DOS LIVROS. 38

20-03-2015 11:57

De repente tive a ideia de mostrar Natália como uma projecção na alma do filósofo da beleza satânica contudo bem feminina no seu fascínio.

Substituí a apoteose de Natália pela apoteose de Leonardo, unindo-se pelo sacramento do matrimónio e resgatando-se pela sacralização do seu filho, no alto do Marão.

É neste ponto que a minha vida de escritor é de novo assistida pelo sobrenatural.

Era uma segunda-feira. O café onde todas as manhãs costumava ir escrever, ler, pensar fechava neste dia da semana. Dirigi-me por isso para uma esplanada na Mata, que é o nome que em Vila Viçosa dão ao seu belo jardim. Sentei-me e escrevi dum fôlego o novo desenlace da peça, pondo os seus no seu devido lugar.

O extraordinário e ao mesmo tempo encantador foi o que aconteceu quando pus a última linha. Duas felosas verdes vieram pousar à minha direita e à minha esquerda nos espaldares das cadeiras de um e de outro lado da mesa. Entre mim e cada uma das duas avezinhas havia a distância de um braço. Estavam voltadas uma para a outra, mas moviam as cabecinhas fitando-me. Depois desapareceram num voo que foi como um sopro.

A alegria, como nunca a tinha sentido, veio visitar o meu espírito.  

(António Telmo, in Páginas Autobiográficas)

 

António Telmo não disse tudo na “Breve Explicação do que foi escrito atrás” que justapõe aos três actos em que se estrutura a sua peça A Verdade do Amor, editada pela Zéfiro em 2008. Ficamos a sabê-lo pelo excerto sobre Leonardo Coimbra acabado de citar, retirado de Autobiografia e Sobrenatural, uma das muitas novidades que o III Volume das suas Obras Completas, a sair em Junho na Zéfiro, nos vai trazer. O leitor poderá verificar o que lhe dizemos, recordando o final desta peça tão densamente simbólica, em que Álvaro, ali dado pelo mestre como o baluarte da Filosofia Portuguesa, é efectivamente Álvaro Ribeiro. Mesmo que António Telmo não no-lo tivesse revelado, bastaria a nossa atenção para a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro que o dramaturgo não deixou de colocar na sua sala de estudo.

[Lilith, por Dante-Gabriel Rossetti]

 

Final do Terceiro Acto de 

A Verdade do Amor

 

(…)

 

Aparece Natália fazendo grandes gestos de chamamento para Leonardo e para Álvaro.

 

LEONARDO

Não atravesses o caminho! É uma miragem.

 

O CEGO

Volta-se para Natália, tocando e cantando.

Em vinte e cinco de Abril

A princesinha acordou,

Cem anos depois de morta,

Sentou-se toda torta,

Longe do mundo e bem só.

 

Era um esplendor de cravos

Cem anos depois de cega.

A liberdade não chega

Por causa da cegarrega

Que amolece os mais bravos.

 

Disse Camões ao seu povo

Mil anos antes de Abril:

Mas que tristeza tão vil!

A liberdade não chega

Tudo é velho, nada é novo

Continua a cegarrega.

 

Veio o Quim dos Alcatruzes

E ganhou as eleições,

Já se calou o Camões.

Alegram-se as avestruzes

Co’a liberdade que chega

Entre vivas e canções,

Mas não cessa a cegarrega.

 

Em vinte e cinco de Abril

A princesinha acordou

Cem anos depois de morta.

Esperou três anos mais

Sentada e toda torta

Até que por fim ganhou

E nos fez todos iguais;

O deus dos cegos ganhou

Que nos fez todos iguais.

O deus dos cegos ganhou

Que nos fez todos iguais.

 

A voz repetitiva perde-se progressivamente. Fica só o som da guitarra.

 

NATÁLIA

Ó vinte e cinco de Abril,

Venha a orgia, venha a ordália!...

Portugal beija o Brasil,

E Leonardo a Natália.

 

TODOS

Toca um rock! Toca um rock!

Vamos todos a galope!

 

O cego levanta-se e a sua guitarra, agora eléctrica, solta sons frenéticos. Começam todos a dançar. Do meio deles sai uma mulher muito branca, magríssima e só com órbitas. Para e dança como que esperando.

 

ÁLVARO

Mestre, que figura horrorosa é aquela?

 

LEONARDO

Aqui todo o medo deve desaparecer. Mantém-te calmo e distante, mas não percas nada do espectáculo!

 

A MORTE

Sou um caso muito sério

Não é só com preservativos

Que resolveis o mistério.

 

LEONARDO

Tudo isto enoja, mas é só uma miragem.

 

ÁLVARO

É só uma miragem?

 

LEONARDO

Uma miragem que, com a ajuda de Deus, vou fazer desaparecer.

 

Atravessa corajosamente o caminho que os defende daquela gente. E, ao sinal da cruz que traça sobre o peito, segue-se um estrondo que abala toda a cena.

 

Louvado seja Deus!

 

Uma doce paz invade toda a paisagem, ainda envolvido na noite. A manhã começa a clarear, mas do lado do Poente. Daí se vai elevando o Sol. Sob o Sol nascente, forma-se a figura de um Templo.

 

O teatro findou. Álvaro, vou deixar-te só. Arranja companheiros que sigam a nossa estrela. Aquele é o Templo de Salomão, daquele que fez o Cantar dos Cantares. Ali me espera Catarina com o nosso filho. Ele será lavado em águas santas e receberá na língua o sal da terra. Renascerá. Eu e Catarina também, mas pelo supremo sacramento. Sinto que é a partir dali que vou conhecer o mundo misterioso de Deus.

Tu ainda tens de descer, de regressar ao mundo dos homens. Vai e faz o que tens que fazer.

 

António Telmo

 

(Publicado em A Verdade do Amor, 2008)

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António Telmo. Vida e Obra antoniotelmovidaeobra@gmail.com