DOS LIVROS. 26

20-11-2014 16:25


Etimologia Sagrada

 

Para um leitor mais interessado, a reflexão da gramática portuguesa pelos princípios da arte poética não ficará completa se não tentarmos ver como os valores dos fonemas formam os significados das palavras. Neste domínio, o risco de se cair na fantasia, esse falso duplo da imaginação, é tão grande que hesitámos em escrever sobre o assunto. Qualquer pessoa pode conduzir ou desviar uma palavra para o significado que lhe aprouver, considerando nela apenas a letra ou letras que lhe convêm. Todavia, é possível mostrar alguns pontos firmes, perante os quais a fantasia se quede para ceder o lugar à razão poética. 

Os tons e os sons do segundo triângulo (os sopros) imitam facilmente as naturezas sonoras e, por isso, a língua utiliza-os onomatopaicamente para formar palavras. É o caso de silvo, voo, seta, flecha, azagaia, vento, sopro, etc. Análoga relação se estabelece por meio do R em palavras significativas de vários movimentos: correr, carro, roda, corrupio, rio, rua, etc. O til (m-n) é também gerador de palavras onomatopaicas: som, tom, tambor, tímpano, sino, bombo

Outras letras, todavia, que exprimem ideias mais distantemente dos sons naturais e artificiais, não deixam de animar de sentido inúmeras palavras. Assim o N e o L.

Ninho, é o lugar interior da germinação dos ovos.

Certas formas isoladas e definidas na superfície homogénea do mar são designadas por vocábulos em que impera o N: navio, nau, nave, canoa, nadador

A nuvem, a neve e o nevoeiro ou a neblina sugerem a ideia de um elemento compacto, mais ou menos indiferenciado, uma espécie de germe esparso.

Para o L e de acordo com o seu valor temos, por exemplo, leve, ligeiro, ágil, alado, alto.

Poderíamos multiplicar os exemplos nestas e nas restantes letras, mas, em contrapartida, seria fácil apontar inúmeras palavras nas quais a relação procurada não é imediatamente evidente. Por outro lado, há, quase sempre, vários elementos significativos na mesma palavra que a põem em relação com sephiroth, triângulos e colunas diferentes. A unidade semântica deve formar-se com todos esses factores, à volta daquele que se oferece como dominante. O supérfluo foi considerado por Platão, no Crátilo, mero factor de embelezamento.

A multiplicidade de direcções na mesma palavra pode, mais uma vez, constituir o pretexto da fantasia para formar étimos vazios. O rigor que, do ponto de vista histórico-linguístico, falta a este tipo de etimologias deverá dar lugar a um rigor de outra espécie, que é o da própria razão poética.

A chave do problema é dada por Platão no Crátilo. Neste domínio, a razão poética tem como condição da própria actividade a inspiração. É assim que Sócrates, possesso do «daimon» de Eutyphron, desfia perante dois interlocutores atónitos centenas de etimologias falsas. A posição dos participantes no diálogo inverte-se. Sócrates de interrogador de Hermógenes passa a interrogado, como interrogadas são as pitonisas que proferem oráculos. Em certo momento adverte-o de que deve estar vigilante e que não deixe que tudo se explique por tudo. Quando o ritmo da interpretação das palavras se torna mais veloz e saltitante, declara que a inspiração de Eutyphron estava a chegar ao fim. Recebera esta inspiração por contacto com o adivinho, com quem estivera a conversar nessa manhã. Quando tivesse acabado, deveria purificar-se.

Os modernos intérpretes do Crátilo são, na generalidade, concordes em atribuir à ironia platónica estas etimologias, na verdade das quais o filósofo seria o último a acreditar. O principal argumento é a estupidez de Eutyphron, um adivinho de Atenas conhecidíssimo pelo seu fanatismo e que figura, nessa qualidade, noutro diálogo de Platão. Este, em consequência, não podia tomar a sério a inspiração provinda de semelhante espírito.

É um argumento de quem não leu o Fedro. Há, neste livro, uma passagem de exaltação da sabedoria das pitonisas, quando possessas, onde no entanto se diz que, fora dos momentos de inspiração, essas mulheres são seres completamente banais. Outras razões existem, contudo, para considerar destituída de qualquer fundamento a opinião dos modernos. Daremos algumas: 1 – Não se compreende uma ironia tão paciente e demorada, mantendo-se durante várias horas e repetindo-se em cada nova etimologia das várias centenas que Sócrates propõe; 2 – Várias dezenas de páginas teriam sido escritas para nada dizerem; 3 – Noutros diálogos e nos momentos mais sérios e solenes da reflexão filosófica, algumas das etimologias apresentadas no Crátilo servem de fundamento à doutrina que Platão quer transmitir. Ainda por cima, o seu discípulo Aristóteles também as utiliza: é o caso, por exemplo, da etimologia de éther (aei thein) transposta para o livro Do Céu a significar o movimento perpétuo e circular dos seres divinos.

Tudo se torna claro, deixando de haver oposição entre a linguística moderna e a sabedoria, quando admitirmos para cada língua duas espécies de genealogia: uma histórica e terrestre; outra que designamos por urânica. Todavia, já no tempo de Platão essa oposição tomava como hoje a forma de conflito: «os homens que, na Antiguidade, instituíram os nomes não tinham a opinião de que a inspiração, mania, fosse uma coisa vergonhosa e nem sequer um opróbrio. Pelo contrário, ligando a palavra mania à arte mais bela, àquela que permite predizer o futuro, chamavam-na pelo nome de manikê. Olhavam a inspiração como a mais bela coisa, desde que exprimisse um dom divino e, por isso, a denominavam assim. Os modernos, porém, que perderam o sentido do belo, introduziram na palavra um T e chamaram à arte divinatória mantikê. Compare-se a esta a arte dos homens que se dominam, dedicando-se a predizer o futuro por meio das aves e de outros signos; é uma arte, na verdade, que, por meio da reflexão, transmite à opinião dos homens, oiésis, inteligência e conhecimento, noús e historía. Eis por que tal forma de arte foi pelos antigos denominada oio-no-histikê. Hoje, os modernos designam-na por oiônistikê, com um o longo para tornar a palavra majestosa. Todavia, quanto mais perfeita e digna a arte do adivinho! Comparados os nomes e as funções do adivinho e do áugure, como é superior, pela beleza, a inspiração à dedução, a inspiração que provém do deus à ciência que vem dos homens!» (Fedro, 244 c – 244 d).

Perante uma palavra como noite, quem é capaz de sentir, como Pascoaes e Pessoa o fazem, a obscuridade vagamente luminosa do ditongo e a interioridade profundíssima do N? Quem, como o poeta italiano Julius Evola, sabe ver em «Narciso» a auto-reflexão expressa na própria figura gráfica do N – eu sou eu, a face diante da face – e também a morte e a queda, no fascínio das duas dentais sibilantes, deste modo aparecendo o nome a traduzir o próprio mito? 

Duas condições são, com efeito, necessárias nesta arte de formar etimologias pelos valores do diagrama principial: uma alteração da alma e uma lúcida embriaguez pela qual a razão poética organiza as formas da inspiração num sistema universal de pensamento. Em termos já familiares ao leitor, diremos finalmente que no Sócrates, interlocutor do Crátilo, se dá o encontro de Yesod e de Thiphereth.

 

António Telmo

 

(Publicado em Gramática Secreta da Língua Portuguesa, 1981) 

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