INÉDITOS. 57

15-09-2015 08:39

Antecipamos hoje aos leitores o breve capítulo inaugural de Sobre Álvaro Ribeiro (Contra o maniqueísmo), um dos dois livros inéditos que António Telmo dedicou ao pensamento de seu mestre Álvaro Ribeiro e que integram o IV Volume das suas Obras Completas, a sair ainda este ano, com a chancela da Zéfiro e o apoio institucional e científico do nosso Projecto. A transcrição do texto manuscrito é de Ruy Ventura, que prefaciará o novo volume, Filosofia e Kabbalah seguido de Álvaro Ribeiro e a Gnose Judaica e outros estudos.

Abertura

 

O judaísmo que se exprime na filosofia de Álvaro Ribeiro é o judaísmo de um cristão-novo. Cristão-novo é uma palavra composta que sempre se interpreta em sentido histórico, isto é, como a designação de um judeu ou de um islamita convertidos violentamente ao cristianismo. Há, porém, a possibilidade de a interpretar em sentido espiritual: cristão-novo é aquele que traz um novo cristianismo, aquele que está em condições de compreender plenamente a mensagem de Cristo, porque é, como ele, judeu e confrontado com toda a tradição judaica e a religião de seus pais, vindo, não para a renegar, mas para a purificar. Ele distingue-se do cristão velho e do velho judeu, confronta-se com ambos, que são o seu passado, um por herança de tradição trazida no sangue, outro por transmissão cultural e institucional. Quando Álvaro Ribeiro insistia sobre a originalidade e a superioridade da filosofia portuguesa fazia-o com inteira legitimidade porque a interpretava como a expressão da espiritualidade do cristão-novo. É certo que a síntese que o cristão-novo deve realizar defronta um duplo obstáculo, no próprio seio da comunidade nascente: o dos cristãos-novos que se mantêm completamente fiéis ao judaísmo e que não traem e o dos cristãos-novos que se identificam inteiramente com a Igreja dos goim, vendo nela a Igreja judaica, para não falar já no quádruplo obstáculo que resulta de haver duas comunidades originais. Daqui a grandeza dos cristãos-novos como Uriel da Costa, mestre de Espinoza, Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro, Pascoaes e Pessoa e a pequenez da multidão de intelectuais divididos na alma e na inteligência, vivendo em drama, como Antero, ou servilmente, como tantos outros. A filosofia portuguesa aparece como a síntese que resolve o drama e liberta para novos caminhos.

A doutrina capaz de conduzir a síntese na inteligência do mundo, do homem e de Deus é a Cabala Hibérica[1] que, no entanto, o cristão-novo que encontrou o sentido do seu destino espiritual deve esconder de cristãos velhos e de judeus velhos e da multidão servil dos cristãos-novos. Ambas as Igrejas a hostilizam, uma porque ela transporta os valores do judaísmo, outra porque ela é a concepção nova de Cristo.

O cristianismo desempenha, frente às duas ordens que se apresentam como representando o divino no humano, o papel do satanismo, aquele elemento individual que revolta em nome verdadeiro da luz e do amor.

Cristo é, na visão do cristão-novo Sampaio Bruno, o supremo cabalista, aquele cujos milagres são argumentos. Esta síntese gloriosa das duas tradições é, pois, o fim da filosofia portuguesa que se realiza por entre múltiplas hostilidades.

Temos, pois, de entender a imitação de Moisés, não como do Moisés legislador e despótico, mas do Moisés da revolta contra os Egípcios que escravizavam e torturavam o povo hebreu, uma espécie de Moisés-Messias, o Moisés próprio da idealidade do cristão-novo (Jesus Cristo), cuja imagem Jesus Cristo purifica e transubstancia.

 

António Telmo



[1] N. do O. – Mantivemos a grafia de intenção etimológica de António Telmo.

 

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