por certo outra postura mental. É frequente lermos e ouvirmos, quase sempre em tom jocoso, que a língua portuguesa é manhosa, cheia de truques ou algo semelhante. O que estas rudes expressões querem dizer é precisamente o contrário, perante um subconsciente colectivo que, herdando séculos da língua de poetas e escritores, está contudo sufocado no automatismo de chamar manha à riqueza linguística. 

 

«A simplificação de uma língua é um meio, entre outros, de alterar as estruturas do pensamento». Porém, já não se trata apenas da simplificação, mas da não utilização correcta dessa “escolha”, que nem sequer é peneirada, e cada vez mais abreviada nas mensagens no telemóvel e no computador. Para bem do seu espírito, António Telmo já não assistiu a esta escandalosa indiferença dos intelectuais portugueses e dos políticos sobre a torre de Babel que é o famigerado AO de 1990.

 

Maio de 2019  

12-05-2019 12:45

Caetano Veloso e Agostinho da Silva sob o signo "Deus está solto"

Eduardo Aroso

 

Num dos seus escritos em forma de crónicas, reunidas no volume Caetano Veloso – Verdade Tropical, edição Círculo de Leitores, o cantor-compositor brasileiro confessa a influência que teve de Agostinho da Silva, bem como de outras figuras que gravitavam então junto do filósofo português,  no alvorecer do que viria a ser denominado «tropicalismo». Agostinho, um “bandeirante da cultura”, ensinava e criava instituições e universidades em terras de Vera Cruz, e, contra a corrente de uma distorcida portugalidade forjada pelo Estado-Novo,  o pensador de Barca de Alva retomava a ideia de uma vera fraternidade luso-afro-brasileira, só impossível se o Homem não o consentir. Caetano estava então imerso na ideia do que viria a ser o «tropicalismo» (nome incluído no álbum do cantor baiano «Tropicália»), conceito criado pelo artista plástico Hélio Oiticia, sendo que foi o jornalista Nelson Motta que pela primeira vez escreve um artigo sobre essa decisiva corrente cultural, com repercussões na música, literatura, cinema e outros domínios. A Roberto Pinho ficou a dever Caetano a sua ida para o Rio de Janeiro. Dele, diz o cantor: «Ele fora formado pelo professor Agostinho da Silva, o fascinante português fugido do salazarismo e que via no Brasil um esforço de superação da fase nórdico-protestante da civilização. Era um paradoxal sebastianismo de esquerda que se nutria de lucidez e franco realismo e não de mistificações. Se aquilo era um ardil da saudade do catolicismo medieval lusitano não ficava claro para mim».

 O que mais importa, de relance, é observarmos o impacto que para um cantor brasileiro do séc. XX tudo aquilo tinha no seu espírito. «O professor Agostinho, interessado em ligar Brasil com África e Oriente (no fim da vida ele estava apaixonado pela China “póscomunista”), nunca derrapou para nenhum tipo de reaccionarismo  radical: ele amava ver em Portugal (o mais antigo país da Europa – unificado e feito Estado-Nação desde o século XII) uma sugestão de futuro espiritualmente ambicioso, sem negar os frutos da paixão nórdica pela tecnologia. E quando ele dizia petulantemente que “Portugal já civilizou Ásia, África e América, falta civilizar Europa”, estava sobretudo mostrando que queria pensar ao arrepio dos poderosos».

Na verdade, fosse por convicção pessoal, por aquilo que emanava do próprio «tropicalismo», pensando com Agostinho neste cenário de fundo na ideia de uma relação Portugal Brasil, muito para além da distorcida que apresentava o salazarismo, ou ainda por todas estas circunstâncias, o certo é que por volta da década de 60 o cantor-compositor inculcava uma utopia clarividente da realização da Língua Portuguesa, não sendo de minimizar o facto de ser baiano de nascimento (como, por exemplo, Jorge Amado), isto é, uma herança genética que podia entrever o triângulo, Portugal-Brasil-África, quiçá mais interessante do que o tão falado triângulo das Bermudas (!). Caetano, conforme confessa, intui que «deveria aceitar a sugestão do destino e ir fazer música no Rio e em São Paulo porque coisas grandes necessariamente adviriam disso». É de crer que o autor de «Tropicália» aceitasse, dir-se-ia, essa missão de ser voz e melodia desse sonho que no sotaque «de português com açúcar (Agostinho da Silva) fizesse girar a seiva de alma e cultura no referido e cosmopolita triângulo. Embora a música do cantor fosse um canal importante não se pode descuidar a influência do cinema na figura exemplar de Glauber Rocha (também baiano) nas obras «Deus e o Diabo na Terra do Sol» ou «Barravento», este último porventura o de maior influência no tropicalismo.

