INÉDITOS. 91

13-05-2020 19:36

Na carta que em 2 de Junho de 1986 escreve a António Quadros, António Telmo revela-lhe que espera publicar um volume sobre “Filosofia e Cabala”, já completo, estando apenas à espera das três cartas que, com respeito aos sucessivos volumes de Portugal, Razão e Mistério a haver, tencionava escrever ao seu correspondente.

Mais de um ano depois, em nova carta para Quadros, datada de 28 de Julho de 1987, afirma: «Enquanto bibliógrafo, estou aperfeiçoando e reunindo escritos antigos que intitularei, num novo livro, de «Filosofia e Cabala».

Como quer que seja, o desejado volume só sairia a lume em 1989, com o título Filosofia e Kabbalah, parecendo mais conforme ao anúncio da missiva de Julho de 1987. Será bem de presumir que os planos de Telmo para o novo livro tenham mudado consideravelmente.  

O escrito ainda inédito que agora publicamos intitula-se "Introdução à Filosofia e Cabala" e destinar-se-ia, possivelmente, à primitiva versão do livro, aquela a que o filósofo da razão poética se refere na carta de Junho de 1986, ou a uma eventual versão intermédia. O leitor que se recordar do “Prolóquio” de Filosofia e Kabbalah poderá verificar como são diferentes estes dois textos de cariz introdutório.  E curioso será notar que o confronto, tanto pela convergência como pela divergência, de Álvaro Ribeiro e José Marinho, que rege o desenvolvimento da "Introdução à Filosofia e Cabala", irá reaparecer, de um modo bem mais sintético, nesse escrito fundamental do cânone télmico que é o artigo “Sampaio Bruno, «O Encoberto»”, primeiramente publicado em 1989 na revista Leonardo, o que o torna contemporâneo de Filosofia e Kabbalah, e mais tarde recolhido em Viagem a Granada. A amplificação propiciada por um tal diálogo transcende já, como razão acrescida para a sua publicação, o inegável interesse histórico ou biográfico do texto que agora se propõe. Na verdade, e como o leitor comprovará, o aprofundamento assim propiciado pode resultar iluminante. 

     

Introdução à Filosofia e Cabala

 

Quem teve, como eu, a felicidade, ou a infelicidade, de ter, simultaneamente, como mestres de filosofia dois homens tão diferentes como Álvaro Ribeiro e José Marinho, tão diferentes sobretudo na orientação do pensamento, ou nada compreendeu e pôde, à vontade, seguir qualquer caminho fora da autêntica filosofia, ou, no esforço de compreensão dos opostos, descobriu, maravilhado, que a síntese estava na origem de ambos, isto é, em Leonardo Coimbra.

A fotografia, que aparece no frontispício deste livro, tirada, dizem, no dia em que o supremo professor da Faculdade de Letras do Porto deu a última aula, foi ocasionalmente ou por disposição sobrenatural marcada por profundas e exactas relações simbólicas. As nove personagens fotografadas configuram um misterioso símbolo judaico-cristão, correntemente designado por “árvore das sephiroth”, mas que surge em todos os templos onde verdadeiramente se cultue Deus “em espírito e em verdade”. Esquematicamente, compõe-se de três colunas que determinam todo o edifício: a maçonaria, isto é, a arquitectura, somente dá como visíveis a coluna da direita e a coluna da esquerda; a coluna do meio é representada por um trono ou algo que a ele alude, mas é, de sua natureza e dignidade, invisível ou imaterial.

O que espanta, olhando a fotografia, é que no lugar das duas colunas laterais estejam Álvaro Ribeiro e José Marinho. E o espanto é tanto maior quanto, pela estação de pé, são realmente duas colunas de um e de outro lado de Leonardo Coimbra. Todos os outros estão sentados. A simetria formada pelo Mestre e pelos dois discípulos é perfeita.

Ocorre-nos à lembrança o famoso fresco de Rafael que representa Platão e Aristóteles n’A Escola de Atenas. Aqui não foi o acaso mas o génio do pintor que, no compasso formado pelas figuras dos dois filósofos compôs em esquadria a mão direita de Platão com a mão esquerda de Aristóteles.

José Marinho, o platónico, inclina para a terra a cabeça, meditativamente séria; Álvaro Ribeiro, o aristotélico, parece olhar o horizonte longínquo. Este momento, o da fotografia, é aquele em que eles vão “partir”, em que se propõem “criar de novo” a filosofia do Mestre. Há decepção e desalento na postura de Leonardo Coimbra. O decreto de Salazar, ao extinguir a sua Faculdade de Letras, “sociedade que funcionava inteiramente aberta ao público, sem perder a sua qualidade de secreta”, viera alegrar a inveja dos seus inimigos, no seu maior número constituídos por pseudoantiestado novo [sic]. Mas ali ficava fixada a imagem de uma verdadeira escola cabalista, que, passados vinte anos, viria a ser conhecida pelo nome de Movimento da Filosofia Portuguesa.

