DOS LIVROS. 69

21-12-2020 11:28

Sétima conversa (Dies Solis

[Das Conversas do Mês de Outubro]


 

[Versão “A”]

Última conversa – Dies Solis

 

Eudoro

Creio que esta é a nossa última conversa. Tendes de partir amanhã para Lisboa os dois. Eu ficarei aqui, como de costume até ao Natal. Gostaria de perguntar-vos pelas razões que fizeram que nos encontrássemos os três esta manhã, em Estremoz, na Missa do Meio-Dia e também como conseguistes descer até lá a baixo, se não íeis na camioneta e não tendes automóvel. Tivestes, porventura, a sorte de arranjar boleia?

 

Marinho

Todas as manhãs, muito cedo, levanto-me e estou cá fora antes do nascer do Sol. Num sítio isolado procuro o lugar para a minha meditação, como dizia o nosso Leonardo Coimbra. Ela consiste, então, em harmonizar a luz reflectida do Sol com a minha essência.

Dou, depois, um longo passeio de alguns quilómetros, que tem como condição sine qua non a de o meu espírito, preparado pela meditação anterior, não deixar entrar as “Rêveries d’un promeneur solitaire”. É o que poderíamos chamar um passeio atlético. Se o Eudoro ceder um dia à tentação de seguir a minha técnica iniciática terei o maior prazer em ensinar-lhe os segredos do “andar”.

Podeis ver agora a razão porque não me encontrastes na camioneta e me vistes a assistir à missa em Estremoz. No que diz respeito à outra pergunta, não constitui surpresa, certamente, para si ver afirmar a verdade de todas as religiões.

 

Álvaro

Não tenho o segredo da marcha atlética. Mas também não sei explicar-vos, uma vez que não me vistes na camioneta, como me transportei até à Igreja de Estremoz. Há, no Louis Lambert de Balzac, o relato de como o protagonista, visitando, pela primeira vez, determinado lugar do seu país, se surpreende reconhecendo, com toda a lucidez do pormenor, tê-lo visto já. Uma das hipóteses explicativas do fenómeno dada por Balzac é que tenha estado em corpo astral nesse lugar, enquanto dormia. É estranho, porém, que o Eudoro me tenha visto.

 

Eudoro

O mais extraordinário é que a Missa tenha sido a do Dia de Todos os Santos.

 

[Versão “B”]

Domingo, Dies Solis

 

Leonardo[1]

Chegámos ao sétimo dia e pergunto-me a mim mesmo qual é o resultado nos nossos espíritos destas tarde passadas a conversar. Estou como que estarrecido, atordoado, perturbadíssimo, cheio duma inquietação vazia. Nunca como agora me pareceu tanto que o nosso ideal de vida deve ser a vida simples de se deixar repousar no espaço e deslizar no tempo sem choques nem atritos: conduzir virgilianamente as nossas almas para o redil de Deus, transformar os choques das ideias em balanceados chocalhos, soando no ar puro do entardecer. O nosso sol aqui é sempre o sol do entardecer, a jubilosa luz da noute[?], a divina luz que se esparge como um lago pela superfície da treva.  

Ides partir para Lisboa amanhã. Ficarei aqui até ao Natal com o problema imenso de encher o tempo, não de Pensamento, mas de Ser. A arte de enganar o tédio está toda em ser em si sem pretensões de ser outra coisa, numa íntima e perfeita harmonia com o actual ter. Tenho o vale do Infante, as ovelhas, os patos, as oliveiras e as laranjeiras. O meu olhar pousará na distância sem outra preocupação senão a de ser olhar.

Que me importa que, lá fora, se construa a humanidade dos computadores, que o mundo corra para um precipício, que a estrela da manhã se levante um dia sobre os escombros do cataclismo?

Tive, contudo, o último cuidado de gravar as nossas conversas para que alguém, procurando um editor, as entregue ao mundo. Não sei se elas irão fazer mal ou bem aos homens e às mulheres que as lêem. Talvez sirvam, depois de uma primeira perturbação, para purificar as almas, dando-lhes o gosto das coisas simples, o prazer de uma vida desinteressada, em que o próprio Deus seja concebido como um Espírito sem cuidados, que pelo facto de ser faz ser todo o Universo. Que as nossas orações saiam dos nossos lábios como a água das fontes dum tufo de avencas!

