CORRESPONDÊNCIA. 47

30-04-2020 11:36

Carta de Dalila Pereira da Costa para António Telmo, de 3 de Novembro de 1981

 

Porto, 3-XI-1981

 

Querido Amigo António Telmo

 

Não se preocupe com faltas de respostas a cartas; o silêncio é também uma forma de diálogo, ou comunhão, quando duas pessoas estão tão ligadas como nós, pelo mesmo amor à pátria e serviço a ela, que nos ocupa a vida inteira. Nossa gratidão mútua, deve ser só por esse serviço, mútuo. Está sempre tudo muito bem.

Ainda, desculpe se a leitura de seu belo livro teve de minha parte muitos erros. Ele estava, no seu conhecimento, profundo, para além, e muito, da minha competência.

Este fim de Setembro, dei umas voltas pelas redondezas do Douro, a certos lugares sagrados: e na igrejinha românica (séc. XIII) de S. Pedro de Tarouca, lembrei-me muito de António Telmo. No túmulo do Primeiro Conde de Tarouca, D. João de Menezes, (general de Arzila e Tânger e das Armadas do Oceano, etc.) – há no alto dois medalhões de navegantes, perturbantemente semelhantes aos do grupo do lado Sul do Claustro dos Jerónimos, estudados por si[1] (e nestes, ao de Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama). Não sei de quem é o trabalho do túmulo: procurei em Reinaldo dos Santos, Vergílio Correia, etc., e não encontrei. Vá lá um dia ver: a igreja é uma beleza.

Gostei muito de receber e ler sua carta. Votos para seu novo trabalho sobre a Ilha dos Amores[2]: o omphalos dos portugueses.

Aqui junto lhe vão estes jardins[3].

Queria que eles fossem mensagem de alegria, esperança e fé.

Não pense em escrever-me, agradecer, etc. O que vale é o seu tempo consagrado a seu trabalho.

Um abraço de sua amiga, fraterna e dedicada,

                                                        Dalila

 

Ando tentando seguir um percurso português: da Serpente (a do neolítico e de Ofiussa) até à Imaculada (a do Rei da Restauração): às apalpadelas nos cafundós do nosso passado[4].

 

[Carta manuscrita.]



[1] Na História Secreta de Portugal.

[2] Referência ao que viria a ser o livro Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, de António Telmo, publicado no ano seguinte, em Lisboa, com a chancela da Guimarães. Pode hoje ser lido no Volume III das Obras Completas de António Telmo, Luís de Camões e o Segredo d’Os Lusíadas seguido de Páginas Autobiográficas, editado pela Zéfiro em 2015.

[3] Referência ao livro Os Jardins da Alvorada, de Dalila L. Pereira da Costa, que nesse ano de 1981 saíra a lume com a chancela de Lello & Irmão - Editores.

[4] Desta investigação viria a resultar o livro Da Serpente à Imaculada, editado por Lello & Irmão em 1984.

 

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