O que vou escrever traduz a opinião de alguém que tem participado, a seu modo, nesse movimento. É de esperar que todos quantos tiveram, como eu, a felicidade, ou a infelicidade, de serem discípulos de Álvaro Ribeiro e José Marinho não concordem em tudo, ou em nada, com essa opinião. Limito-me a exprimir aquilo que me foi dado ver.

A filosofia de Álvaro Ribeiro e a filosofia de José Marinho aparecem-me como duas direcções, – a judaica e a cristã – do pensamento de Leonardo Coimbra. Propriamente, dever-se-ia dizer aqui esoterismo judaico e esoterismo cristão. Um dos exercícios de pensamento que éramos forçados pelas circunstâncias a praticar era o de determinar o que distinguia um de outro filósofo, mas mais difícil era ainda o de procurar ver o que, em ambos, era comum. De um modo geral, pode dizer-se que Álvaro Ribeiro era racionalista e José Marinho irracionalista. Os dois defendiam, porém, o valor da imaginação e da intuição e ensinavam que o princípio da filosofia é a ideia de Deus. Diferiam radicalmente quanto ao valor gnósico do “juízo”, interpretando a relação do Verbo do quarto Evangelho com a substância em modos distintos. Para José Marinho a relação procedia pelos modos infinitivo e interrogativo, para Álvaro Ribeiro pelo modo indicativo[1] e pelo modo condicional ou imperativo[?]. O juízo é o que cinde a infinitude da relação, o juízo é o que une e torna cognoscível essa mesma infinitude. O juízo, que se componha com o amor, e a razão que se componha com a fé, têm de interrogar-se sobre aquilo que os garanta enquanto actos imediatos do pensamento; o juízo é, em si, uma operação mental de amor à Sofia, que logo se articula com outros juízos para formar um raciocínio completo, ou silogismo, desde que o seu movimento sirva os desígnios da arte. Et caetera, et caetera…

A preocupação de alguns, aquilo de que se ocuparam antes de os ouvir, era a da garantia transcendente da fé católica, a única que nos falava do ensino de Cristo. A fé católica é a fé dos portugueses. Não há, entre nós, outra religião. Ou se é católico, ou não se é católico. É-se budista, shintoísta, para não se ser católico. É-se materialista também para não se ser católico. Mas o que nos perturbava era que se pudesse ser católico e materialista ao mesmo tempo. A filosofia parecia-nos substituir a crença à fé e a fé à ideia de Deus, não só existente mas também vivente em toda a criação.            

 

Giordano Bruno idealizou um sistema de filosofia, pela arte da mnemónica, à qual chamou a “religião da mente”. A expressão é estranha, mas exprime bem o objectivo de atingir a ideia de Deus ou a ideação própria de Deus através do pensamento. Para tanto, o pensamento terá de organizar-se num sistema mnemónico ou da memória coordenado com a memória do mundo, que, segundo Bruno, reside nos astros. A analogia é o método ocultista de conhecimento, ao pretender pensar o invisível pelo visível, encontrar a espécie e o género, partindo do indivíduo. Leonardo Coimbra via nela uma espécie de indução. José Marinho preferia dizer anagogia e negava, como o mestre, autêntico valor gnósico ao silogismo. Álvaro Ribeiro interpretava o silogismo como “catologia”, como a operação inversa da “analogia”. A catalogia faz descer o logos à Terra para a redimir. Com efeito, opunha-se ao destino que José Marinho atribuía à filosofia: o de relacionar o pensamento com o Ser; para ele a filosofia tinha por fim relacionar o pensamento com a acção. Ocultista de formação leonardina, compunha, porém, a catalogia com a analogia, tendo até querido demonstrar que nela está a origem do silogismo.

Era evidente para todos nós que a escola de filosofia fundada por Sampaio Bruno e criada por Leonardo Coimbra vendia um ensino secreto, esotérico, ocultista. Nela perdíamos a nossa alma para a ganharmos. Tratava-se de um desafio. É natural que nem todos tenham aguentado o jogo até ao fim, com todas as suas consequências. Outros, sabendo que a liberdade tem seus riscos, preferiam seguir “a via iniciática de olhos bem abertos”. A expressão é de José Marinho.

Vale a pena lembrar todo o passo da Introdução à Teoria do Ser e da Verdade:   

           

«Assim, o autor crê ter ficado simultaneamente autónomo e fiel a uma via remotíssima de pensamento. Essa via, ao mesmo tempo fácil e dificílima em sua subtileza, ao mesmo tempo e sempre revelada e oculta, permanece aberta para todos os homens e todos os seres. Uns a seguem livres, outros forçados por o que é, para estes, necessidade incompreensível, absurdo destino. Melhor parece livremente segui-la e de olhos abertos.»

 

António Telmo



[1] Nota do editor – Esta palavra surge riscada no manuscrito, sem que tenha sido substituída por outra equivalente; mas António Telmo manteve as palavras que imediatamente se lhe seguem, nomeadamente a conjunção coordenativa “e”, pelo que alvitramos a hipótese de que, afinal, a terá mantido.

 

    

 

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