INÉDITOS. 25

17-09-2014 12:23

Sobre Linguística. 01[1]

[Edward Sapir]

 

1978 é, entre outras coisas, assinalado pela instauração da “gramática generativa” no ensino oficial. “Tudo na natureza conspira” diz o conhecido e misterioso adágio poético e também no mundo político. O termo gramática generativa é a tradução fonética de “generative grammar” , pois em língua portuguesa dever-se-ia dizer “gerativa” ou “geratriz”. Primeiro sinal de desnacionalização. Vem da América do Norte onde a teorizou um judeu linguista – Noam Chomsky. Outro judeu, também nórdico, Jacobson, estabeleceu a moderna “teoria da comunicação”, que, com a “gramática generativa”, compõe a dupla directriz dos nossos programas de ensino da língua portuguesa. Assim, como diriam os políticos de esquerda, os dois imperialismos – o americano e o russo – actuam linguisticamente, através da Universidade, sobre este pobre e ínclito povo para o qual Fernando Pessoa indicou 1978 como a data mortal. Se a Pátria, como ele disse, é a língua, compreende o leitor quanto virá a ser decisiva esta alteração do programa de português nas nossas escolas.

No actual contexto do mundo humano, é impossível resistir ao domínio técnico e económico do bicórnio nórdico.

A única resistência ainda possível é a língua. Se conseguimos desarticulá-la, feri-la, aniquilá-la então nada mais resta e a invasão material far-se-á sem obstáculo.

Como então?

A “gramática generativa” parte do princípio de que há uma só estrutura para todas as línguas – a própria estrutura da mente humana. A gramática normativa de que o imperialismo jesuíta se serviu noutras circunstâncias históricas oferece o defeito de se impor de fora como um molde, enquanto que esta diz que a “norma” universal está nas próprias línguas, de que as próprias línguas são determinadas leis sempre as mesmas em movimento. Neste caso, distinguem-se umas das outras por acidente, senão por outras razões que o materialismo dialéctico estabelece.

Se assim é, não há que discutir. Aceitar e seguir em frente.

Só que…

Só que na América do Norte e no próprio império germânico-russo nem todos pensam assim. Os nossos universitários, que estão por detrás da reforma do ensino, conhecem muito bem a hipótese Sapir-Lee Whorf, quanto a nós a única doutrina linguística que, sem negar a unidade do género humano, a entende como uma verdadeira e coerente unidade porque levantada sobre os diferentes.  

 

António Telmo



[1] Título da responsabilidade do editor.

 

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