Mas não só de Agostinho, ou melhor, antes dele, há o fascínio de Caetano (melhor seria dizer encanto?) pelo idioma luso-brasileiro. No meio de tanto fervilhar de tropicalismo, de se reclamar um «Brasil brasileiro», havia a sedução intelectual do Brasil pelas correntes culturais da Europa, nomeadamente o Dadaísmo.  Todavia, já nos bancos de escola o cantor fica marcado por Mensagem de Fernando Pessoa, muito particularmente pela figura mítica de D. Sebastião. Assim o diz: «É um poema de Mensagem, o livro de Pessoa que me impressionara na época da faculdade por ser capaz  - ao parecer constituir a fundação mesma da língua portuguesa ou a sua justificação última – de dar vida digna a esse mito tão frequentemente ridicularizado (o termo “sebastianismo” virou sinônimo de impotência auto-iludida, um quase consensual depreciativo da crítica da cultura entre nós). Uma versão corajosamente livre (e surpreendentemente nada reaccionária) desse mito tinha se apresentado a nossa geração de baianos através da figura do professor português Agostinho da Silva que, nos anos de ouro da Universidade da Baía sob o reitor Edgar Santos, fundara em Salvador o Centro de Estudos Afro-Orientais, sempre mirando um horizonte  de superação do estágio em que se encontrava o mundo liderado pelo Ocidente (…) Algo (ou muito disso) está por trás de toda a obra de Glauber – e, em que pesem as ironias e desconfianças, de todo o tropicalismo».

Podemos especular- não o sabendo com realidade de fonte directa – do que,  nos dias actuais, Caetano pensa de Agostinho da Silva, parecendo certo que a sua ideia e amor à língua portuguesa (aliás, bem apoiado pela irmã Bethânia) não conheceu declínio, a julgar pela sua obra, e pelo que, por contraste, disse da língua inglesa, quando por imperativos profissionais permaneceu uma temporada em Inglaterra. Seja como for, há uma indesmentível convergência que incarna perfeitamente no âmago do pensamento agostiniano, quando o cantor, ao jeito do Grito de Ipiranga, lança um outro quando diz «Deus está solto».

 

Maio 2019

 

12-05-2019 12:38

 

FRAGMENTO DE DIÁLOGO ENTRE X E Y[1]

 

 

X

Não sabemos nada. Ninguém sabe nada. Se alguém sabe, esse é como um deus: esconde-se e cala, de modo que fica tudo na mesma. Sim! Só Deus sabe e conhece, mas tudo se passa no Universo dos homens como se Ele não fosse.

 

Y

Parece ser o seu silêncio a condição da existência do mundo. Como poderia o Mundo suportar a sua visão? No entanto revela-se. Como poderia o mundo ser sem a sua revelação? É este mínimo que nos é dado, mas esse mínimo é tão real quanto a própria existência do Mundo. Mais nada nos resta fazer do que apreender os sinais de luz compossíveis com os nossos limites. Depois da morte, logo se verá.

 

X

Por que o havemos de saber depois da morte e não agora? Por que havemos mesmo de procurar saber? Vê aquela rapariga que passa! Observa como é harmoniosa a andar, como nos movimentos do seu corpo quebradiço se prenuncia o amor e a maternidade. Como ela, outras ondularam e ondularão no éter pela infinidade dos séculos e na onda luxuriosa da forma feminina sempre se repetiu o mesmo desejo. Nascem e morrem os seres. De onde vêm e para onde vão? Só sabemos que aparecem e desaparecem numa forma de vida. Esta é a única realidade, mas tão indiferente à nossa metafísica quanto o era antes.

 

Y

Se eu cometo o erro de imaginar um antes e um depois onde só nos é possível ver o nada e o vazio, tu não cais em menor engano ao julgares que só te importarás em saber depois de ter sabido. Precisas de ter a certeza do termo para ires à sua procura. Como não há para ti tal termo, ficas onde estás céptico e impassível. És como um homem que nunca tivesse visto nadar nem soubesse que nadar era possível e, por isso, nunca tentasse atravessar as águas. Só farás o que os outros tiverem feito ou tentarás fazê-lo. Estarás para sempre dependente dos gestos dos outros.

 

X

E o que é que tu propões em troca?

 

Y

Aprende-se a nadar nadando. O conhecimento só é dado no acto de conhecer. Como disse o poeta, “tudo o mais é com Deus”.

 

X

Há, porém, outro caminho. A partir do que já se sabe, procurar-se saber mais.

 

Y

Não dizias há pouco que ninguém sabe nada?

 

X

Falava de Deus. Sei, por exemplo, que a terra gira em volta do sol. E, como este, tenho outros conhecimentos reais e bem positivos.

 

António Telmo



[1] Nota do editor – Inédito. O título é da nossa responsabilidade.

 

02-05-2019 10:24

Os filósofos e a inveja[1]

 

Os poetas e os filósofos são ambos vítimas do mal por caminhos diferentes. A sociedade tolera os poetas da palavra, da pedra ou da cor, talvez porque não argumentam e o seu irracionalismo não põe em perigo a mediocridade das relações humanas, sustida, nas suas vastas ramificações, pela razão judicativa. Os filósofos, aparecendo como seres de razão, de uma razão que é o argumento que torna evidente a mediocridade e transmite à verdade intuída pelo irracionalismo dos poetas o poder capaz de a tornar activa no mundo dos homens, vêem-se por isso perseguidos e hostilizados, odiados, até ao assassinato.

 

António Telmo

 

(Publicado em Capelas Imperfeitas - Dispersos e Inéditos, 2019)


 


[1] Nota do editor – o título é da nossa responsabilidade.

 

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