 

Álvaro

Não quero continuar a perturbar o seu e os nossos espíritos com a Ciência do Bem e do Mal, mas não posso deixar de observar que o Leonardo[2] deveria ter deixado para ontem a cessação de todos os trabalhos, embora como bom cristão ponha o seu estado de alma de acordo com a essência dominical do dia. Eu corrigiria de bom grado o adágio popular para “não há Sexta sem preguiça, Sábado sem sol e Domingo sem missa”, pondo-o em consonância com os três dias consagrados pelas três tradições. A revelação de Deus a Maomé é, porém, a última na magna ordem do tempo. Dou a palavra a José, o egípcio.

 

josé

O sétimo é a cessação depois dos seis dias do trabalho da criação. Regressamos à unidade original com o Domingo que é o primeiro dia, o do Fiat Lux. Com o dois vem de novo a divisão. Há que levar a divisão até ao fim para que possamos receber uma nova Revelação.

 

Leonardo[3]

O trabalho da criação, de labore solis, a legenda de João Paulo II. O sol brilha porque é, sem esfoço. Deus disse: Faça-se a luz. Nem sequer teve o trabalho de pensar. Não há o pensamento e depois a palavra. É, por isso, que nos arrependemos de ter dito e não de ter pensado mal dos nossos semelhantes.

 

 josé

Ah! Mas esse esplendor instantâneo do Espírito que as nossas mentes tardas não são capazes de acompanhar e por isso só depois o vemos na imagem fixa e luminosa do espaço não haverá um meio que, sem dúvida, tem de operar no instante, de o encontrar. Adormecemos logo no instante seguinte que nos aparecerá como o curso contínuo do tempo, mas algures nos abismos trevosos das almas esse esplendor será a semente duma luz para a humanidade.

 

Laus Deo 

 

Álvaro

As suas palavras acordam-me para uma antiga perplexidade. Como devemos imaginar a redenção? Vemos morrerem um a um os portadores de uma luz que brilha efemeramente nas trevas e logo se perde com eles nas sombras do abismo; se a visão de um poeta ou a concepção de um filósofo tem a sorte de ser atendida e se propaga logo se faz dela uma aplicação afinal contrária às intenções do seu portador. Os portadores da luz vão rareando e a mediocridade avassala todos os espíritos. Haverá um tempo em que nem um só restará no mundo. 

Por outro lado, podemos modificar alguma coisa pela acção, poética ou outra? Não vemos todos os homens a seguirem docilmente como crianças ou insensivelmente como autómatos ou entusiasticamente como imbecis as ideias que os arrastam para o abismo? Alguns, perante este espectáculo, e você Leonardo[4] é um deles, desistem de pensar. Para quê pensar? Para quê agir? Para quê procurar exercer influência? Não há nada a fazer. Estamos inermes, nós que temos consciência da avalanche.

E no entanto… No entanto, há um modo de conceber a redenção, anunciada por todos os profetas e, portanto, certa, um modo que a torna explicável e ao movimento de descida que parece torna-la impossível. É aquele que podemos apreender através do Criacionismo de Leonardo Coimbra. Há uma perda contínua de energia que arrasta os mundos e os homens para a homogeneidade da morte; mas ao mesmo tempo se vai ganhando a luz da vida que, por um processo misterioso, fica oculta e se conserva e aumenta em formas que a visão dos poetas e a inteligência dos filósofos concebeu. Não foi em vão que eles viram e pensaram porque, logo que o processo entrópico pareça chegar ao fim outra humanidade aparecerá na terra que é a quintessência dessa mesma humanidade de que só resta o cadáver. Há na Terra lugares misteriosos para onde vão as almas que parecem ter abandonado a Terra. Talvez num reino subterrâneo… ou em ilhas que desaparecem logo que nos aproximamos.      

 

Leonardo[5]

 

[Versão “C”]

Domingo, Dies Solis

 

Leonardo

Admitamos que a redenção, prometida por todas as religiões, vai ter lugar num tempo mais ou menos próximo. Como devemos concebê-la?

Alguns, prevêem, por X+B, sendo B uma deflagração atómica ou coisa no género e X o tempo, a destruição da humanidade, senão do planeta. Tudo quanto “Deus sonhou, o homem pensou e na Obra conseguiu”, terá sido em vão pelo menos neste mundo. Imagine-se, porém, que os grandes abutres da morte, que julgam poder comandar os destinos do mundo, se enganam. Há o X, mas não há o B. Haverá sim X+Y, sendo este, como a letra indica, a separação final dos bons e dos maus, ao som da trombeta sagrada do Anjo de Cristo. Incompreensível Fiat se os bons há muito desapareceram da face da Terra! Filósofos, poetas, santos e profetas foi em vão que existiram e disseram. O destino de cada ideia, por esplendorosa que seja no início, é o seu obscurecimento e a sua degradação. As belas ideias são utilizadas pelas inteligências negativas para intentos tenebrosos. A própria doutrina de Jesus Cristo obedeceu fatalmente ao mesmo destino. Os sábios morrem um após o outro sem que a semente deixada floresça como convém. Ao longo dos séculos, dos anos, dos meses, o número das “almas verídicas” é cada vez menor. Já não nascem. Haverá um tempo, em que tudo estará nas mãos dos medíocres e, o que é pior, não haverá ninguém para apontar essa mediocridade. É então que a roda parará, antes de começar a girar ao contrário? Onde vai buscar a energia espiritual para essa mutação brusca de direcção?

Não à humanidade que não a tem. Se é a outro plano da existência que relação há entre esse plano superior de existência e a inferior humanidade?

 

José

Podemos estabelecer uma relação que reside em ser esse plano de existência constituído pelas ideias dos filósofos, dos poetas, dos santos e dos profetas. Imaginamos uma ilha “nas entranhas do profundo mar” para onde vão as almas que “se foram da lei da morte libertando”. Com elas está o que houve de verdade nas suas visões. É uma nova humanidade, ou o corpo incorruptível desta humanidade, que, tornada cadáver, despirá como a serpente despe a pele. Ela habitará a Terra, dando início ao novo ciclo. Eis porque os nossos esforços nunca são em vão. Não nos iludamos, porém, julgando que nos é possível impedir esta descida para a morte. No fim dos tempos, escreveu o Evangelista que se salvarão apenas aqueles que andarem por cima dos telhados.

 

Álvaro

Considera, por isso mesmo, inútil, se não maléfica, qualquer acção política, até quando a teoria que a provasse lhe pareça admirável?     

 

José

Uma teoria política, admirável como diz, servirá para construir o novo mundo, mas é um engano pensar que ela se pode, desde já, traduzir em acções que não sigam a lei geral da decadência do homem. 

 

Álvaro

Faremos o que pudermos, mesmo que os telhados nos caiam em cima com o peso dos iniciados.     

 

José

Os iniciados não têm peso.

 

Leonardo

Como, tendo peso, é possível subir para cima de telhados que, muito além das nuvens, tocam na esfera da Lua?

 

Álvaro

Perdão se me esqueci de que as palavras do Evangelho têm um sentido simbólico. Toda a minha dificuldade, é que não se pode pensar uma teoria política independentemente da acção que a realiza. Se soubermos remar contra a maré vazante, do nosso barco se levantarão as ondas que uma boa imaginação verá tocar as portas lunares dos Céus. O que é necessário é estar atento aos modos dessa lei geral de decadência do homem para que saibamos pôr nos lugares justos as acções políticas justas.

Ainda não foi dada a ordem de desistir. Ainda não se ouviu, vinda do fundo do mar, a voz que proclama que o Deus antigo morreu. Nada nos assegura que na Terra não viva ainda o último sábio.

 

Leonardo

Este optimismo do Álvaro casa-se estranhamente com a mais nítida consciência da realidade do mal.

Para ele o importante, ao contrário do José, não é a relação do pensamento com o ser, mas a do pensamento com a acção. Tal confiança no homem, no pensamento do homem, choca com o meu sentido religioso que tende a ver tudo suspenso do pensamento de Deus.

 

Álvaro

Não há contradição entre o seu ponto de vista e o meu. O pensamento do homem – a razão – é capaz de eficaz actividade no plano terrestre porque comunica com os seres invisíveis, superiores a nós, interessados na redenção que é a espiritualização do Universo. Tais causas de espiritualização movem-se entre Deus e nós. O que não posso aceitar é, como uma vez me disse o Leonardo, que “o homem seja uma inutilidade num mundo feito”. Ele é, para nos exprimirmos por uma famosa expressão maçónica, “o obreiro dum mundo a fazer”.

 

José

É muito agradável verificar como pudemos ter vindo a conversar durante sete dias dentro de um perfeito entendimento de pontos de vista diversos. Por mim, daria por terminada esta reunião, que é a última, já que partimos, eu e o Álvaro, amanhã de manhã para Lisboa.

 

António Telmo

 

(Publicado em Capelas Imperfeitas - Dispersos e Inéditos, 2019)
 

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[1] N. do O. – António Telmo substituiu “Eudoro”, nome próprio primeiramente manuscrito no original e por si riscado, por “Leonardo”.

[2] N. do O. – No original, Eudoro.

[3] N. do O. – Idem.

[4] N. do O. – No original, Eudoro.

[5] N. do O. – Idem. O texto termina abruptamente neste ponto.

 

 

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